A pureza dos olhos



 Muitos de nós ouvimos que devemos nos vestir com modéstia para evitar que nos olhem e admirem apenas nossas qualidades físicas. Esta virtude, válida para homens e mulheres, anda aliada com outra virtude de grande importância: a pureza. Não adianta ser modesto nas roupas e esquecer de guardar os olhos.

Certa vez eu estava olhando no instagram o que as pessoas curtiam de outros (para os que não têm acesso a essa rede, há uma aba onde podemos ver as fotos que curtem as pessoas que estamos seguindo). Me deparei, em certo momento, com alguns amigos homens (e depois observei isso também nas mulheres) curtindo fotos provocantes de pessoas nuas ou semi-nuas. Qual seria a diferença disso e de abrir e olhar uma revista Playboy?

Em outra ocasião - e confesso que isso já se passou comigo, e mais de uma vez - fui assistir um filme indicado por amigos e me deparei com cenas de sexo (algumas vezes implícito, outras explícito). 

Qual o problema de tudo isso?

Por mais maduros e adultos que sejamos, por mais experiências que tenhamos vivido e por mais que "nada nos assuste ou deslumbre", as imagens que vemos (e principalmente as que mais nos impressionam inconscientemente) ficam retidas em nossa memória. Em um momento de fraqueza espiritual ou de carência afetiva estas imagens virão à tona, e os protagonistas das cenas e fotos serão você e o garoto ou garota que você gosta.

Não à tôa que escreve sobre isso Santo Afonso Maria de Ligório:

Santo Agostinho diz: “Do olhar nasce o pensamento, e do pensamento a concupiscência”. Se Eva não tivesse olhado para o fruto proibido, não teria pecado; ela, porém, achou gosto em contemplá-lo, parecendo-lhe bom e belo; apanhou-o então, e fez-se culpada da desobediência.

Aqui vemos como o demônio nos tenta primeiramente a olhar, depois a desejar e, finalmente, a consentir. Por isso nos assegura São Jerônimo que o demônio só necessita de nosso começo: dá-se por satisfeito se lhe abrimos a metade da porta, pois ele saberá conquistar a outra metade. Um olhar voluntário, lançado a uma pessoa do outro sexo, acende uma faísca infernal que precipita a alma na perdição. “As primeiras setas que ferem as almas castas, diz São Bernardo (De mod. ben. viv., serm. 23), e não raro as matam, entram pelos olhos”. Por causa dos olhos caiu Davi, esse homem segundo o coração de Deus. Por causa dos olhos caiu Salomão, esse instrumento do Espírito Santo. Por causa dos olhos, quantas almas não se perderam eternamente?


Vigie, pois, cada um sobre seus olhos, se não quiser chorar uma vez com Jeremias: “Meus olhos me roubaram a vida” (Jer 3, 51); as afeições criminosas que penetraram em meu coração por causa dos meus olhares, lhe deram a morte. São Gregório diz (Mor. 1, 21, c. 2): “Se não reprimires os olhos, tornar-se-ão ganchos do inferno, que a força nos arrastarão e nos obrigarão, por assim dizer, a pecar contra a nossa vontade”. “Quem contempla objeto perigoso, acrescenta o Santo, começa a querer o que antes não queria”. É também o que diz a Sagrada Escritura (Jdt 16, 11), quando diz que a bela Judite escravizou a alma de Holofernes, apenas este a contemplou.
Sêneca diz que a cegueira é mui útil para a conservação da inocência. Seguindo esta máxima, um filósofo pagão arrancou-se os olhos para quardar a castidade, como nos refere Tertuliano. Isso, porém, não é lícito a nós, cristãos; se queremos conservar a castidade, devemos, contudo, fazer-nos cegos por virtude, abstendo-nos de olhar o que possa despertar em nós os maus pensamentos. “Não contemples a beleza alheia; disso origina-se a concupiscência, que queima como o fogo” (Ecli 9, 8). À vista seguem-se as imaginações pecaminosas, que acendem o fogo impuro.
[SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Escola da Perfeição Cristã, compilação de textos do Santo Doutor pelo padre Saint-Omer, CSSR, tradução do padre José Lopes, CSSR, IV Edição, Editora Vozes, Petrópolis: 1955.]



Não se trata de puritanismo ou moralismo. Não estou afirmando para deixar de olhar fotos no instagram ou facebook, ou deixar de ver filmes. Mas cuidar do que vemos. Se ver uma revista playboy ou um filme pornográfico - além de errado pelo que você talvez fará enquanto esteja diante de tal material - ainda é errado porque ali estão expostas pessoas objetificadas, o mesmo se passa com fotos de mulheres e homens desnudos em redes sociais ou em cenas de filmes.

Pode ser que a moça ou o cara que postou a foto seja seu amigo(a) e uma grande pessoa. Pode ser que ele(a) mesmo(a) não saiba o valor e a dignidade que tem. Mas você sabe. Você sabe seu valor e o valor do outro. Você sabe quão fraco pode ser e quão facilmente pode cair em tentações.

Cuidemos, então, do que vemos, do que curtimos, do que indicamos. Procure saber melhor sobre o filme que assistirá, evite filmes com cenas sensuais e, se por acaso houver alguma cena provocante, passe o filme para mais adiante e pule a cena. Evite olhar fotos sexualizadas de seus amigos(as) e mostre a eles com caridade que a dignidade deles está diminuída quando eles tiram fotos assim. 

E antes e mais do que tudo: Peça a intercessão da Virgem Maria e reze por essas pessoas.

"Para defeder a sua pureza, São Francisco revolveu-se na neve, São Bento jogou-se num silvado, São Bernardo mergulhou num tanque gelado...
- Tu, que fizeste?" (São Josemaría Escrivá)

 Veja também: Entrevista com Sidney Silveira sobre São Tomas de Aquino e o Pudor/Modéstia/Pureza.

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1 comentários

  1. Pudera podermos saber se um filme possui ou não cenas de sexo. É lamentável assistir um filme ou série e de repente aparecer uma cena indecente, o jeito é se fazer de cego e surdo.

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