A mini saia e o feminismo



Por Letícia Maria Barbano

[Texto originalmente publicado no jornal "Correio Popular", de Campinas - SP, em 03.04.14]





A palavra “moda” vem do latim “modus”, que significa “modo”, “maneira”. Moda é o modo ou a maneira de um povo se vestir e se portar em uma determinada época, refletindo determinados costumes e determinada cultura.
Se na Era Vitoriana os babados, volumes e apliques refletiam a prosperidade e austeridade do reinado de Vitória, na era atual o que podemos esperar dos mini-comprimentos, maxi-decotes e exposição sexualizada dos corpos, especialmente o feminino?

O que muitos não sabem, ou ignoram saber, é que o que usamos hoje, em termos de indumentária, é reflexo e conquista em especial da segunda onda feminista. A primeira onda feminista – na realidade posteriormente cunhada como “primeira onda” e como “feminista” – surgiu como oposição ao machismo (aqui entendido como “supremacia masculina”), algo gestado na sociedade burguesa que se formou após a queda da Moral Católica da Idade Média. Nesta época as mulheres reivindicavam direitos como o voto e a dignidade perante o marido. Foi a segunda onda feminista, despontada nos anos sessenta, embasada pelo marxismo cultural e tendo como mote a revolução sexual e a quebra com padrões tradicionais, que alimentou o feminismo que conhecemos hoje, de terceira onda. Tendo como essência uma ideia originalmente socialista – a igualdade – o feminismo usou a estratégia gramsciana de se infiltrar na cultura e educação para então conseguir o sucesso de seus intentos. E, como a moda reflete a cultura, esta foi um dos campos mais influenciados pelas ideias feministas.

Desta época surgem duas linhas – divididas aqui apenas didaticamente – e que influenciam a moda até os dias atuais: a linha da sensualidade, como expressão da libertinagem recém adquirida e refletida nas roupas; e a linha da androginia, como forma de buscar através das roupas uma diluição dos papéis sexuais entre homem e mulher.

A revolução sexual de sessenta fazia as mulheres crerem que tinham liberdade sobre seus corpos e sua sexualidade, e que poderiam - graças ao advento da pílula anticoncepcional e às propagandas abortistas – terem relações quando, como e com quem quisessem. A criadora da mini-saia, Mary Quant, dizia que “bom gosto é morte, vulgaridade é vida”. Dessa época surgiram peças de corte e caimento sensual, que ainda nos dias de hoje fazem sucesso e são tão comuns a tantas marcas e desfiles.

Já a linha igualitarista importou definitivamente elementos do guarda roupa masculino - como calças, camisas, camisetas e cabelo curto – e os incorporou ao feminino. Um estudioso da moda constatou que já em 1965 a produção de calças femininas superou a de saias! Dali para frente, a masculinização do visual da mulher foi rapidamente aumentada e absorvida pelas pessoas. Quem não se lembra das ombreiras da década de oitenta? Pois elas eram uma forma de mostrar que a mulher se firmava como autoridade e ambiciosa em sua carreira, daí tentar deixar os ombros tão largos quanto os dos homens.

Vivemos em uma época cujos valores marxistas e seus tentáculos culturais, como o feminismo, já se enraizaram na sociedade. Torna-se anacronismo rejeitar com intensidade o uso de calças por mulheres, por exemplo, quando algumas profissões e situações exigem tal vestimenta. O mais sensato é valorizar, sempre que possível, o mais belo e anti-feminista de uma mulher: a sua feminilidade e dignidade. Se vestir com dignidade é um modo de ir contra o que o feminismo já construiu em sua relação com a moda.

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