Espanha: Primeiras Impressões - Parte 3 - O cristão em um ambiente não-cristão

Olá, pessoal!

Uma leitora querida que quer se manter no anonimato me enviou a seguinte mensagem:

Olá, Letícia! Acabei de ler sua impressões sobre a Espanha. Muito obrigada, eu não sabia nada daquilo, foi uma verdadeira aula. Vc poderia nos dizer pós graduação em que vc cursa? Qto tempo vai ficar, onde se hospeda, como é o ambiente estudantil, se é cristão; caso não seja, como é viver em um ambiente humanista, sem valores morais absolutos, como se relaciona nesse meio com as pessoas e como é a vida cristã nesse país hj? Pergunto por curiosidade, e pq tenho dois filhos na faculdade, como vc. Isso é o q eu gostaria de saber, se possível, como vc sugeriu no blog. Muito obrigada!
(Vc foi c uma turma de cristãos?)

Talvez outras pessoas tiveram esta curiosidade e creio que, compartilhando um pouquinho do estou vivendo, outros jovens como eu poderão contribuir para minha formação - comentando sobre a experiência que eu irei descrever - e eu para a deles.


O que eu curso e como vim parar aqui




Não sei se as pessoas pensam que sou mais velha ou mais nova, mas tenho 22 anos e sou estudante de graduação de Terapia Ocupacional na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), em São Carlos, interior de São Paulo (por isso tenho este sotaque com "R" puxado! rs)

Sempre tentei ser uma aluna muito dedicada (afinal, como cristãos, devemos agradar a Deus em tudo, inclusive dedicando-nos aos estudos). Em sala, quando surgia oportunidade de falar e defender valores, eu os fazia, pedindo sempre a luz de Deus e tentando ter prudência. O fato é que mesmo tendo problemas com alguns professores e colegas de sala, e mesmo tendo dificuldades e sendo um pouco mediana em algumas matérias, consegui ter um bom histórico escolar.


Em 2013 senti um desejo muito forte de participar do Ciência Sem Fronteiras - um programa do governo federal de bolsas internacionais para alunos dos cursos de biológicas e exatas - e comecei a colocar em oração se era da Vontade de Deus que eu viesse. Missas, terços e comunhões ofereci pedindo para Deus iluminar se era para eu vir mesmo, para qual cidade, para qual universidade, onde eu deveria morar, etc.

O meu desejo de vir para cá só aumentava a cada dia e entendi isso, depois de vários meses de oração, como uma resposta positiva de Deus. Me inscrevi no programa, passei pelas seletivas da minha universidade e do próprio CNPQ, que é a agência de fomento que nos fornece as bolsas, e, enfim, passei na seleção final do programa que me permitiu estar aqui. :)

Eu tinha a opção de escolher várias universidades dentro das ofertas, mas, não sei porque cargas d'água, as universidades oferecidas eram em locais que eu nunca ouvi falar na vida (tipo Burgos, Murcia, Extremadura,etc). Escolhi a Universidad de Castilla-La Mancha sem saber muito bem o que estava fazendo e só quando cheguei na cidade que moro hoje (Talavera de La Reina, na província de Toledo) que descobri, pelos moradores da cidade, que a universidade que estou é a melhor da Espanha na minha área, pois têm professores que escrevem artigos e livros relevantes para minha profissão! É providência de Deus ou não?!

Onde vivo

Eu digo para todo mundo que minha vida se baseia na providência de Deus, e neste intercâmbio não é nada diferente. Antes de vir eu necessitava acertar algum lugar para ficar, mas não tinha ideia de como escolher isso. Dividir apartamento com outros brasileiros? Não dava porque só eu de brasileira viria para esta cidade. Dividir apartamento com estrangeiros? Era uma opção, mas não conhecia ninguém. Vi no site da universidade algumas residências universitárias e, sem muito critério de escolha, achei simpática uma delas e contatei. Para reservar a vaga teria que fazer um depósito de 100 euros, porém cobram-se taxas altíssimas para transferências ou depósitos do Brasil para outros países e em outras moedas. Então avisei à proprietária que não poderia reservar, mas que queria muito a vaga.
A dona da residência disse que não poderia garantir a reserva, mas que tentaria deixar uma vaga para mim. Cheguei a Espanha, vivo nesta residência, mas só depois de algumas semanas que proprietária me contou que todas as vagas estavam preenchidas antes de eu vir, porém uma das moças desistiu uma semana antes de eu chegar e, como esta moça já havia pago os 100 euros, ela sentiu dentro dela que deveria transferir a vaga da moça para mim. #ProvidênciaDeNovo!


Ambiente Estudantil e a Vida Cristã na Europa

Uma coisa que eu gosto muito muito muito aqui é que há muitíssimas igrejas - e igrejas lindas! Praticamente a cada três ou quatro quarteirões você encontra uma igreja.


Mas, infelizmente, em quase todas você só verá idosos frequentando-as. É raríssimo encontrar um jovem nas missas. Os idosos da igrejinha que frequento ficaram até um pouco assustados quando me viram indo na missa todos os dias. Esta Europa, especialmente esta Espanha, tão descristianizada me fez pensar como pode ainda manter-se em pé e não estar em um regime totalitário. A resposta está a algumas quadras da minha casa: em muitas cidades há Santuários de Adoração Perpétua. Sim, um santuário em que o Santíssimo Sacramento fica exposto 24 horas por dia e as pessoas se revezam para estar ali durante este tempo. Vejo isso aqui, vi em Paris (o Santuário do Sagrado Coração - Sacré Coeur - é de adoração perpétua!) e vi isso em outros locais, também. Imagine como o Brasil poderia estar muito mais inundado por graças se esta prática fosse mais comum aí!


Sacré Coeur de Paris


Quando você pergunta a uma pessoa se ela é católica, ou ela diz que "mais ou menos" (o que, entre nós, significa "não"), ou ela diz "ah, meus avós são" (o que significa "eu fui educado para ser, mas não sou"). Esses jovens ou adultos não vão a missas nem rezam diariamente e se questionam por que seguir determinados valores. Triste fim para uma Espanha outrora de Santa Teresa, São João da Cruz, São Pedro de Alcântara, dos mártires da guerra civil, entre tantos outros exemplos de santidade.




No Brasil eu tinha um grupo de jovens que frequentava e me fazia sentir-me mais "normal". Saíamos para comer lanche e trocávamos conselhos sobre nossas vidas. Tinha minhas outras amigas, tão católicas quanto eu, e o apoio da família para nos aconselhar. Aqui só estou eu, Deus e meus anjos da guarda! Então vejo que toda a formação que tive ao longo da vida foi uma preparação para o que estou vivendo agora. Longe de tudo e todos, o que vale, agora, é minha moral e caráter. Eu posso ser aqui a pior ou a melhor pessoa do mundo, ninguém irá saber. Meus pais estão longe e meus amigos também. São nesses momentos de solidão que você se encontra consigo mesmo e percebe quem você realmente é e que valores você tem. Eu escolhi ser cristã aqui e pedir para ser usada de instrumento por Deus para a conversão das pessoas ao meu redor. Sei que não vou conseguir converter a Europa, mas se eu conseguir levar para mais perto Dele ao menos alguma das meninas que moram comigo ou algum dos meus colegas de classe, já ficarei extremamente feliz e poderei dizer que minha estadia aqui valeu muitíssimo a pena!

E para evangelizar estas pessoas? Por experiência própria, há que se ter prudência. Não adianta ficar dando lição de moral em cada ato errado que a pessoa faz ou cada opinião errada que a pessoa tenha. Isto não é omissão, é prudência! Se ficarmos corrigindo a todo momento, as pessoas vão ficar bravas, perderão a confiança em você e vão se afastar da sua presença, afinal, ninguém gosta de andar com alguém que não aprove seus atos, certo?
O melhor caminho é começar rezando. Peça para o Espírito Santo conduzir suas ações e te iluminar como você deve agir em relação as pessoas para levá-las para mais perto de Deus.
Junto com a oração eu tento ser amiga e ganhar a confiança dos outros. Ser sociável (algo muito difícil para mim...sério, por mim eu ficaria dentro do meu quarto para o resto da vida, mas não é para isso que nasci, né?!). Também tento fazer piadas e ser uma pessoa alegre e agradável. É só depois de ter conquistado a confiança das pessoas que vou falando, nas oportunidades que vão surgindo, algo de cristão.

Vou contar um caso aqui...

Vinho, Tapas e Evangelização

Sem querer me aproximei, em especial, de três pessoas da minha sala: um casal e uma moça. Depois de fazermos um trabalho da faculdade, eles me convidaram para "salir de tapas" (isto é, tomar algo em um barzinho). Eu estava com muita vontade de dar um super migué e voltar para casa, mas aceitei porque eles disseram que queriam ir ao barzinho só por minha causa, para eu conhecer. Então lá fui eu! :P
Lá pelos meados da conversa, eles começaram a discutir sobre aborto e sobre virgindade. Eu ali, com jeito e caridade, fui colocando algumas opiniões. Enviei depois os links de alguns videos (este, este e este) sobre o assunto para uma das meninas. E assim fiz meu pedacinho de evangelização.

Em muitos momentos de minha vida eu fui muito dura com as pessoas. Achava que se eu não as corrigisse, estaria pecando por omissão. Depois desta aula do Pe Paulo eu percebi quanto me faltava a caridade e como esta tem que ser uma virtude mestra na evangelização do cotidiano. Adiantaria eu ser cortante nas minhas palavras na situação citada sobre o aborto e virgindade? Não, não adiantaria. Eu faria as pessoas se afastarem de mim. 

Às vezes pensamos que devemos tratar as pessoas como elas merecem ser tratadas. Imagine se Deus me tratasse como eu mereço - Ai de mim! Não estaria aqui, nem escrevendo para vocês neste momento. Conclusão: Tenha caridade!

"Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, mas se não tivesse caridade, eu não seria nada" (I Cor, 13: 2)

Os divertimentos e o cristão

Como comentei, a cidade que moro só tem eu de brasileira e perto de mim há poucas pessoas cristãs. Em Madrid, uma cidade perto da minha, há muitos brasileiros que também vieram pelo Ciência Sem Fronteiras e os quais tenho certo contato. Este colegas que tenho gostam muito de frequentar baladas e afins, o que me fez entrar em uma crise de dúvidas sobre a licitude de certos divertimentos. Se, como eu disse, precisamos nos aproximar das pessoas, fazê-las confiar em nós, para então tentarmos levá-las para mais perto de Deus, como fazer isso quando a forma de se aproximar dos colegas é através de baladas? Seriam as baladas um divertimento lícito para o cristão?


Fiquei martelando isso dias e dias. A questão piorou quando fui ler os escritos de Santo Cura Dars sobre os bailes da época dele. Resolvi perguntar ao meu diretor espiritual sobre tudo isso e a resposta foi que "é preciso levar em conta o tempo no qual viveu o Cura d'Ars para não tirarmos conclusões equivocadas e anacrônicas. Havia na época, por parte da Igreja e dos pastores zelosos, uma reação à dissolução moral que dominou a França (e o mundo) após a Revolução, que impregnava tudo com uma mentalidade inteiramente anticristã. O importante é retermos aquilo que é essencial e perene: um divertimento é sadio quando não atenta contra a fé e as virtudes cristãs".

Minhas principais dúvidas eram sobre a) divertimento em barzinhos e b) divertimento em baladas. Escreveu meu diretor:

"Em si, ir a barzinhos para conversar e comer petiscos, ouvir música, dançar etc., não contraria nem a fé nem a moral, e, por isso, não vejo problema que você frequente esses ambientes. É claro que é preciso bom senso: depende do bar, depende da quantidade de bebida consumida, depende do tipo de conversação etc. Uma norma válida sempre, ensinada por todos os mestres espirituais, é a de nunca nos colocarmos na ocasião de pecado. Quem não consegue se conter nesses ambientes, é melhor não frequentá-los. Por vezes, o que não é inconveniente para uma pessoa, é para outra. Por outro lado, divertir-se sadiamente nesses locais com amigos não cristãos pode ser também uma ocasião para você testemunhar sua fé, demonstrando que para ser discípulo de Jesus não é preciso ser chato e antissocial. Em outras palavras, o Evangelho pede que o cristão seja puro, não puritano (algo próprio das seitas, não do catolicismo)" [grifos meus]

Como comentou meu diretor, é preciso ter muita força para se conter e também discernimento para saber qual ambiente é propício ou não. Há festas de universidade e bailes em discotecas que eu iria, se isso não me oferecesse ocasião de pecado e permitisse que eu me aproximasse das pessoas de um modo sadio. Porém há que se ter discernimento e prudência!

Eu recomendaria às pessoas que leem este post e têm a mesma dúvida que eu tinha para conversarem com seus diretores espirituais e rezarem sempre pedindo muito discernimento para Deus.

Espero ter respondido às questões da leitora e também compartilhado com outros jovens um pouco do que estou vivendo.

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Veja também:

Espanha: Primeiras Impressões - Parte 01 - Museus e História
Espanha: Primeiras Impressões - Parte 02 - Praia, Moda e Compras

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10 comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Ahhh... Já acabou??? Q pena!!! :D
    Letícia, que maravilhoso você dividir com a gente detalhes dessa etapa da sua vida. Ri, me emocionei e acompanhei seu relato com muuuito entusiasmo, quase sem piscar para não perder nenhum momento. E é claro que vou ler outra vez e já vou passar para meus filhos, e ainda vou recomendar para muitos jovens - tanta sabedoria tem que ser dividida, não pode ficar só por aqui -. Você me fez lembrar da integridade da vida de Daniel na Babilônia e de José no Egito. Se eu fosse jovem, gostaria muito de ter as experiências da Letícia para ler! (Isso pode virar um livro! E delicadamente ilustrado... ;) ) E mesmo já tendo excedido a idade, estou aprendendo... Obrigada pela liberalidade em compartilhar e pela forma maravilhosa que escreve, prendendo nossa atenção e estimulando nossa imaginação em todo tempo, nos fazendo viver essas experiências com você. Que Deus continue abençoando e conduzindo o seu caminho. Esperando pelo próximo capítulo, assim como a gente espera ansiosamente para virar a página de um belo livro... E obrigada pelos links! Bjo enorme, um ótimo domingo e uma ótima estadia!
    (Desculpe ter ficado tão grande,mas foi do tamanho do meu entusiasmo... rsrsrs...)

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    1. Ira, que gracinha! Eu que agradeço o comentário e seu entusiasmo em acompanhar o blog e os programas de rádio.
      Muito muito muito obrigada por todo o carinho :)
      Por favor, reze sempre por mim!
      Grande abraço!

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  4. Adorei o post Letícia! Acho incrível sua maturidade tendo apenas 21 anos de idade! Parabéns! Eu adoro seu blog, sempre me ajuda! Bjs

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  5. Sábias palavras, Lê!!!!! Saudades de vc! Um beijão!!!! Que Deus a abençoe e a Virgem te proteja!!!!

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  6. Sábias palavras, Lê!!!!! Saudades de vc! Um beijão!!!! Que Deus a abençoe e a Virgem te proteja!!!!

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  7. Sábias palavras, Lê!!!!! Saudades de vc! Um beijão!!!! Que Deus a abençoe e a Virgem te proteja!!!!

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  8. Incrivel, e linda, sua historia--quantos sao os que nao procuram--e nunca caham--as maos de Deus Pai nas nossa vidas. Sua maturidade e' inspiradora. Fico rezando e esperando que voce ainda ache por ai' um grupo de gente da sua idade que viva com um coracao ardente e cristao! Meus irmaos costumavma ir `a Adorcao Perpetua no centro do Rio... nao sei ao certo mas talvez fosse essa paroquia: http://noticias.cancaonova.com/1o-santuario-de-adoracao-perpetua-do-brasil-completa-200-anos/

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