Mulher, Trabalho, Magistério e os Papas





Antes de começar o post recomendo vivamente a leitura da exortação apostólica Familiaris Consortio, do Papa João Paulo II. Se você não está com tempo para lê-la inteira, leia ao menos este post com alguns trechos destacados pelo Vocação Mulher.

Uma leitora querida fez um comentário pertinente (já faz um certo tempo, mas acho relevante publicá-lo):

Nesse vídeo do Pe. Paulo Ricardo indicado no post [seria este], ele realmente deixa implícito que o uso de saias e vestidos é incentivado. Porém, existe um outro vídeo com título de "Ódio ao feminino" que o mesmo padre faz as mulheres que usam calças se sentirem verdadeiras "assistentes do diabo".
Ele fala, com IRONIA: "Para o mundo de hoje, a mulher que trabalha profissionalmente, que usa calça comprida é a verdadeira mulher". Deixou nas entrelinhas que uma mulher profissional e usuária de calças não é verdadeira para Deus. Também criticou a luta por salários iguais entre homens e mulheres.

No entanto, se lermos vários documentos de papas (Familiaris Consortio, Mulieris Dignitatem e a Carta às Mulheres, todos de JP II), em todas ele defende a inclusão da mulher no mundo profissional e igualdade de remuneração.

[...]
Gostaria de saber a tua opinião sobre o assunto...


Nossa resposta, que pode ajudar a outros com a mesma dúvida, se baseia não em opiniões, mas no que expõe o Magistério sobre isso. Importante ressaltar que esta é uma temática em aberto. Não há uma resposta doutrinal para a questão.

Salve Maria!!

Muito obrigada pelo comentário.

Bem, o Padre Paulo quando fala sobre um assunto ele costuma estudar muitíssimo sobre o mesmo e só depois de analisar muito bem vários pontos de uma mesma questão é que ele emite um ensinamento, que não seria nem opinião, mas uma certeza sobre determinado assunto.
Acredito que no referido vídeo o padre não quis demonizar as mulheres que trabalham fora e usam calça, mas dizer que, aos olhos das pessoas do mundo, somente elas são valorizadas, enquanto a dona de casa comum é ridicularizada e vista como "oprimida". E isto entra em perfeito acordo com os escritos do magistério e do Papa João Paulo II:

“Deve além disso superar-se a mentalidade segundo a qual a honra da mulher deriva mais do trabalho externo do que da actividade familiar.” (Familiaris Consortio)
É interessante isso, veja: Na Idade Média, diferente do que muitos pensavam, a mulher não ficava em casa cuidando da casa, mas ajudava o marido nos trabalhos, que geralmente eram no campo, ou, quando muito, no comércio do povoado. Só que seus trabalhos eram flexíveis, isto é, se a mulher precisasse se ausentar para cuidar dos filhos, ou para gerar uma nova criança, fazia isso. Pernoud (Régine) diz que foi com o surgimento das cidades e da burguesia que as mulheres começaram a ter menos filhos e, tendo menos filhos, tinham menos ajuda, o que as obrigava cuidar do lar enquanto o marido trabalhava. Ou seja, essa configuração de marido trabalhando e mulher dentro do lar é, de certo modo, burguesa, e não cristã.
Quando o Papa João Paulo II fala, na Familiaris Consortio, que

“Não há dúvida que a igual dignidade e responsabilidade do homem e da mulher justificam plenamente o acesso da mulher às tarefas públicas. Por outro lado, a verdadeira promoção da mulher exige também que seja claramente reconhecido o valor da sua função materna e familiar em confronto com todas as outras tarefas públicas e com todas as outras profissões. De resto, tais tarefas e profissões devem integrar-se entre si se se quer que a evolução social e cultural seja verdadeira e plenamente humana.”

E também:

“Se há que reconhecer às mulheres, como aos homens, o direito de ascender às diversas tarefas públicas, a sociedade deve estruturar-se, contudo, de maneira tal que as esposas e as mães não sejam de facto constrangidas a trabalhar fora de casa e que a família possa dignamente viver e prosperar, mesmo quando elas se dedicam totalmente ao lar próprio.”


Ele se refere a necessidade do mundo de entender e se abrir a diferença que há entre homem e mulher: que esta tem o dom da maternidade e que é a principal responsável pela educação dos filhos, logo seria mais do que urgente as leis e políticas se estruturarem de modo que ofereçam esta flexibilidade a mulher, para que o cuidado a família não seja prejudicado pela sua entrada no mundo do trabalho.

“Urge conseguir onde quer que seja a igualdade efectiva dos direitos da pessoa e, portanto, idêntica retribuição salarial por categoria de trabalho, tutela da mãe-trabalhadora, justa promoção na carreira, igualdade entre cônjuges no direito de família, o reconhecimento de tudo quanto está ligado aos direitos e aos deveres do cidadão num regime democrático. [...]Trata-se não só de um acto de justiça, mas também de uma necessidade. Na política do futuro, os graves problemas em aberto verão sempre mais envolvida a mulher: tempo livre, qualidade da vida, migrações, serviços sociais, eutanásia, droga, saúde e assistência, ecologia, etc. Em todos estes campos, se revelará preciosa uma maior presença social da mulher, porque contribuirá para fazer manifestar as contradições de uma sociedade organizada sobre critérios de eficiência e produtividade, e obrigará a reformular os sistemas a bem dos processos de humanização que delineiam a « civilização do amor ».” (Cartas as mulheres)

Há, todavia, um fator problemático: quando colocamos igualdade nos salários de homem e mulher, acabamos por induzir com que mais mulheres trabalhem, e mais mulheres trabalhando acarretarão em menos empregos aos homens. Isto obrigaria que pais e mães trabalhassem, não somente pais, nem somente mães, mas ambos, para sustentar uma casa. Nesta lógica quem mais sofreria seriam os filhos. É o que afirma o Papa Pio XII:

“Eis a mulher que, para aumentar o salário do marido, vai ela também trabalhar na fábrica, deixando durante sua ausência a casa no abandono, e esta, talvez já suja e pequena, torna-se também mais miserável pela falta de cuidado; os membros da família trabalham cada um separadamente, nos quatro ângulos da cidade e em horas diversas: quase nunca se encontram juntos, nem para o jantar, nem para o repouso depois das fadigas do dia, ainda menos para as orações em comum. Que permanece da vida da família? e quais os atrativos que podem ser oferecidos aos filhos?A estas penosas conseqüências da falta da mulher e da mãe no lar, ajunta-se outra ainda mais deplorável: ela diz respeito à educação, sobretudo da jovem e sua preparação para a vida real. Habituada a ver a mãe sempre fora de casa e a própria casa tão triste no seu abandono, ela será incapaz de encontrar aí qualquer fascínio, não provará o mínimo gosto pelas austeras ocupações domésticas, não saberá compreender a nobreza e a beleza das mesmas, nem desejará um dia dedicar-se a isso, como esposa e mãe.” (Pio XII e os problemas modernos - Parte do discurso de Pio XII à juventude Feminina de Ação católica, 24 de abril, 1943)


É por isso que o Papa JP II defende a incorporação de uma política que favoreça >>a família<< no mercado de trabalho, e isto implicaria em oferecer a mulher, em especial, determinados benefícios, o que, no nosso mundo capitalista, significa que a mulher ganharia igual ao homem, mas trabalharia menos se usufruísse de tais benefícios, o que, por uma lógica capitalista, seria injusto, pois ambos ganhariam o mesmo salário, mas um trabalhando menos que o outro. Este ponto, da economia, sinceramente, não tenho o arcabouço teórico suficiente para discutir. O que não podemos é destacar os trechos que o papa fala sobre as mulheres e dissocia-los do contexto que se inserem. É necessário que a mulher se insira no mercado de trabalho, mas isto não pode e não deve atrapalhar a família e o casamento, que são primordiais na vida dos vocacionados a isto.
Há que se observar, também, que a mulher que não é consagrada à vida religiosa, não necessariamente será casada. Há diversos leigos celibatários que vivem no mundo, mas entregaram suas vidas a Deus. Um exemplo são as numerárias do Opus Dei: elas não se casam e são celibatárias, mas vivem no mundo e cada uma tem suas profissões. Assim, os documentos também se dirigem a estas mulheres que, mesmo sem contemplarem a maternidade ou a constituição de uma família, ainda assim fazem parte do corpo místico de Deus e contribuem para evangelizar o mundo. Outro ponto a se pensar é que a mulher pode se ausentar da vida profissional por alguns anos enquanto se dedica a educação dos filhos, mas terá um período que estes filhos se tornarão adultos e irão sair de casa, e então será uma boa oportunidade para esta mãe de família voltar a se dedicar a sua profissão, talvez em trabalhos voluntários, talvez em remunerados. Há a possibilidade das mães que trabalham em empresas familiares, como na Idade Média, e possuam, assim, horários extremamente flexíveis e possíveis de conciliarem com a vida familiar.
“Obrigado a ti, mulher-trabalhadora, empenhada em todos os âmbitos da vida social, económica, cultural, artística, política, pela contribuição indispensável que dás à elaboração de uma cultura capaz de conjugar razão e sentimento, a uma concepção da vida sempre aberta ao sentido do « mistério », à edificação de estruturas económicas e políticas mais ricas de humanidade.” (Cartas às mulheres)

Atualização!

Para corroborar o texto, coloco um trecho da seção III, "A atualidade dos valores femininos na sociedade", da "CARTA AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA SOBRE A COLABORAÇÃO DO HOMEM E DA MULHER NA IGREJA E NO MUNDO", de 2004, do então prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, Cardeal J. Ratzinger:

Numa tal perspectiva, compreende-se o papel insubstituível da mulher em todos os aspectos da vida familiar e social que envolvam relações humanas e o cuidado do outro. Aqui se manifesta com clareza o que João Paulo II chamou génio da mulher. Implica isto, antes de mais, que as mulheres estejam presentes, activamente e até com firmeza, na família, que é «sociedade primordial e, em certo sentido, “soberana”», porque é nesta que, em primeiro lugar, se plasma o rosto de um povo; é nesta onde os seus membros adquirem os ensinamentos fundamentais. Nela aprendem a amar, enquanto são amados gratuitamente; aprendem o respeito por toda a outra pessoa, enquanto são respeitados; aprendem a conhecer o rosto de Deus, enquanto recebem a sua primeira revelação de um pai e de uma mãe cheios de atenção. Todas as vezes que venham a faltar estas experiências fundantes, é a sociedade no seu conjunto que sofre violência e se torna, por sua vez, geradora de múltiplas violências. Isso implica também que as mulheres estejam presentes no mundo do trabalho e da organização social e que tenham acesso a lugares de responsabilidade, que lhes dêem a possibilidade de inspirar as políticas das nações e promover soluções inovadoras para os problemas económicos e sociais.
A este respeito, não se pode, porém, esquecer que a interligação das duas actividades — família e trabalho — assume, no caso da mulher, características diferentes das do homem. Põe-se, portanto, o problema de harmonizar a legislação e a organização do trabalho com as exigências da missão da mulher no seio da família. O problema não é só jurídico, económico e organizativo; é antes de mais um problema de mentalidade, de cultura e de respeito. Exige-se, de facto, uma justa valorização do trabalho realizado pela mulher na família. Assim, as mulheres que livremente o desejam poderão dedicar a totalidade do seu tempo ao trabalho doméstico, sem ser socialmente estigmatizadas e economicamente penalizadas. As que, por usa vez, desejarem realizar também outros trabalhos poderão fazê-lo com horários adequados, sem serem confrontadas com a alternativa de mortificar a sua vida familiar ou então arcar com uma situação habitual de stress que não favorece nem o equilíbrio pessoal nem a harmonia familiar. Como escreve João PauloII, «reverterá em honra para a sociedade o tornar possível à mãe — sem pôr obstáculos à sua liberdade, sem discriminação psicológica ou prática e sem que ela fique numa situação de desdouro em relação às outras mulheres — cuidar dos seus filhos e dedicar-se à educação deles, segundo as diferentes necessidades da sua idade»

Recomendo, também, esta aula do Prof. Carlos Ramalhete: http://dsi.carlosramalhete.com.br/index.php/2016/04/23/mulher-forte/ 

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