Doutrina Social da Igreja - Introdução



A Doutrina Social da Igreja (ou "DSI") é, muito simplificadamente explicando, a orientação da Igreja para questões sociais.

Muitos afirmam que a Igreja não deveria interferir nas questões sociais, pois o Estado é laico.
Para responder a isso, deixo um trecho do livro "A ditadura do relativismo" (Civilização Editora, 2008, p. 59), do Prof. Roberto de Mattei: "Excluir a sensibilidade religiosa do Preâmbulo não é uma forma de 'neutralidade'; é, pelo contrário, uma escolha. Significa privilegiar, na simbologia do Estado, uma visão secularista ou laicista do mundo, em alternativa a uma concepção cristã ou religiosa, fazendo passar a primeira por neutralidade religiosa". A moral é o molde do ser humano, capaz de delimitar sua conduta. Quando não há esta baliza, perdemos o rumo do que é certo e errado e caímos em relativismos cujo resultado, a longo prazo, é o caos e a desintegração da dignidade humana. O papel da Igreja é converter as pessoas e instruir almas. Somente com uma boa formação moral e inspiradas por Deus, estas pessoas poderão reger a sociedade para um caminho verdadeiramente bom. É, pois, papel da Igreja balizar este caminho.


A DSI tem como marco inicial a publicação da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, em que o Sumo Pontífice critica a situação precária vivenciada pelos trabalhadores da Revolução Industrial. Foi, em grande parte, graças a este documento (e não a lutas comunistas, como se propaga) que a situação social e laboral dos empregados começou a ser melhorada.

A partir daí outros documentos do Magistério foram promulgados sobre o assunto, sempre entrando em acordo com a mensagem de Jesus e o que afirma a Tradição da Igreja. 

Em 2004 foi publicado, com apoio e assinatura apostólica do Papa João Paulo II, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (disponível em português aqui), o qual iremos estudar parte a parte nas diversas postagem aqui do blog.

Importante não confundir a DSI com o Distributismo. O Distributismo é um sistema econômico (também chamado de "terceira via", por ser uma alternativa ao capitalismo e socialismo) criado por G. K. Chesterton e H. Belloc com ideias baseadas na DSI. Pretendemos estudar, também, o distributismo em nossos posts.

Fonte
 

Compêndio da Doutrina Social da Igreja - Introdução


A salvação, que o Senhor Jesus nos conquistou por um “alto preço” (cf. 1Cor 6, 20; 1Pd 1, 18-19), se realiza na vida nova que espera os justos após a morte, mas abrange também este mundo (cf. 1Cor 7, 31) nas realidades da economia e do trabalho, da sociedade e da política, da técnica e da comunicação, da comunidade internacional e das relações entre as culturas e os povos. (CDSI, I)
No momento em que a Igreja cumpre sua missão de evangelizar, consequentemente cumpre também a missão de ensinar valores ao mundo, especialmente o valor do amor e da caridade, da justiça e da paz. A Doutrina Social é, pois, uma expressão do amor de Deus ao mundo. Quando nos descobrimos amados por Deus, compreendemos nossa própria dignidade e, transbordados de amor, enxergamos no outro a face de Deus. Passamos a amar o próximo não para parecermos pessoas boas, mas por amor a Deus.


Feitos novos pelo amor de Deus, os homens são capacitados a transformar as regras e a qualidade das relações, inclusive as estruturas sociais: são pessoas capazes de levar a paz onde há conflitos, de construir e cultivar relações fraternas onde há ódio, de buscar a justiça onde prevalece a exploração do homem pelo homem. Somente o amor é capaz de transformar de modo radical as relações que os seres humanos têm entre si (CDSI, IV)
Ainda hoje (e talvez mais do que em outras épocas) percebemos em nosso mundo pessoas sem moradia, sem dignidade, sem o que comer ou vestir, privadas de cuidados médicos, abandonadas ao analfabetismo, entregues à prazeres vis, às drogas, à prostituição, ao abandono. Nossa sociedade não estaria assim se fosse composta por pessoas verdadeiramente cristãs e convertidas. Percebendo essa necessidade de uma maior consciência moral que oriente o futuro, cabe aos cristãos, a partir do que nos ensina a Igreja, promover ações que resgatem a dignidade da pessoa humana.

O amor cristão move à denúncia, à proposta e ao compromisso de elaboração de projetos em campo cultural e social, a uma operosidade concreta e ativa, que impulsione a todos os que tomam sinceramente a peito a sorte do homem a oferecer o próprio contributo (CDSI, VI)

Os primeiros destinatários do Compêndio da Doutrina Social da Igreja são os bispos que deverão, por suas formações, buscar a melhor forma de explicar e difundir o documento.  Os sacerdotes e religiosos (as) encontrarão um seguro direcionamento para o serviço pastoral. Nós, leigos, encontraremos no compêndio a instrução para cumprirmos nossa vocação na sociedade, inclusive no meio político, se for conveniente.

"As próprias coisas terrenas e as humanas instituições se destinam também, segundo os planos de Deus Criador, à salvação dos homens, e podem por isso contribuir imenso para a edificação do Corpo de Cristo" (CDSI, XI)

O Homem, quando plenamente livre para buscar a Verdade, interrogará o porquê das coisas e de sua existência. Buscando racionalmente a resposta última e mais exaustiva, a mente humana atinge o seu ápice e se abre à religiosidade. É numa procura livre e profunda pela Verdade que o homem encontra a Deus.

Inflamados pelo amor de Deus, somos capazes de animar "uma nova ordem social, econômica e política" (CDSI, XIX), difundindo valores morais e sociais com o necessário auxílio da graça.

Importante ressaltar que:

[O Compêndio da DSI] entende apresentar de maneira abrangente e orgânica, se bem que sinteticamente, o ensinamento social da Igreja, fruto da sapiente reflexão magisterial e expressão do constante empenho da Igreja na fidelidade à Graça da salvação de Cristo e na amorosa solicitude pela sorte da humanidade. Os aspectos teológicos, filosóficos, morais, culturais e pastorais mais relevantes deste ensinamento são aqui organicamente evocados em relação às questões sociais. Destarte é testemunhada a fecundidade do encontro entre o Evangelho e os problemas com que se depara o homem no seu caminho histórico. No estudo do Compêndio será importante levar em conta que as citações dos textos do Magistério são extraídas de documentos de vário grau de autoridade. Ao lado dos documentos conciliares e das encíclicas, figuram também discursos Pontifícios ou documentos elaborados pelos Dicastérios da Santa Sé. Como se sabe, mas é oportuno realçá-lo, o leitor deve estar consciente de que se trata de níveis distintos de ensinamento. O documento, que se limita a oferecer uma exposição das linhas fundamentais da doutrina social, deixa às Conferências Episcopais a responsabilidade de fazer as oportunas aplicações requeridas pelas diversas situações locais (CDSI, VIII, grifos nossos)

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