Novos Rumos




Quando o programa de rádio começou, e depois surgiu, por pedido dos ouvintes, a ideia de ilustrar o comentado através do blog, o Modéstia&Pudor tinha um único objetivo: a formação intelectual e restauração da dignidade das mulheres inclusive no meio conservador.

O apostolado cresceu de uma maneira rápida e, por caminhos que fomos percorrendo, nos desviamos por alguns momentos de nosso propósito inicial, chegando a nos focarmos em moda e exemplos práticos de modéstia. Todavia, como nos orientam diversos santos e sacerdotes, devemos sempre desconfiar de nós mesmos.

Após muito colocar em oração e oferecer comunhões, terços, sacrifícios por esta intenção, e após conversar com amigos e dois excelentes sacerdotes que se propuseram a dirigir nosso apostolado, chegamos à conclusão de que devemos voltar ao nosso objetivo inicial: a formação intelectual e humana dos que anos acompanham.

Quando se está sólido e bem formado em termos de virtudes, é muito mais fácil optar por uma vida verdadeiramente cristã em todos os domínios, inclusive no das vestimentas. Aliás, quando se tem uma boa formação, a roupa a se usar será um pequeno detalhe em meio ao todo que é uma vida de santidade e sacrifícios.

Se falamos de modéstia, falamos de uma virtude, e uma virtude não pode ser vivida isoladamente, como se fosse uma caixa que se compra e se usa o conteúdo. Infelizmente estamos acostumados, por uma mentalidade positivista, a enxergarmos as coisas de um modo muito objetivo e racional. A questão é que, se tratando de Moral, temos de tomar o tecido inteiro, e não apenas alguns de seus fios. A modéstia isolada de outras virtudes pode ser mal compreendida e levada a extremos. Todavia, quando alinhada à caridade, prudência, temperança, castidade, pureza e pudor, nos leva ao real objetivo de vivê-la: aproximar-se mais do céu.

É por isso que se tratando de vestimentas a posição da Igreja, em termos de doutrina (isto é, observando o Catecismo e os Documentos Papais) não aponta para o leigo uma regra de vestimenta, mas coloca que este deve usar das virtudes para se vestir, não se assemelhando ao sexo oposto [1] nem usando trajes que excitem sexualmente alguém [2]. Fora isso, são apenas opiniões. Se estamos neste mundo apenas querendo cumprir o que manda a Igreja, então obedecê-la é o mínimo do mínimo que podemos fazer. Porém, se além de obedecer a Deus queremos agradá-lo mais, amá-lo mais, sair da mornidão e dar um passo mais profundo, então não iremos nos contentar apenas em obedecer o que a Igreja nos pede, mas sim em imitar os santos e a Nossa Senhora. É nesse ponto, nessa tentativa de sair do “mais ou menos” e querer amar mais a Deus, que iremos a missa todos os dias, procuraremos um diretor espiritual para nos dar penitências, buscaremos leituras edificantes, ofereceremos jejuns e mortificações para conversão de outras pessoas e procuraremos expressar isso exteriormente nos vestindo com mais decoro, usando mais saias, mais vestidos, porque sabemos que são mais prudentes e femininos que calças. Quando, todavia, optarmos por usar calças, que a usemos de uma maneira modesta e feminina.

Entendem o que queremos expressar? Não estamos mais na questão de “é pecado ou não é pecado”. Estamos na questão de amar a Deus em tudo, inclusive nos pormenores. É por isso que devemos nos fortalecer em virtudes e orações, pois é este caminho que nos guiará a agir, pensar, viver e se vestir do modo mais prudente e que mais agrada a Deus nas diversas situações.

Nesta caminhada de santificação por uma tentativa de querer agradar cada vez mais a Deus poderemos cair em extremos que nos desviam do verdadeiro foco. Um destes extremos pode ser o escrúpulo, quando a alma experimenta uma angustia de, por qualquer coisa, pensar que ofendeu a Deus. Assim, esta alma deixa até de obedecer ao seu diretor espiritual e passa a ver pecado em tudo e todos. Não se deve confundir o escrúpulo com a consciência delicada, esta quer evitar a mínima falta por amor a Deus e obedece ao diretor espiritual com doçura. Outro extremo que podemos cair é a tibieza, que é a “hesitação ou negligência em corresponder ao amor divino” (CIC 2094). Aí nos conformamos em sermos do mundo, já não encontramos graça na vida de orações nem sentido em tantas práticas de piedade, vivemos como o mundo e disfrutando os prazeres do mundo, nos esquecendo de buscarmos e amarmos mais a Deus. Tanto em um caso como no outro a tendência será, em termos de vestimentas, a seguir rigidamente um padrão ou a relaxar nos padrões, usando tudo o que é moda sem filtrar se convém ou não a uma mulher cristã.

É por causa da descristianização, da falta de virtudes ou, como diria Chesterton, das virtudes cristãs soltas pelo mundo e desvinculadas umas das outras, que o mundo moderno corre em uma estrada larga para o abismo. Em cada época, Deus, todavia, suscita bons homens para que sejam instrumentos Dele e trabalham para Ele para a salvação das almas. Lembramos de Santa Joana de Lestonnac e Santa Teresa de Jesus, que em suas épocas vivenciaram o quão danoso foi a Reforma e as teses de Calvino para a vida religiosa católica: a libertinagem e o escândalo despontava em muitos mosteiros e conventos, e na vida leiga trazia cada vez mais pessoas a abandonarem a fé. Santa Teresa foi inspirada a reformar e reconduzir o Carmelo a ortodoxia, e Santa Joana a fundar uma ordem que unia a clausura com o ensino católico para meninas. Hoje, provavelmente devido a devassidão moral que experimenta nosso mundo, Deus tenha suscitado tantos apostolados de modéstia, como nunca se ouviu que existissem em nenhuma outra época.

É exatamente olhando para a devassidão do mundo que nos perguntamos: estamos levando as almas para Deus ou deixando-as a se envolverem cada vez mais com o mundo?

Em cada época e em cada situação, Deus inspirou diversos temperamentos e modos de reconduzir as pessoas a Ele. Desde a severidade de Padre Pio de Pietrelcina ou Santo Cura Dars, passando pela coragem de Santa Joana Darc e chegando até a doçura de Santa Teresinha ou a mansidão de São Josemaria Escrivá. Em todos os casos – observem – perpassam as virtudes e se cristaliza o discernimento em falar a Verdade de um modo que as pessoas a escutem e entendam.

Já passamos por fases em nossas vidas de convencer as pessoas pela dureza das palavras, e isso pode funcionar em alguns casos, mas em nosso caso percebemos que a caridade e paciência podem levar as pessoas para mais perto de Deus do que a severidade. É moldado pela caridade que nosso apostolado pretende seguir.

Estamos com a ideia de fazer hangouts ou podcasts esporádicos sobre temas diversos e que preencham a lacuna que deixou o programa de rádio; traduzir e publicar textos que ajudem na formação; nos focarmos em difundir material referente a Teologia do Corpo – um assunto extremamente urgente para nossa época!; e, por fim, publicar e indicar referências que ajudem a sermos pessoas cada vez mais cristãs.

Aproveitamos a oportunidade para informar que repudiamos qualquer ofensa ou ridicularização de apostolados de modéstia, exatamente por atentar contra o princípio da caridade cristã. Se tais insultos não nos conduzem para mais perto do Céu, por que alimentá-los?

Rezem por nós, ofereçam comunhões por nosso apostolado e continue nos acompanhando.

Com carinho,

Letícia e Carolina

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[1] Não se assemelhar ao sexo oposto:

“A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher: aquele que o fizer será abominável diante do Senhor, seu Deus” (Deut 22:5)

“O vestuário exterior deve corresponder à condição da pessoa, de conformidade com o uso comum. Por isso, em si mesmo, é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris, ou inversamente; sobretudo porque pode ser essa uma causa de lascívia, o que a lei antiga especialmente proibia, porque os gentios usavam destes travestimentos pela superstição da idolatria. Pode-se, porém, proceder desse modo e sem pecado, se o exigir a necessidade: quer para ocultar-se dos inimigos, quer por falta de outras roupagens, quer por outro motivo semelhante” (Santo Tomás na Suma Teológica, II-llae.q. 169 a.2, ad 3)

[2] Não usar trajes sensuais ou sexualmente excitantes:

Catecismo da Igreja Católica:

§2521 A pureza exige o pudor. Este é uma parte integrante da esperança. O pudor preserva a intimidade da pessoa. Consiste na recusa de mostrar aquilo que deve ficar escondido. Está ordenado castidade, exprimindo sua delicadeza. Orienta os olhares e os gestos em conformidade com a dignidade das pessoas e de sua união.

§2522 [...] O pudor é modéstia. Inspira o modo de vestir. Mantém o silêncio ou certa reserva quando se entrevê o risco de uma curiosidade malsã. Torna-se discrição.

“Sempre há uma norma absoluta a ser preservada, não importa quão amplos e mutáveis possam ser os costumes morais de então” (Papa Pio XII)

"A Moda varia conforme épocas, mas não deve oferecer ocasião próxima de pecado" (Pio XII, Alc. 8/11/1957: Doc. Pontifícios, 126 – Vozes)

“Sobre o que não podemos deplorar suficientemente a cegueira de tantas mulheres de todas as idades e condições, as quais, enfatuadas pela ambição de agradar, não veem quanto seja estulto certo estilo de se vestir, com que não apenas suscitam a desaprovação dos honestos, mas, o que é mais grave, ofendem a Deus. E vestidas de tal roupas — que elas mesmas no passado teriam rejeitado com horror como indecorosas demais para a modéstia cristã — não se limitam a apresentar-se assim em público, mas nem se envergonham de entrar assim indecentemente nas igrejas, de assistir às sagradas funções e de levar até mesmo à própria mesa Eucarística (para a qual vamos para receber o divino Autor da pureza) os lenocínios das torpes paixões” (Papa Bento XV na encíclica Sacra Propediem)

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3 comentários

  1. Lindo texto ! E muito linda sua preocupação: "Estamos na questão de amar a Deus em tudo, inclusive nos pormenores." Pode ter certeza que você está amando... e sua candeia está brilhando bem alto no velador! Feliz por poder acompanhar os novos rumos...
    "Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus." Mateus 5:16

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