Trechos e pontos de "A Ditadura do Relativismo", de Roberto de Mattei




A Ditadura do Relativismo (Porto: Civilização Editora, 2008) apresenta ordenadamente uma série de palestras e conferências proferidas entre 2005 e 2007 pelo professor, jornalista e escritor Roberto de Mattei.

Por que o relativismo é tão prejudicial?
"Não existindo valores absolutos nem direitos objetivos, a vida humana reduz-se a uma espasmódica procura do prazer e à satisfação egoísta de instintos e 'necessidades' subjetivas, contrabandeadas sob a forma dos novos 'direitos" (p. 11)

O Cristianismo é uma doutrina fundada sobre uma verdade absoluta e difundida de uma forma pacifica, que apela às consciências, não imposta à força. 

"No mundo pagão, dominava uma religião cívica, sem dogmas nem moral, à qual o Estado impunha uma adesão puramente exterior. Os cristãos, que professavam uma religião antes de mais nada interior, do coração e da consciência, mas submetida a uma Verdade objetiva, refutaram esta adesão formal, expressa no incenso queimado em homenagem aos ídolos. A sentença que os condenavam não tinha em vista direitos específicos, mas o nomen ipusum, a pura e simples proclamação do Cristianismo" (p. 16)
Apesar das inúmeras seitas e "religiões" do  Império Romano serem respeitadas e nada ser feito contra elas, os primeiros cristãos foram duramente perseguidos e mortos. Voltaire (!) escreve em "Tratado sobre Tolerância" que o que se passou com os cristãos não se passou com judeus, egípcios, sírios ou bardes, porém o mesmo autor coloca que foram estes mártires "intolerantes". Para Voltaire, ser tolerante é não ser fanático e atribuir à verdade e ao erro o mesmo valor. Não seria esta a também atual definição de relativismo?

Prof. Mattei levanta que o Estado nunca poderá desvincular-se da religião e da moral, ao contrário exercerá um poder totalitário. A lei natural (presente no coração de cada homem e estabelecida pela razão) e divina ("Dai a Deus o que é de Deus") é imutável e perene.

"O Império Romano perseguiu o Cristianismo sem o conhecer. A sociedade contemporânea é uma sociedade que renega o cristianismo depois de ter conhecido tanto os benefícios espirituais e morais, como os benefícios culturais e sociais por ele introduzidos" (p. 20)

Os valores vida (proteção em todas as fases), família (defesa da família natural) e educação (direito dos pais de educar aos filhos), não pertencem somente à esfera privada, mas, ao contrário, tem uma projeção pública e social. Os princípios absolutos universais "são válidos sempre e em toda a parte, no tempo e no espaço" (p. 23).

"Em que se funda o caráter absoluto e universal destes princípios? Funda-se na existência de uma natureza humana que não muda, que permanece igual a si mesma, no tempo e no espaço. Numa palavra, os valores inegociáveis têm como fundamento a lei natural" (p. 23)

E, afinal, o que é a Lei Natural?
São Tomás de Aquino afirma que é "a própria lei eterna impressa na criatura racional" e também que "não há nas leis humanas nada que seja justo e legítimo que não derive da lei eterna".
Cícero afirma que "verdadeira lei é a reta razão, em harmonia com a natureza, universal, imutável, eterna, que não é diferente em Roma do que é em Atenas, nem hoje do que será amanhã".
Esta ideia de existir uma natureza humana com leis constantes e universais é apresentada filosoficamente por Wener Jaeger em "Paideia".

 "É sobre esta lei que assenta a harmonia entre a fé e a razão, e portanto entre a ordem espiritual e a ordem temporal. O respeito pela lei e divina resolveria rapidamente todos os problemas políticos, econômicos e sociais que afligem a humanidade, porque a conformidade com o Decálogo é uma condição de verdade e de bem para os homens, e de ordem e de paz para as nações. O esquecimento destes princípios é uma das grandes causas da crise contemporânea" (p. 100)
"Com efeito, a lei natural e os direitos que dela derivam são imutáveis e válidos para todos os tempos e para todos os homens, porque a natureza humana permanece idêntica em todo tempo e lugar. Caso contrário, com a lei natural caem também não só os direitos humanos, mas a própria ideia de igualdade entre todos os homens. Que igualdade é possível fazer vigorar entre homens não idênticos a si mesmos, porque têm uma natureza que muda constantemente? Da mesma maneira que não há liberdade sem verdade, também não há igualdade sem um direito comum. Mas não é possível fundar um direito comum à revelia de uma lei natural, reconhecida pelo homem como universal e objetiva" (p. 54)

O problema reside quando o fundamento dos direitos deixa de ser a lei natural e passa a ser a vontade do produtor da mesma. Nada nem ninguém - nem a Igreja - tem o direito de alterar a lei natural.

"Mas a votação por maioria não pode ser o princípio último; há valores que nenhuma votação por maioria tem o direito de revogar" (Cardeal Ratzinger)

"Se o homem puder decidir por si mesmo, sem Deus, o que é bom e o que é mau, poderá igualmente dispor que um grupo de homens seja aniquilado" (João Paulo II) [Recordemos que Hitler foi eleito democraticamente]

É a negação da lei natural que fundamenta em muito a revolução cultural que vivemos hoje, cujas consequências são:
- A dissolução de qualquer identidade humana estável;
- Transferência da família em "estrutura de opressão para mulher e menores"
- Redução da vida humana à "material biológico"

Neste sentido, caminhamos rumo ao totalitarismo, cujo processo é colocado por Prof. Roberto de Mattei como:
1) Negação da existência de uma lei e verdades objetivas, com o consequente nivelamento entre bem e mal, vício e virtude
2) Institucionalização dos desvios morais. Transformação dos vícios privados em virtudes públicas.
3) Censura e repressão social do bem

"...quando se torna absoluto, o relativismo passa a coincidir com a plenitude do totalitarismo" (p. 65)

"Desta perspectiva, a democracia secularizada, privada dos fundamentos transcendentes, revela-se como uma nova e mais radical forma de opressão do homem" (p. 65)

A neutralidade não existe. Se o Estado opta pelo laicismo/secularismo está escolhendo não ter uma visão religiosa, e não ter uma visão "neutra". Enquanto o marxismo originário propunha que o fim da religião resultaria do advento da sociedade sem classes, o gramscianismo crê que a extinção da religião é a condição de possibilidade da revolução. Gramsci queria uma absoluta secularização da vida social. O resultado do secularismo/laicismo/relativismo hoje se expressa num totalitarismo moderno que consiste no seguinte:

"...o conformismo do passado era um conformismo das respostas, enquanto o novo conformismo resulta de uma descriminação das perguntas, por via do qual as indiscretas são refutadas como expressões de 'tradicionalismo', de um 'espírito conservador', 'reacionário', 'anti moderno' - 'fundamentalista', diríamos hoje - ou ainda, quando o excesso de mau gosto chega aos limites, de 'um espírito fascista'" (p. 64)

 

A liberdade, o relativismo e o totalitarismo

Hoje só é possível reconquistar a verdadeira liberdade se negarmos a ilusão de uma liberdade absoluta, sem freios. Para isso há que se retomar a diferença clássica entre:
- Liberdade física e psicológica do homem, que é sua possibilidade de escolher entre o bem e o mal
- Liberdade moral, que é a capacidade humana de realizar o bem
No relativismo a liberdade humana é anulada, pois se bem e mal adquirem o mesmo valor, a escolha torna-se "amoral", fruto da vontade e do instinto, e não da racionalidade. Portanto, torna-se uma escolha "desumana".

" O comportamento do homem não está determinado de maneira absoluta pelo instinto, como acontece no animal, antes nasce da capacidade humana de compreender e de querer; é nesta capacidade de juízo e escolha que consiste a liberdade do homem" (p. 70)

"A liberdade não é, pois, uma possibilidade de escolher entre o bem e o mal, mas a capacidade de se ordenar aos bens que a inteligência indica como sendo os mais perfeitos" (p. 72, grifo nosso)

"Assim, a vontade que escolhe o mal não é livre, mas escrava, porque 'todo aquele que comete pecado é escravo do pecado" (p. 72)

A liberdade pode ser definida, então, como uma vontade ordenada ao bem. É relativa, pois necessita de limites para alcançar seu fim. A liberdade absoluta de alguns passa a ser abuso para outros, pois a liberdade absoluta sempre afeta a alguém.

"Na ausência de Verdade,  de princípios e de valores permanentes, quando a única verdade absoluta é a liberdade, esta acaba por coincidir com o devir histórico, com aquilo que aconteceu na História, e, portanto, com a vontade do mais forte" (p. 74)

"A liberdade não pode ser confundida com a noção de direitos subjetivos absolutos e de absoluta independência do indivíduo. A liberdade do homem não é absoluta, porque o homem não é perfeito; o seu conhecer e o seu querer são participados, limitados e imperfeitos" (p. 76)

"Mas, se é livre, o homem é também responsável por aquilo que faz adquirindo por isso mérito pelo bem e culpa pelo mal que realiza, sendo portanto possível de recompensa e de castigo, quer humanos, quer divinos. Saberá o homem contemporâneo, que foge às responsabilidades e recusa sofrimentos e castigos, aceitar estas dramáticas consequências possíveis de sua liberdade? (p. 77)

O Cristianismo tem o poder de transformar corações, costumes, mentalidades e civilizações, exatamente como fez com os bárbaros pagãos. Cabe a nós, cristãos de hoje, buscar a retomada da verdadeira noção de liberdade, de direitos fundados na lei natural e de valores absolutos e perenes, para que renasça a civilização ocidental em suas puras raízes.

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A palestra do Prof. Roberto de Mattei na USP de São Paulo está disponível aqui.
Há uma versão do livro em rtf disponível aqui.

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