Filme "A Onda" - Ideologia e manipulação

  • 17:29
  • By Modéstia e Pudor - Colaborador
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Por Carolina  Maldaner


O fascismo pode ser implantado em qualquer ambiente e a sala de aula é o objeto chave para que as doutrinas se diluam por toda uma nação. Os jovens, ainda em formação intelectual, não possuem o arcabouço necessário para diferenciar o bem do mal e são facilmente manipuláveis. O professor, como figura homérica, de grande valor para o aluno em formação, possui todas as ferramentas para gradual e lentamente inserir na escola sua doutrina, mascarada de bem, a exemplo de Hitler.

A análise que segue tem como base o estudo da semiótica tomando como base as teorias de Pietroforte [1] e Greimas [2].

A semiótica estuda a significação, que é definida no conceito de texto. O texto, por sua vez, pode ser definido como uma relação entre um plano de expressão e um plano de conteúdo. O plano de conteúdo refere-se ao significado do texto, ou seja, como se costuma dizer em semiótica, ao que o texto diz e como ele faz para dizer o que diz. O plano de expressão refere-se à manifestação desse conteúdo em um sistema de significação verbal, não-verbal ou sincrético. (PIETROFORTE, p 11)

No século XX, após o suicídio do líder nazista, vários autores trabalharam acerca da indagação: o que leva um grupo de pessoas a apoiar um movimento que extermina milhões de pessoas sem receio e implanta o ódio por onde passa?

A tese mais impactante porém talvez tenha sido a liderada por um professor de história da Escola Secundária Cubberley, de Palo Alto, Califórnia, no ano de 1967 chamado Ron Jones. Vendo-se incapaz de responder às perguntas dos alunos quanto a o que levou as pessoas a apoiarem o movimento nazista, o professor decide implantar um fascismo dentro de sala de aula e mostrar aos alunos como as pessoas são facilmente manipuladas. Ao final, os aliados à “seita” já triplicavam e ele pôde comprovar a força de uma ideologia que se infiltra nas salas de aula.
Aliás, é por estes meios que ela acontece de forma bastante eficaz, como dizia Hitler: “Eu começo com os jovens. Nós, os mais velhos, estamos desgastados, mas meus jovens magníficos! Existem melhores que esses em qualquer lugar do mundo? Olhe para todos esses homens e garotos! Que material! Juntos, nós podemos fazer um novo mundo!” [3]

Em 1981 um filme (dirigido por Alexander Grasshoff) e um romance (“The Wave”, de Todd Strasser) foram feitos retratando os fatos ocorridos na escola de Palo Alto.

Passadas três décadas, precisamente em 2008, o pesadelo é relembrado em um remake fenomenal dirigido pelo alemão Dennis Gansel. Ele se baseia no filme e livro já publicados trazendo um ar contemporâneo à narrativa, que se passa dentro da sociedade alemã.





Vemos no filme o professor Wenger como sujeito manipulador que utiliza a tentação como forma de manipular. Se eles formassem um grupo, se unissem e lutassem juntos poderiam “espalhar a onda” por todos os lugares e construir uma sociedade igualitária. Os alunos são o sujeito manipulado. Para explicar como se deu a transformação da liberdade para a dominação podemos analisar o percurso do sujeito.


O professor Wenger inicia a imposição de uma ditadura como forma de provar aos alunos que ela é possível, como resposta à pergunta inicial: “É impossível surgir uma comunidade fascista nos dias de hoje?”. O sujeito possui a competência de querer-fazer ao passo que os alunos competem, de início, o dever-fazer. Conforme o professor vai cativando os alunos, dando-os liberdade para escolherem o perfil do grupo, colocando características dos estudantes nele, a turma começa a se identificar com a proposta inicial do professor e passa do dever-fazer ao querer-fazer e poder-fazer. Não se torna mais obrigação e sim gosto por aquilo que fazem, onde nada os impede. Uma das metas de Wenger foi então atingida – ele manipulou os alunos de forma com que eles passassem a incorporar neles próprios a identidade do grupo imposta. O contrato fiduciário foi cumprido. Sem perceber, os alunos entravam na ideologia.


Haviam somente duas alunas que fugiram deste propósito, onde a manipulação do sujeito (Wenger) não obteve sucesso. Trata-se se Karo e sua colega. No filme, portanto, quem leva destaque mais é a primeira. Mesmo tendo o namorado como um dos integrantes mais fiéis da Onda, Karo não desiste de lutar pelo que acredita e não se deixa manipular pelo grupo. Aqui a relação do acordo estabelecido entre as actantes não foi fechado. Karo percebeu que o professor estava cometendo uma falta grave e Wenger se deparou com a resistência de Karo. Isso acarretou a um estado de decepção que fez com que Wenger, em certo momento do filme, dissesse à Karo que ela poderia sair do grupo se não estivesse satisfeita e a aluna se determinou a lutar para que o professor fosse desmascarado.

Na semiótica o sentido nasce de relações e para dar base a toda a análise que seguirá, o analista necessita destacar uma relação de nível fundamental para toda a obra, que possa dar sustentação e que, por si só, já revele o aspecto principal do objeto analisado. Esta relação se dá através de oposições, conforme explica Platão e Fiorin (2011:88):

Um texto remete a duas concepções diferentes: aquela que ele defende e aquela em oposição à qual ele se constrói. Nele, ressoam duas vozes, dois pontos de vista. Sob as palavras de um discurso, há outras palavras, outro discurso, outro ponto de vista social. Para constituir sua concepção sobre um dado tema, o falante leva sempre em conta a de outro, que, de certa forma, está, pois, também presente no discurso construído. [4]


O filme “A Onda” tem como nível fundamental a “liberdade X dominação”, pois para todos os personagens a busca era liberdade mas no fim o que obtiveram foi a dominação.

Os alunos de uma forma geral lutavam por liberdade e acabaram presos e dominados pelas suas próprias ideologias e crenças no decorrer do período, mesmo sem perceberem. No fim, eles têm a certeza clara de que de fato A Onda não trouxe liberdade a eles e sim dominação. O mesmo ocorreu com o professor Wenger, que buscava liberdade e acabou sem forças para controlar, dominado pelo próprio movimento que criou. No final ele é literalmente preso, provando que seu objetivo não foi alcançado.





A passagem da liberdade para a dominação na visão do destinatário dá-se da seguinte forma. Inicialmente a ideia de um grupo parece ser bondosa e de início parece ser e é. Os alunos acreditam que aquilo é bom e, conforme mais pessoas vão aderindo a ele os alunos comprovam que aquilo realmente é bom. Na verdade todos eles têm necessidade de auto afirmação, por isso vão “na onda”. Alunos que antes eram isolados e rebaixados agora podem ser protegidos por um grupo, que ganha cada vez mais força arrastando um número imenso de estudantes.


Ao final, quando o professor Wenger realiza seu discurso de que A Onda foi um teste, uma comprovação de que a ditadura pode adentrar onde quiser, minuciosamente, os alunos ficam chocados e se deparam com a quebra do ideal. Tem-se naquele momento a passagem do parece e é ao parece mas não é. Porém haviam alunos tão presos àquela ideologia que não conseguiram sair dela. Estes, se manifestaram levantando-se e afirmando que “a onda não pode acabar”. Tim, a maior vítima da ditadura não poderia deixar seu sonho e seu grupo caírem. Sacando de uma arma ele traduz todo o seu desespero ao ver toda a sua imagem construída dentro do grupo se desfazer nas falas do professor. Após ser desafiado sobre a veracidade da arma, Tim atira, ferindo Bomber.


Nesta cena, uma das mais importantes do filme, onde se dá a passagem da crença de liberdade para a então percepção de dominação, podemos observar que a câmera passou de objetiva (a qual captada cenas amplas, como sendo uma visão do espectador assistindo o desenrolar do fato de forma neutra e passiva) para a câmera subjetiva (traduzindo os sentimentos do personagem).






Aqui, a câmera dá um close e foca o rosto triste, revoltado e derramado em lágrimas de Tim. De todas as partes do corpo a que mais expressa sentimentos, com certeza, é o rosto. Ocupando quase todo o campo visual da tela da TV, o rosto faz com que o espectador dirija toda a sua atenção para o sentimento do personagem, por isso o close também é conhecido como plano emotivo.


Tim começa a implorar a Wenger para a volta d’A Onda. O professor consegue acalmá-lo, mas antes de ele baixar a arma opta pelo suicídio. Tim, que apostou toda a sua vida em um grupo, em uma ideologia e a viveu como se ela fosse ele próprio, não viu outra saída senão dar fim à vida. Era isso ou a solidão e baixeza novamente, sem a força do grupo.

Ortega Y Gasset (1962:65) fala sobre a força da massa sobre o sujeito:

Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida, o intervencionismo do Estado, a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado; quer dizer, a anulação da espontaneidade histórica, que em definitivo sustenta, nutre e impele os destinos humanos. Quando a massa sente uma desventura, ou simplesmente algum forte apetite, é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo - sem esforço, luta, dúvida nem risco - apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu", o que é um perfeito erro. O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. Mas o caso é que o homem-massa crê, com efeito, que ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto, a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe - que o perturbe em qualquer ordem: em política, em idéias, em indústria. [5]


Diante de tamanha tragédia podemos analisar então que a performance do sujeito, em comprovar aos alunos de que uma ditadura é possível, foi concretizada. Apesar de todos os acontecimentos antagônicos, tudo fugindo do controle de Wenger, alunos extremistas, todas as curvas no percurso do sujeito em busca da performance, no final a mensagem que ele queria passar desde o início foi concretizada – agora os alunos possuem discernimento para perceber o que é uma ditadura e do que é capaz.

A última cena do filme mostra o professor saindo algemado da escola acompanhado de policiais. A câmera é aberta, objetiva, a fim de que o espectador veja o caos em torno, com jovens sendo consolados pelos pais, alunos chorando, todos olhando assustados para o professor enquanto ele se encaminha ao carro da polícia.





Dentro do carro, a câmera volta a focar o rosto permitindo ao espectador sentir todo o drama do personagem. Neste momento, a tela fica preenchida com a face de Wenger e o único som que ouvimos é os suspiros desesperados do professor que iniciou suas aulas buscando alcançar a autocracia, passar uma lição de liberdade aos alunos e no final o que obteve foi o mais terrível e profundo caos. Na cena final olhar e som traduzem todo um sentimento.

E assistindo ao filme A Onda, infelizmente me veio à mente nosso país – e creio que isto é comum a todos e inevitável. Nas escolas brasileiras professores têm como meta não instruir mas doutrinar. São dominados pela própria ideologia, se iludem com a liberdade quando eles próprios arquitetam seu futuro caos. Brasil, nossa agora pátria doutrinadora, precisa endireitar-se.





1 - PIETROFORTE, A. V. Semiótica visual: os percursos do olhar. São Paulo: Contexto, 2004.

2 - A semiótica francesa, proposta pelo lituano Algirdas Julien Greimas (1917-1992).

3 - Adolf Hitler em um discurso do partido Nazista em 1933

4 - FIORIM, José Luiz. Elementos da análise do discurso. Editora Contexto.

5 - ORTEGA Y GASSET, José. J. A rebelião das massas. Rio de Janeiro: Livro Ibero-americano, 1962.

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2 comentários

  1. Excelente análise, obrigada Carolina.
    Rezemos pelo nosso pais.

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  2. Ótimo texto, vou procurar o filme, muito obrigado!

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