E o trabalho escravo? Reflexões sobre moda, modéstia e consumo consciente

Por Cláudia Caroline Galdino

Quando falamos de modéstia, devemos lembrar que esta virtude é, em primeiro lugar, uma resposta de amor a Deus - quando reconhecemos nosso corpo como templo do Espírito Santo - e, em consequência disso, amamos a Deus através da caridade ao próximo, procurando ajudar os homens a nos olharem como almas, e não como objetos.

Um outro aspecto da modéstia, e que está intimamente ligado à moda, é a questão do consumo.  Em qualquer produto que consumimos - seja um alimento, um eletrônico ou uma roupa - pagamos, embutido no preço, pela matéria-prima, transporte, água, luz, trabalhadores envolvidos, propaganda e embalagem. Será que um produto muito barato consegue comportar, em seu preço de custo + lucro da empresa, todos estes itens? 

Não! Então da onde vem o preço baixo?

Bolivianos em regime de trabalho escravo. Foto: Repórter Brasil

Em maio a rede espanhola de roupas "Zara" foi acusada, juntamente com outras marcas, de manter confecções com trabalhadores que viviam em condições análogas às de escravos. Os 51 trabalhadores (45 deles bolivianos) trabalhavam 14 horas por dia em um local fechado e que não permitia a saída sem autorização, ganhavam de R$0.12 a R$0.20 por peça e viviam em condições precárias de higiene e acomodação. 

Esta não é a primeira nem a última notícia envolvendo a indústria da moda e o trabalho escravo. Em 2012 o portal "Repórter Brasil" elencou diversas notícias dos últimos anos sobre empresas que usavam mão de obra escrava para produção de suas peças. E não somente de marcas "baratas" vêm este tipo de serviço: na supracitada lista, encontramos nomes como Cori, Le Lis Blanc, M. Officer, Bo.Bô e Talita Kume, que vendem peças por valores que ultrapassam a casa das centenas.

Em outros links, encontramos relatos de pessoas que compram produtos diretamente de consumidores chineses e recebem, aleatoriamente, pedidos de socorro.

Diante do exposto, cabe o questionamento: será que EU estou contribuindo com o trabalho escravo?

Na Revolução Industrial as condições de trabalho escravo (inclusive de mulheres e crianças) foi em muito melhorada graças a posição social da Igreja iniciada através da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII.

E hoje, o que podemos fazer, em escala individual, para evitar colaborar com o trabalho escravo na moda?

Alguns dirão - e assumo que até pouco tempo eu também pensava assim - "ah, mas tudo o que compramos é made in china, logo, praticamente tudo o que compramos vêm de trabalho escravo". Esta é uma desculpa para cairmos no comodismo e acídia de não pensarmos e não agirmos virtuosamente.

O consumismo, já cristalizado em ideologia, se arraigou na cultura e foi transposto também para as pessoas. Juntamente com os iluministas valores do imediatismo e do hedonismo, passamos a ver pessoas como objetos, mesmo que inconscientemente. Trocamos muito rápido de relacionamentos - amorosos ou de amizade -, não temos paciência para esperar, preferimos os prazeres aos sacríficios (mesmo que isso nos acarrete uma atitude imoral). É então que fechamos os olhos, tapamos os ouvidos, e preferimos fingir não ver e ouvir este tipo de assassinato da dignidade humana.


A solução está no que Chesterton e Belloc vieram a chamar posteriormente de Distributismo. Podemos desglobalizar e desamplificar nosso consumo ao máximo. Explico: ao invés de comprar de grandes marcas, cuja procedência e qualidade da roupa não temos referências, podemos comprar de produtores locais; usar roupas de costureiras do próprio bairro ou cidade; comprar produtos de brechós e móveis usados ou antigos; voltar a comprar em pequenos mercados; comprar produtos caseiros e artesanais; reparar as próprias roupas, móveis e objetos; apreciar a cultura e os espetáculos locais e regionais; trocar roupas entre amigas; se comprar algo de grandes marcas, verificar a qualidade e comprar algo realmente bom, que dure. Obviamente há itens impossíveis de não serem comprados de grandes empresas (eletrônicos, por exemplo), porém, sempre que possível, sugere-se buscar alternativas locais, regionais e nacionais para o consumo.



O consumo consciente envolve refletir sobre o que você tem, sobre o que você realmente precisa e onde encontrar o que você precisa. 

"Consumir, assim como votar, é uma forma de exercer poder e de exigir mudanças. Conhecer é uma forma de poder. Questionar é uma forma de poder. Se você consome usando os seus conhecimentos e a sua capacidade de questionar, ou seja, se você consome de forma consciente, você tem chances de ser um participante ativo do jogo. Melhor ainda, você tem chances de ganhar o jogo. Que produto é esse? Eu realmente preciso dele? Será que não existe um melhor? Ele tem uma boa relação qualidade-preço? Por esse preço, eu não deveria exigir uma coisa de melhor qualidade? E na hora de vender, eles me contam muitas milongas? Essa empresa é coerente com os seus princípios? Que discursos e valores eles fomentam na hora de promover o produto? Me identifico com aquela propaganda ou sinto nojo? Será que essa empresa financia algum político corrupto? Será que essa empresa trata bem os funcionários e tem uma política social-corporativa decente? E como será a política ambiental? Eu realmente posso comprar esse produto? Ele se encaixa nas minhas finanças ou seria melhor deixar para o mês que vem? Eu estou comprando isso porque quero ou simplesmente me fisgaram e atuei impulsivamente? Até que ponto os meus desejos ou inseguranças estão sendo explorados? Esses foram alguns exemplos de perguntas que podem ser feitas na hora de consumir. Consumir um produto não é apenas levá-lo para casa. Também é financiar uma empresa, uma estrutura, uma forma de fabricar, uma forma de vender, uma forma de fazer publicidade, uma política de marketing" (do blog De Chanel na Laje)

Diversos coletivos se preocupam em não comprar produtos testados em animais ou com políticas que agridem o meio ambiente. E produtos produzidos por escravos? Por que não nos preocupamos com isso? Por que fechamos nossos olhos e ouvidos ao invés de pressionar o governo e a indústria têxtil para criar um selo para empresas que oferecem condições dignas para seus trabalhadores?

------------------------------------

Os bens da terra não são maus; pervertem‑se quando o homem os elege como ídolos e se prostra diante deles; enobrecem‑se quando os convertemos em instrumentos a serviço do bem, numa tarefa cristã de justiça e de caridade. Não podemos correr atrás dos bens materiais como quem vai à busca de um tesouro; o nosso tesouro [...] é Cristo, e nEle se devem concentrar todos os nossos amores [...]'. Ele é o verdadeiro valor que define toda a nossa vida. Temos de imitá‑lo nas nossas circunstâncias pessoais. E nunca devemos dar por subentendido que já estamos desprendidos dos bens, porque a tendência de todo o homem, de toda a mulher, é fabricar os seus próprios ídolos, criar 'necessidades desnecessárias, sem tomar em consideração que o homem, ao usá‑las, não deve ter as coisas que possui legitimamente como exclusivamente suas, mas também como comuns, no sentido de que não são proveitosas apenas para ele, mas também para os outros” (Meditação "Falar com Deus" n. 68, "O sentido cristão dos bens")

"Totus Tuus: Todo teu! Este era o lema do pontificado de São João Paulo II. Quando somos consagrados a Nossa Senhora, tudo o que temos, possuímos e somos torna-se Dela, e em tudo ela nos ajuda a melhor amar e servir a Deus. Estaríamos agradando a Deus ao financiar a escravidão de nossos irmãos?"

You Might Also Like

1 comentários