O valor do interior e do particular

Coluna de Ronald Rolheiser originalmente publicada na edição de 23 de Janeiro de 2015 na revista The Catholic Herald | Tradução e revisão de Larissa Lima e Isabella Cavichiolli


Como nós podemos construir um mundo justo se não conseguimos primeiramente domar o egoísmo dentro de nós?





Nós nunca seremos tão fortemente desafiados a respeito de sermos comprometidos com a justiça social. A chave para isso é o apelo inegociável que vem do próprio Jesus que é precisamente o desafio de estender a mão aos pobres, aos excluídos, para aqueles que a sociedade considera dispensáveis.. Portanto, a enorme questão global de justiça deveria nos preocupar. Podemos ser bons cristãos, ou até mesmo seres humanos decentes, sem deixar que as notícias diárias nos batizem?

Muitos no mundo ainda vivem na fome, milhares estão morrendo de Ebola e outras várias doenças, incontáveis vidas são dilaceradas pela guerra e pela violência, e nós ainda estamos, enquanto mundo, a uma longa distância de lidar realisticamente com o racismo, sexismo, aborto e a integridade da criatura física. Essas são questões morais proritárias, e nós não podemos escapar para nosso mundo particular e simplesmente ignorá-las.

Mas justamente por serem tão gigantescos e importantes, nós podemos ficar com a impressão de que as outras questões morais que nós temos de lidar, as questões de moralidade privada, não são tão importantes. É muito fácil concluir que, dados os mega-problemas do nosso mundo, não importa muito como nós vivemos na recessão profunda do nosso mundo particular.

Nossas pequenas preocupações morais privadas podem parecer muito pequenas quando são comparadas com os problemas do mundo como um todo. Nós realmente acreditamos que Deus se importa muito se nós fazemos nossas orações da manhã, fofocamos sobre um colega, guardamos um ressentimento ou dois, ou somos menos do que completamente honestos em nossa vida sexual? Deus realmente se importa com essas coisas?


Sim, Deus se importa porque nós importamos. Grandes questões globais, não obstante, questões de integridade pessoal, são geralmente o que fazem ou destroem a nossa felicidade, sem mencionar nosso caráter e nossas relações íntimas. No final, elas não são interesses tão bonitos assim. Eles se afeiçoam às grandes coisas. Moralidade social é simplesmente um reflexo da moralidade particular. O que vemos na imagem global é simplesmente uma ampliação do coração humano.

Quando o ego, a ganância, a luxúria, o egoísmo não são tratados dentro dos recessos particulares do coração, é ingenuo pensar que eles vão ser tratados a nível global. Como nós vamos construir um mundo justo e amoroso se nós não conseguimos, em primeiro lugar, domar o egoísmo dentro de nós? Não haverá transparência a nível global enquanto nós continuarmos pensando que está tudo bem em não ser transparente nas nossas vidas particulares. O global simplesmente reflete o privado. O fracasso em reconhecer que isto é, na minha opinião, “o elefante na sala”* em termos da nossa falta de habilidade de trazer justiça para a Terra.

Ações sociais que não tem moralidade particular como base não são espiritualidade, mas simplesmente ações políticas, poder lidando com poder – importante em si mesmo, mas não pode ser confundido com real transformação. O Reino de Deus não funciona dessa forma. Ele funciona pela conversão, e real conversão é um ato eminentemente pessoal. Carlos Casaneda escreve: “Eu venho da América Latina, onde intelectuais estão sempre falando sobre revolução política e social, e onde muitas bombas tem sido jogadas. Mas nada mudou muito. É preciso de um pouco de coragem para bombardear um prédio, mas com a intenção de parar de ser invejoso ou fazer silêncio interno, você tem que refazer a si mesmo. Aqui é onde as verdadeiras reformas começam.”

Thomas Merton tocou no mesmo ponto. Durante os anos 60, quando muitos intelectuais estavam envolvidos em várias lutas sociais, Merton estava em um mosteiro distante, ao que nos parece, ele estava de frente com as verdadeiras e reais batalhas. Cercado por críticas exteriores quanto ao seu isolamento, ele admitiu que para a maioria essa atitude “se parece com pequenas batatas”** a serem envolvidas principalmente numa guerra contra os demônios próprios de cada um. Mas ele ainda acreditava que ele estava lutando uma batalha real: aquela para mudar os corações. Quando você muda um coração, diz ele, você ajuda a trazer à tona algumas mudanças permanentes, estruturais, morais nesse planeta. Tudo o mais é simplesmente um poder tentando derrubar o outro.

A moral particular e tudo o que vem com ela – orações particulares e a tentativa de ser honesto e transparente até mesmo nas menores e mais secretas coisas – é o núcleo no qual toda moralidade cria raiz. Comentando sobre a importância social do misticismo, o autor Jan Hendrik Walgrave sugeriu: “Você pode gerar mais energia quebrando um simples átomo do que aproveitando todas as forças da água e do vento na Terra. Isso foi exatamente o que Jesus, Buddha e Mohammed fizeram. Eles quebraram o átomo interior do amor. Uma ótima energia fluiu dali.” Ensinando sobre a importância das pequenas coisas, (São) João da Cruz disse: “Não faz diferença se um pássaro é amarrado por um forte cabo ou pelo mais fino dos cordões, ele não pode voar em ambos os casos.”

Moralidade particular não é um insignificante, inacessível luxo, mas uma virtude suave e algo que fica no caminho do comprometimento com a justiça social. É o profundo lugar onde os átomos da moral precisam ser quebrados.

* N.T.: Expressão inglesa "the elephant in the room"
** N.T.: Expressão que significa algo como "ser fácil"; "fichinha".

You Might Also Like

0 comentários