DSI - Primeira Parte: Capítulo I

A Primeira Parte do Compêndio se divide em quatro capítulos, sendo cada capítulo dividido por subcapítulos. O primeiro capítulo, "O desígnio do amor de Deus a toda a humanidade", dividi-se em quatro subcapítulos: I "O agir libertador de Deus na história de Israel"; II "Jesus Cristo cumprimento do desígnio de amor do Pai"; III "A pessoal humana no desígnio do amor de Deus"; IV "Desígnio de Deus e missão da Igreja". Colocaremos aqui um apanhado geral do exposto e pequenos comentários explicativos em meio ao texto.



Na autêntica experiência religiosa, Deus revela-se e distribui Seus dons de forma gratuita. Ele nos dá a vida de forma gratuita, nos ama de forma gratuita, enviou Seu Filho para nos salvar de forma gratuita, derrama graças diárias a cada um de forma gratuita. Jesus nos torna partícipes deste amor, e também gratuitamente dá sua vida por nós. É nesta linha de amor gratuito, isto é, amar sem esperar receber recompensa ou sem exigir algo em troca, que devemos viver em sociedade e tratar aos nossos irmãos.
Junto com a gratuidade do agir divino, temos o compromisso da Aliança. Os dez mandamentos são uma expressão deste compromisso, desta aliança com o Senhor estabelecida no Monte Sinai.

Os dez mandamentos, que constituem um extraordinário caminho de vida indicam as condições mais seguras para uma existência liberta da escravidão do pecado, contêm uma expressão privilegiada da lei natural. Eles «ensinam-nos a verdadeira humanidade do homem. Iluminam os deveres essenciais e, portanto, indiretamente, os deveres fundamentais, inerentes à natureza da pessoa humana» (CDSI, 22)

Quando compramos um produto eletrônico junto a ele vêm um manual de instruções sobre como utilizar o equipamento. Neste manual encontramos todas as instruções e advertências para que o produto seja usado do modo correto e, portanto, não se rompa e tenha uma durabilidade maior. Os dez mandamentos são como este manual de instruções. Deus cristaliza em direções a lei natural já inscrita em nossa coração. Não se trata de um amontoado de regras de "pode e não pode", mas um direcionamento para melhor fluir a vida social com justiça, amor e respeito. A ruptura entre Criador e criatura pelo pecado é a "a raiz mais profunda de todos os males que incidiam as relações sociais entre as pessoas humanas, de todas as situações que, na vida econômica e política, atentam contra a dignidade da pessoa, contra a justiça e a solidariedade" (DSI, 27). Os mandamentos são a ponte para reconstrução desta ruptura. Se não temos essa ponte e esse direcionamento, a tendência é que nossos vícios nos aprisionem e tirem a racionalidade em nossas escolhas.

A vida pessoal e social assim como o agir humano no mundo são sempre insidiados pelo pecado, mas Jesus Cristo, «padecendo por nós, não nos deu simplesmente o exemplo para seguirmos os Seus passos, mas rasgou um caminho novo: se o seguirmos, a vida e a morte tornam-se santas e adquirem um sentido diferente». O discípulo de Cristo adere, na fé e mediante os sacramentos, ao mistério pascal de Jesus, de sorte que o seu homem velho, com as suas más inclinações, é crucificado com Cristo. Qual nova criatura ele então fica habilitado na graça a caminhar em «uma vida nova» (Rom 6, 4). Tal caminho, porém, «vale não apenas para os que crêem em Cristo, mas para todos os homens de boa vontade, no coração dos quais, invisivelmente, opera a graça. Na verdade, se Cristo morreu por todos e vocação última do homem é realmente uma só, a saber divina, nós devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal (CDSI,  41)


O que transformará nossa sociedade em uma sociedade justa não é uma revolução nem tampouco um governante milagroso. A solução está na conversão que, individualmente realizada,  alcançará um efeito vasto e coletivo. Para que compreendamos melhor, vamos a um exemplo prático. Imagine a câmara de deputados cheia de políticos que sejam bons católicos. Não estou pensando na utópica situação de uma totalidade católica, mas de uma maioria católica, e de autênticos cristãos, que colocam verdadeiramente em prática o que aprendem com o evangelho. O cenário seguramente seria de uma drástica redução nos trâmites de leis que atentam contra a vida ou que desfavoreçam a família tradicional, além de uma promoção de virtudes e políticas que realmente melhorassem a vida da população. Tudo isso pois os que estão ali saberiam que estão em primeiro lugar à serviço de Deus, e enxergariam em cada pessoa da população um filho amado do Senhor, uma pessoa que merece viver com dignidade.

E já que demos um exemplo de política, é interessante destacar este trecho do compêndio:

...a Igreja não se confunde com a comunidade política e nem está ligada a nenhum sistema político. A comunidade política e a Igreja, no próprio campo, são efetivamente independentes e autônomas uma em relação à outra, e estão ambas, embora a diferentes títulos, «ao serviço da vocação pessoal e social dos mesmos homens ». Pode-se, antes, afirmar que a distinção entre religião e política e o princípio da liberdade religiosa constituem uma aquisição específica do cristianismo, de grande relevo no plano histórico e cultural. (CDSI, 50)

A Igreja não fornece a nós uma receita pronta e engessada de transformação social, mas confia que o Espírito Santo inspira as pessoas, de acordo com cada época, a criar soluções próprias para seu tempo e sempre inspiradas pelo Evangelho e fundamentadas na lei natural. Creio que em muito era a isto que se referia Chesterton quando afirmou:



Em um aspecto micro, olhando nossa vida profissional, por exemplo, a DSI nos orienta também. O que fazer se nos depararmos, como cristãos, com uma situação profissional em que nos impõe algo contra nossos valores?

A prioridade reconhecida à conversão do coração não elimina absolutamente, antes impõe, a obrigação de trazer às instituições e às condições de vida, quando estas provocam o pecado, o saneamento conveniente, para que sejam conformes às normas da justiça e favoreçam o bem, em vez de pôr-lhe obstáculos (CDSI, 42)

Ou seja, não podemos abaixar a cabeça para o laicismo do mundo que tenta subjugar a lei natural inscrita no nosso coração, mas sim, com muita caridade, sempre em muita oração e pedindo as luzes do Espírito Santo, colocar a Verdade.

Segundo o ensinamento conciliar, «também àqueles que pensam e fazem de modo diferente do nosso em matéria social, política e, inclusivamente, religiosa, deve estender-se o respeito e a caridade; quanto nos esforçamos para penetrar intimamente com benevolência e amor, nos seus modos de ver, mais fácil se tornará um diálogo com eles» (CDSI, 43)

Vou contar uma história pessoal para ilustrar isso. Certa vez fiz estágio em um bairro da periferia da minha cidade e ali foi criado um grupo para adolescentes, cujo um dos temas foi "sexualidade e DST´s". A ideia era orientar as jovens, que engravidavam muito cedo, a usar contraceptivos artificiais (camisinhas e pílulas). Isso, todos sabem, vai totalmente contra aos princípios cristãos, além de ser uma porta para aumentar a curiosidade e o sexo precoce. Minha proposta não foi deixar de falar sobre estes métodos (afinal meu trabalho nem permitia isso), mas acrescentar uma orientação e palestra sobre a castidade e abstinência. Para isso me embasei no programa ABC da Uganda que incentivava, primordialmente, a abstinência e a fidelidade, e ao final conseguiu os melhores resultados na redução no número de infectados por HIV em comparação com o resto da África. Depois de muita resistência por parte dos meus colegas de trabalho - e depois de muita oração e dor de cabeça - conseguimos falar sobre o assunto e fiquei muito surpresa quando as jovens do grupo me falaram, uma semana depois da palestra, que não sabiam que existia a opção de "não fazer sexo e se preservar".

Todas nossas ações e a política de uma sociedade devem sempre se ater ao fim último do homem, que é o Céu, Deus. Para que estamos neste mundo? De onde viemos? Para onde vamos? Por que trabalhar, se inserir socialmente, cumprir a própria vocação, se não tivermos em conta que esta vida é passageira e que tudo devemos fazer para aproximar as pessoas do Senhor?

Muitas pessoas, tomadas por uma mentalidade materialista, dizem que "sempre haverá pobres na terra" ou que "a pobreza nunca irá acabar", o que justificaria não prestar ajuda aos pobres. Outras ideias parecidas perpassam a linha de que "o mundo está cada vez pior e não temos muito o que fazer". A Santa Madre Igreja, todavia, nos mostra que quanto melhor nos organizarmos socialmente aqui na Terra, tentando minimizar os efeitos dos problemas temporais que temos, mais cresceremos como humanos, e isto nos ajuda a aproximarmos do nosso fim último (céu).

O amor recíproco, com efeito, na participação no amor infinito de Deus é o autêntico fim, histórico e transcendente, da humanidade. Portanto, «ainda que haja que distinguir cuidadosamente progresso terreno e crescimento do Reino de Cristo, contudo este progresso tem muita importância para o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para uma melhor organização da sociedade humana» (CDSI, 55, grifos nossos)

O agir humano na história é de per si significativo e eficaz para a instauração definitiva do Reino, ainda que este continue a ser dom de Deus, plenamente transcendente. Tal agir, quando respeitoso da ordem objetiva da realidade temporal e iluminado pela verdade e pela caridade, torna-se instrumento para uma atuação sempre mais plena e integral da justiça e da paz e antecipa no presente o Reino prometido (CDSI, 58, grifos nossos)

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Outros textos da tag "DSI":
- Introdução

Observação:
Peço aos leitores do blog que entendam nossas limitações intelectuais em escrever sobre o assunto e vejam esta série de postagens como um singelo modo de ler e estudar (com muito esforço!) sobre a Doutrina Social da Igreja. Estamos procurando resumir e explicar os pontos do compêndio de uma maneira muita simples e didática. Conforme a providência de Deus, acrescentaremos resenhas de livros, links, vídeos, áudios e outros estudos que possam surgir sobre o assunto. Continuem rezando por nós e enviando sugestões. Obrigada.


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