Espanha: primeiras impressões - Parte 01

Olá, caros!

Como já comentei, estou na Espanha para estudar por um ano pelo programa Ciência sem Fronteiras.
Ainda estou em processo de adaptação, mas já posso tirar alguns comentários sobre as minhas três primeiras semanas aqui.

Fiquei uma semana em Madri, uma em Valência e agora estou na cidade que realmente moro, Talavera de la Reina. 

Em Madri tive a maravilhosa oportunidade de visitar o circuito dos três principais museos da cidade: Museo del Prado, Thyssen-Bornemisza e Museo de Reina Sofia. A dica quente é: estudante até 25  anos entra de graça no Prado e Reina Sofia e paga metade (7 euros) no Thyssen.
Nestes três locais percebi o quanto o relativismo moral influencia todas as esferas de uma sociedade, inclusive - e principalmente -  a arte, o reflexo da vida humana. Se na Idade Média e Renascença o que predominava era uma tentativa quase perfeita de pintar cenas bíblicas, retratos e objetos com atenção aos detalhes, já a partir de meados do século XVIII e XIX - influenciados por uma mentalidade revolucionária e anti clerical - nota-se nas pinceladas indícios de rebeldia, seja pelos temas retratados, seja pela forma como se os retratava. A situação fica realmente lastimável nos séculos XX e XXI: rabiscos elevados ao padrão de "Arte".  Não sou nenhuma especialista em artes, tenham aqui apenas minha singela impressão (e sintam-se à vontade para fazer comentários).

Pintura de Jan J Treck do século XVI no Museo Thyssen



O museu que realmente mais aproveitei foi o Museo del Romanticismo. Aviso-lhes em primeira mão que em breve sairá um artigo científico que escrevi com um professor sobre o relativismo, a burguesia, o machismo e o patriarcalismo. Quando temos um objeto de estudo e já sabemos um pouco sobre ele, visitar um museu deste tipo faz você entender muito melhor as nuances dos acontecimentos relatados nos livros. A classe burguesa, surgida em um contexto de fim de Idade Média, queda da Moral Católica e início de um pensamento liberal e anti-clerical, consolida-se nos séculos XVII e XVIII nas revoluções e ciência. Cada vez mais próxima da vida urbana, da usura (outrora condenada pela Igreja) e do lucro desmedido ("não havia mais que outra lei além do lucro" - p.86, Pernoud, Regine, A Burguesia, 1995, Europa América Publicações), e cada vez mais distante da fé e da Moral, este fenômeno vai se enraizando profunda e irremediavelmente na cultura moderna (quem não tem um pouco de burguês, que atire a primeira pedra!)

Se antes, na Idade Média, a família patriarcal rural permitia que a mulher pudesse trabalhar em outras esferas além de seu lar, agora, na vida urbana, devido às limitações que esta oferecia - como a restrição ao número de membros - a mulher era obrigada a cuidar do lar enquanto o marido trabalhava, pois se era reduzido o número de filhos também era reduzido o número de ajuda.

Nas Ciências e Filosofia, sendo esta nova classe já desfeita de padrões morais, era terreno fértil ali se desenvolver a experiência submissa à teoria e a Moral separada da religião. Diz Pernoud, no livro supracitado, "o conjunto podia satisfazer a mentalidade burguesa, plena de clareza e de ordem lógica, habituada em regular sua conduta e seu pensamento em dados de seu próprio entendimento" (p.77).

Assim, para suprir o vácuo espiritual deixado por uma vida demasiadamente material, a burguesia foi se apegando cada vez mais a frivolidades e detalhes exteriores, como estar sempre bem apresentável, agir com determinados modos, se apegar a aparências e fingir ter cultura. 

Consegui visualizar muito bem isso em painéis interativos do museo que mostravam que, dependendo o modo como a moça segurava o leque, isso significava uma mensagem a ser passada ao rapaz. Nas relações sociais, a dupla moral: homem que tinha família e ia à igreja, mas se divertia frequentemente às escondidas com a amante. Na decoração, uma tentativa de imitar os reis (aliás, sobre esse assunto, muita gente não concorda com a monarquia porque logo vem à mente a figura de uma nobreza a la Napoleão e absolutista, isto é, usurpadora do povo. Sugiro a leitura deste texto para um start na compreensão de que monarquia verdadeira foi a da Idade Média, em que o rei era submisso à vontade de Deus e governava para servi-Lo através de seu trabalho pelo povo).





Em Valência, fui ao Museo Fallero e lá descobri que as fallas - espécie de boneco de material diversificado - outrora faziam parte de uma festa cristã em que se queimavam bonecos que representavam vícios humanos (tipo o costume de "malhar judas" que há em determinadas regiões do Brasil, sabe?). Porém, com o tempo, ganhou um caráter secular e começou a retratar tipos e situações humanas de cada época.

Fallas de 1942, com a inscrição de "Fallas de San Jose"e o fogo sob um tipo representando algum vício humano
Cartaz das Fallas de 2007, sem o "San Jose", já secularizado. Se náo me engano, as fallas neste dado ano tiveram como tema algo esotérico: as fadas.



Me chamou muito a atenção esta falla de 1961, de autoria de Julià Puche Ferrándiz, a representação degradante da família e dos filhos em uma década de revolução sexual, da disseminação da pílula contraceptiva e da ideia de emancipação feminina. Lamentável.



Outras fallas, de outras épocas:





Por fim, saindo da linha de museus, fui a uma tourada em Madri, na famosa Plaza de Las Ventas. Deixo aqui as fotos e um texto do Rafael Brodbeck sobre a questão da licitude (ou não) de uma tourada






Há algo em especial que vocês gostariam de ver aqui? :)

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