O Manual do Peregrino Moderno (parte 1), de Peter Kreeft - Projeto "Livro Aberto"

  • 04:10
  • By Modéstia e Pudor - Colaborador
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(Texto enviado por um seguidor do blog.)

Raras são as vezes em que começamos uma leitura com a certeza de que seja isso mesmo que deveríamos ler para sanarmos certas questões das quais buscamos as respostas. Mais raras ainda são as oportunidades de lermos a obra certa quando iniciamos a nossa busca pela Verdade. Quando começamos um determinado estudo, o normal é que busquemos manuais que nos dêem as informações básicas e conceitos iniciais sobre a tal disciplina. Para os interessados pela busca da Verdade, o livro certo é O Manual do Peregrino Moderno, do excelente Peter Kreeft.

A história toda se desenrola num sonho de Kreeft, onde tudo e todos estão em outro mundo do qual não se consegue mentir – como uma espécie de purgatório, mas não é bem isso e ele faz questão de deixar essa questão em aberto. Nesse mundo, as leis do tempo não se aplicam, então você encontrará passagens onde Moisés cita Sócrates para explicar uma dada situação. Assim como Sócrates e Platão, Kreeft explica tudo o que quer ensinar através de diálogos, nesta obra.

Sem mais delongas, comecemos!

Logo no prefácio, Kreeft já lhe entrega o roteiro do livro:

“A história é um roteiro para a jornada mais importante que você pode fazer. É sobre as escolhas para determinar a sua filosofia de vida. Estas são as dez escolhas, em uma progressão lógica:
1- Devo questionar? Devo ir nessa aventura pela verdade, afinal?
2- Se eu questiono, existe esperança por respostas ou devo ser um cético? Existe verdade objetiva?
3- Se existe verdade objetiva, existe alguma sobre o sentido da vida?
4- Se existe uma verdade objetiva a respeito do sentido da vida, não seria que a vida é sem sentido, vaidade das vaidades?
5- Se a vida tem um sentido real, este é espiritual ou meramente material?
6- Se o sentido é espiritual, ele é do tipo moral? Existe realmente o certo e o errado?
7- Se existe certo e errado, um sentido moral real, este sentido é religioso? Deus existe?
8- Se existe um Deus, Ele é imanente (panteísmo) ou transcendente (deísmo)? Em todo lugar ou em lugar nenhum?
9- Se Deus é tanto imanente como transcendente (teísmo, criacionismo), são os Judeus (os primeiros a ensinar esta ideia de criação) o seu profeta, o porta-voz para o mundo?
10- Se os Judeus são o profeta de Deus, Jesus é o messias?” (pp. 9-10).




Perceba que todas as questões centrais dos debates filosóficos, desde que foi assim batizada por Pitágoras, estão, de uma forma ou outra, dentro dessa jornada que Kreeft está prestes a começar.




1. O INÍCIO – Questionar ou não, esta é a questão

O início do sonho de Kreeft ocorre na Caverna, mito descrito no livro VII de A República, de Platão. Neste sonho, ao contrário do mito platônico, onde as pessoas estão acorrentadas e só podem ver a sombra que a fogueira projeta na parede da caverna, Kreeft observa que existem fileiras e mais fileiras de cadeiras, como que em um cinema, onde as pessoas assistem as mesmas sombras espontaneamente, bem confortáveis em seus lugares. Eis que de repente, Sócrates o encontra e o informa de que será o guia em sua jornada para fora da Caverna. Já de início, ao darem logo os primeiros passos, aparece Epicuro[1]:

“- Venha comigo – disse Epicuro – para o meu jardim das delícias. Ganhe o máximo do único mundo que você tem. Coma, beba e divirta-se.
- Ele pede que você aborte a sua fuga desta prisão – interrompeu Sócrates. – Quer que você, ao invés de iniciar a jornada no caminho da liberdade, se sente pelo caminho e brinque com lindas flores.
- A escolha é entre estas flores reais e outras, imaginárias, em algum mundo irreal – disse Epicuro ainda focando em mim. – Por que abandonar a única coisa que você tem certeza a respeito?
Naquele momento, eu estava totalmente perplexo e não sabia em qual dos guias acreditar. Eu queria descobrir mais sobre o jardim de Epicuro.
- Quais flores crescem no seu jardim? Perguntei.
- Qualquer uma que te dê prazer – ele respondeu. – Qualquer coisa que te agrade. Sexo e dinheiro parecem ser as duas flores mais populares do seu tempo.
Naquele momento percebi que era impossível mentir, esconder ou dissimular neste mundo. Assim eu disse:
- Eu devo admitir que estou fortemente atraído pela sua oferta.
- Você irá economizar muita sola de sapato e lágrimas no seu rosto – ele argumentou. – Veja todas aquelas pedras pontudas no caminho.
Eu virei para Sócrates e perguntei:
- Você pode me provar que é melhor viajar do que ficar aqui?
- Não posso – ele disse. – Se você não quiser fazer essa aposta, eu não posso fazer.
- Então você está me pedindo para dar um salto de fé, no escuro, baseado na sua autoridade?
- Não estou não! Replicou indignado. Eu estou pedindo que você questiona todas as autoridades, fazer aquilo que soa tão simples, mas que se prova estrênuo, corajoso: pensar por si mesmo, espantar-se. A filosofia começa no espanto, você sabe.
- Suponha que eu escolha não querer me espantar.
- Então você terá escolhido não escolher. Lembre-se, você não tem a escolha entre alguma e nenhuma filosofia, apenas entre a boa e má filosofia.”
(pp. 18-19).

Logo no primeiro capítulo, através de Epicuro e o seu Hedonismo, Kreeft nos convida a refletirmos a respeito da nossa Cosmovisão. Pois, se o mundo é só matéria, o que importa é o aqui e o agora e, quanto mais prazer sentirmos, melhor. Mas a questão que precede esse raciocínio é simples: o mundo é só matéria? Então Kreeft abandona Epicuro e seu jardim pela pobreza de sua filosofia; afinal, se o prazer – sintético ou não – é a finalidade da vida, morrer de overdose é o clímax da vida de um sujeito. Boa ou má filosofia? É você quem escolhe.


2. O CÉTICO – É verdade que não existe nenhuma verdade?

De imediato, ao deixarem Epicuro para trás, Kreeft e Sócrates partem para uma jornada com o objetivo de sair da Caverna, acontece que em meio a essa jornada haverá várias bifurcações; em cada bifurcação, um filósofo relativista; ou seja, em cada bifurcação, uma decisão filosófica, uma decisão de orientação de sua vida deverá ser tomada. Dessa vez, eles se encontram com Protágoras[2]:

“- O que você busca? – Perguntou-me Protágoras.
- A Verdade – respondi.
- Você a encontrou aqui nesta pequena sala cheia de computadores?
- Porque a verdade é subjetiva, não objetiva. Cada um de nós em sua sala, como esta. A verdade é a sua verdade. Não importa o que você acredita ser a verdade, ela é para você. O homem é a medida de todas as coisas.
Sócrates interveio com voz severa:
- Podemos pensar sobre as opções de caminho antes de decidir?
- Oh, claro – eu disse um tanto assustado. – Mas pensei que eu tinha acabo de fazer justamente isso. Parece não haver como refutar os argumentos dele.
- Você pensou os pensamentos dele. Mas você não quer pensar outros?
- Claro! Mas quais outros? O que ele disse parece ser uma verdade autoevidente que me compele a acreditar nela.
- Compelido pelo quê? Pela lógica?
- Sim, pela lógica.
- Então vai aceitar a lógica como sua professora? Você vai seguir a lógica do argumento não importa onde ela te leve?
- Sim.
- Ótimo! Vamos explorar a questão com um pouco mais de cuidado, exatamente onde o argumento leva, se você tiver paciência. Protágoras! – Sócrates virou e chamou seu amigo de longa data. – Você debateria comigo a grande questão da verdade subjetiva versus verdade objetiva aqui, na presença deste peregrino de tal forma que ele possa ver com maior clareza e decidir o seu caminho por conta própria?
- Prefiro não fazer isso, Sócrates. Eu disse o que tenho a dizer. Agora é a sua vez de tentar virar de volta a mente dele.
- Eu não estou surpreso com isso. Se você não acredita em verdade objetiva, os debates se tornam meramente jogos, ou desafios pessoais. Para mim, o debate é feito de duas pessoas em busca da Verdade, explorando qual das duas estradas realmente alcança o objetivo. Bem, – foi quando Sócrates se virou para mim – então você deve escolher entre o caminho da direita [sair da caverna] ou da esquerda [ficar preso nas armadilhas relativistas das bifurcações da caverna]. Mesmo que a Verdade objetiva exista, ou não. O que verdade objetiva significa, existindo ou não?
- Algo independente de mim, de minha mente, das minhas opiniões, sentimentos crenças, desejos e experiências.
- Ótimo. Agora que temos uma definição simples e clara dos nossos termos, vamos tentar descobrir se existem ou não.
- Bem, verdade subjetiva certamente existe.
- Por quê?
- Porque se não existisse, não existiriam pensamentos, opiniões ou sentimentos na minha consciência subjetiva.
- Ótimo. Então concordamos que verdade subjetiva existe. E quanto à verdade objetiva?
- Eu não sei. Como podemos descobrir que ela existe? Todo esse assunto não é puramente subjetivo? Algumas pessoas acreditam que sim e outras não. Se você acredita que sim, é verdade para você, e é isso.
- Podemos ver se é isso mesmo
- Como?
- Vamos ver as consequências dessas duas filosofias. Se existe uma verdade objetiva, consequentemente as nossas verdades subjetivas, nossas opiniões, poderiam estar erradas, fora de alinhamento com a verdade objetiva. Não é assim?
- Sim. E isso me parece boa razão para não acreditar em verdade objetiva. Nós poderíamos julgar, criticar e chamar as pessoas de erradas, quando, de fato, seriam apenas diferentes.
- Sim, essa seria a consequência. Se não existir verdade objetiva, não há padrão para julgamento e a verdade subjetiva falha em estabelecer esse padrão.
- Exatamente. A verdade subjetiva – um pensamento – não é errada ou falha; apenas é o que é.
- Esta é uma conclusão necessária, sim.
- E minha filosofia da verdade objetiva, também é apenas o que é. Não é mais falsa e nem mais verdadeira que a filosofia de Protágoras.
- Oh!
- Talvez você queira descompactar este oh!
- Parece que o subjetivismo se refuta a si mesmo.
- Como?
- Diz que existe verdade no fato de não existir uma verdade. Ou que é objetivamente verdadeiro que não exista uma verdade objetiva.”
(pp. 27-28).

Em suma:

“- Meu caro, não existe verdade absoluta.
- Tem certeza?
- Absoluta!”

3. O CÍNICO – Não podemos ser cínicos com o cinismo?

Após ter escolhido deixar Protágoras para trás e pegar o caminho da direita (não é mera coincidência que escolher virar à esquerda leve para armadilhas progressistas; digo, relativistas), na bifurcação seguinte, Sócrates e Kreeft se encontram com Diógenes[3]. (De olho nesse capítulo porque foi, até onde vejo, a sacada mais genial do livro todo.)


“- Eu vou deter a sua pobre vítima nessa sua aventura sem sentido – disse Diógenes bem zangado.
- E como você vai fazer isso, Diógenes? Você certamente não o fará por uma alternativa muito atrativa.
- Eu vou questioná-lo acerca das suas intenções de encontrar o sentido da vida que ele está procurando. Protágoras disse que não existe nenhuma verdade objetiva e você o refutou facilmente. Mas eu tenho muito mais bom senso. É claro que existe alguma verdade objetiva e você pode conhecê-la. É autocontraditório dizer o contrário. Porém, isso não se aplica ao sentido da vida. A física, a matemática, este tipo de coisas são verdades objetivas, mas o que você busca é a verdade objetiva em coisas como filosofia, religião ou moralidade, não estou certo? Não é isso que você espera encontrar? Ele se virou para mim quando fez a pergunta.
- Sim – eu disse.
- Bem, desista. O sentido da vida é que a vida não tem sentido. Ou, se preferir, o sentido é subjetivo. Você cria o sentido na medida em que vive. É qualquer coisa que lhe agrade. É algo diferente para cada pessoa. Para alguns é filosofar, para outros é colecionar tampinhas de garrafa. Você pode tomar o seu pé em uma pedra, mas como esperar topá-lo contra o sentido da vida?
- Não o meu dedão – eu disse de forma indignada. – Minha mente.
- Ah, você acha que pode encontrar o sentido da vida pensando?
- Sim.
- Mas isso nunca funcionou! Milhares já tentaram e vieram com milhares de pensamentos. Ao contrário das pedras, os significados são múltiplos na medida em que os fazemos.
- Então o sentido da vida é puramente subjetivo.
- Exatamente.
- Porém este pensamento é também subjetivo. Então por que eu devo acreditar nele? Eu pensei que tinha aprendido como refutar esse tipo de coisa.
Mas Diógenes tinha uma resposta:
- Quase todo mundo concordava sobre as pedras, não?
- Sim.
- Mas não sobre o sentido da vida.
- Não.
- Então como você pode falar que espera conhecer a verdade objetiva sobre este ponto? Não importa o que você acredita, estará em desacordo com a maioria e com muitas mentes muito mais brilhantes que a sua.
Meu coração sentiu quando eu percebi que Diógenes havia se apropriado do método socrático e que eu estava na defensiva, não na ofensiva. Eu olhei desesperadamente para Sócrates que estava humildemente e silenciosamente parado ao meu lado. Ele viu meu olhar, entendeu, e olhou de volta com um jeito parecendo dizer muito bom para você, começando a pensar e argumentar por si mesmo e ao mesmo tempo ruim que você tenha que desistir tão cedo e pedir por minha ajuda – como se fosse um pai, fácil de agradar e difícil de satisfazer. Ele então se dirigiu a Diógenes:
- Primeiramente, vamos ver se entendemos o seu argumento, antes de decidirmos se seremos persuadidos por ele. É correto resumi-lo da seguinte forma: que quer sim quer não, existe verdade objetiva sobre coisas como pedras e quer sim quer não, não existe verdade objetiva sobre o sentido da vida, sobre as coisas que não podemos tocar o sentir, como questões morais, religiosas e filosóficas. Ou ainda, se existe verdade objetiva sobre o sentido da vida, não podemos esperar encontrá-la ou conhecê-la. Esta é a sua conclusão, não é?
- Sim. Coisas como meu barril e coisas como o seu sentido da vida são bem, bem diferentes.
- E como elas são diferentes.
- Qualquer um pode facilmente achar o meu barril, Sócrates, mas ninguém pode achar o seu sentido da vida.
- Isso se dá porque é muito difícil de encontrar, já que não podemos percebê-lo com os nossos corpos da mesma forma que podemos perceber o seu barril?
- Sim.
- Ou é porque as pessoas discordam muito mais a respeito do sentido da vida do que sobre o seu barril?
- Isso também. Ambas as razões. As pessoas discordam sobre o sentido da vida justamente porque é tão difícil de encontrá-lo.
Neste ponto, Sócrates se virou para mim e proferiu um adendo:
- Note que é sempre bom restaurar o argumento do seu oponente nas suas próprias palavras para a satisfação dele mesmo, para ter certeza que você o entendeu antes de começar a trabalhá-lo.
Eu me lembrei da minha história, e disse:
- Não era essa uma máxima das universidades medievais nas chamadas Questões Disputadas da Escolástica?
- Era. Eles realmente herdaram isso de mim. É uma regra fundamental para um debate justo. A sua cultura esqueceu-se completamente disso, exceto nas ciências.
- É uma regra de moralidade, para ser justo com o seu oponente?
- Sim, mas também é uma regra em interesse próprio, para ser justo consigo mesmo.
- Não entendo.
- Por que você debate? Não é para encontrar a Verdade? Isso não é de seu interesse próprio?
- Espero que sim.
- Eu também espero. E você não terá certeza do que é verdade se o argumento que você refutar não for realmente o argumento do seu oponente, mas de outro, um espantalho que você criou justamente para derrotar. Você seria como navios passando na noite ao invés de espadas se cruzando para testar qual lâmina é a mais forte.
- Portanto, mesmo que derrotasse o argumento do espantalho, eu não teria derrotado meu oponente.
- Eu não colocaria a questão dessa forma. Eu não gostaria absolutamente de derrotar o meu oponente humano.
- O quê?
- O meu oponente real não é feito de carne e osso. Meu oponente é a ignorância e eu espero que também seja o oponente do meu parceiro de diálogo. Se for desta forma, nós somos fundamentalmente amigos, não inimigos, visto que procuramos a mesma coisa. Por isso eu procuro pessoas que discordam de mim. Eles são meus amigos especiais e aliados. Suas oposições me ajudam a ter certeza da verdade, assim como o ferro afia o ferro. Somos mais sparrings um do outro, fortalecendo nossos músculos, da mesma forma que um experimento confirma a teoria.
Eu estava grato pelo conselho e surpreso que Sócrates tenha falado diretamente dessa vez, como um pregador, ao invés de indiretamente, questionando, como um filósofo. Evidentemente esta era uma coisa quase religiosa para ele.
Ele então se virou para Diógenes e disse:
- Vamos agora examinar estas duas razões, a da Dificuldade e a do Desacordo. Diga-me, por favor: é mais difícil descobrir uma pedra pequena que uma pedra grande?
- É claro.
- E uma pedra pequena é menos objetiva ou menos objetivamente verdadeira?
- Não.
- Então a dificuldade da descoberta não elimina a objetividade da verdade.
- Não uma pequena diferença como essa, Sócrates, entre duas pedras. Porém, existe uma grande diferença entre pedras e qualquer tamanho e o sentido da vida. Você não encontrará o sentido da vida não importando quão bons sejam os óculos ou microscópios que você esteja usando.
- Mas, se a dificuldade da descoberta fizesse uma coisa mais subjetiva, então uma pequena dificuldade de descoberta faria que uma coisa fosse um pouco mais subjetiva e uma grande dificuldade faria com que a coisa fosse muito mais subjetiva. Mas a dificuldade de descobrir uma pedra pequena não faz esta pedra ser em nada menos subjetiva. Portanto, o princípio não é válido.
Diógenes não respondeu e, ao invés disso, começou a ficar mal humorado. Assim, Sócrates tentou argumentar com ele novamente:
- Não percebe? Quantas pedras pequenas estão na superfície da lua e são todas muito difíceis de descobrir; e, apesar disto, são objetivas. Mas também não importa como eu perceba uma pequena pedra no meu sapato, o que é simples de descobrir, esta percepção é subjetiva. Portanto, dificuldade e subjetividade não são a mesma coisa.
Ao invés de agradecer Sócrates pelos esclarecimentos, Diógenes ficou ainda mais mal humorado. Sócrates continuou, mais por minha causa do que por Diógenes:
- E a sua segunda razão também parece não provar nada. Desacordo não é um critério melhor para subjetividade que a dificuldade. Posso provar isso para você?
- Não tenho como parar você, tenho?
- Não, mas você pode parar a si mesmo prestando atenção a isso. Preste atenção no que eu digo por um momento, por favor. Vamos ver quais as pessoas que estão em desacordo. Estas pessoas sempre estão em desacordo a respeito do tamanho das pedras?
- Às vezes.
- E sobre o futuro? Por exemplo, o dia em que um bebê vai nascer.
- Sim.
- E sobre o passado? Por exemplo, quando o universo começou a existir.
- Sim.
- E sobre quais coisas são boas e quais coisas são malignas?
- Sim.
- E sobre o sentido da vida?
- Isso também.
- Mas essas coisas não são verdades objetivas? Ou o universo começou a bilhões de anos atrás ou não. Ou o bebê nascerá amanhã, ou não. Ou é bom lutar uma certa guerra, ou não é. Ou a vida tem significado, ou não tem. Ou o sentido está em encontrar a Verdade, ou não está. Cada uma dessas coisas é muito diferente de algo subjetivo, como um sentimento, que depende de você.
- Algumas dessas coisas são sentimentos, Sócrates, como o sentido da vida. É por isso que as pessoas estão em desacordo sobre este assunto. É subjetivo.
- Nós vimos, ao menos, que as pessoas discordam às vezes sobre coisas objetivas, não vimos?
- Sim.
- Agora vamos ver se elas discordam sobre coisas subjetivas.
- Tudo bem.
- Elas discordam sobre como eu sinto a dor do meu pé? Ou como você deseja beber cerveja?
- Não. As pessoas não discutem sobre essas coisas.
- Por que não?
- Porque são puramente subjetivas.
- Aha! Então não são as coisas subjetivas, mas as objetivas que são objetos de discussão.
- É o que parece.
- E as pessoas argumentam sobre coisas que discordam ou sobre coisas que elas concordam?
- Coisas sobre as quais elas discordam.
- Então o desacordo é apenas a respeito de coisas objetivas, não subjetivas.
- Parece que sim.
- Então desacordo sobre algo é razão, não para pensar que é subjetivo, porém, o contrário, que é objetivo.” (p. 35-42).


Ou seja: não é porque você, no auge da sua loucura, “discorda” que 2+2=4 que essa afirmação deixe de ser objetiva para se tornar subjetiva. E assim, Sócrates segue destruindo os relativismos, um-a-um.

[1] Epicuro: foi um filosofo grego cujas ideias giravam em torno da busca da satisfação, caracterizada por ele pela aponia (ausência de dor no corpo) e ataraxia (tranquilidade psicológica). Em suma, Epicuro era um Hedonista, pois na sua doutrina o prazer é o sumo bem, cabendo aqui a ressalva de que não havia defesa dos excessos, pelo contrário, considerando indispensável o auto-controle ao experimentar os prazeres. Fundou uma escola conhecida como “O Jardim” ou “O Jardim das Delícias”, que era retirada da agitação do mundo, onde ensinava e convivia com os alunos. Nos dias atuais, Epicuro seria alguém como Hugh Hefner (fundador da revista e dono da mansão Playboy).


[2] Protágoras: nasceu em torno de 492 a.C. e morreu e torno de 422 a.C.. Foi o fundador do movimento Sofista, do qual surgiu a célebre frase “o homem é a medida de todas as coisas”. Os sofistas eram hábeis em argumentar e defender seus pontos de vistas publicamente, ensinando que a efetividade de um dado argumento estava na verossimilhança, ou seja, tinha de ter aparência de verdadeiro, mesmo que não fosse. Os sofistas não acreditavam em verdades objetivas, então se precisassem afirmar que 2+2=5 para provar algo, assim fariam se achassem que funcionaria.


[3] Diógenes: é um filosofo grego da escola cínica que perambulava pelas ruas “vestido” com um barril, carregando uma lamparina, procurando por um homem honesto. Diz-se que vivia em completa miséria, buscando o ideal cínico da auto-suficiência. Diógenes dizia ainda que a sociedade era hipócrita, defendendo que deveríamos nos inspirar nas atitudes caninas e viver sem nenhum luxo, comendo qualquer coisa, dormindo em qualquer lugar, viver uma vida simples e sem pretensões de ordem abstrata. Praticamente, defendia a animalização do homem.




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