O Caminho da Mortificação - Por Ana Paula Barros


Por Ana Paula Barros, do Salus in Caritate



Ser um cristão é ser um “outro Cristo”. Jesus carregou sua cruz e sempre nos convida a segui-lo carregando as nossas cruzes. Atualmente, surgiu uma nova visão, nada cristã, que não fala da cruz! No entanto, não existe cristianismo sem cruz pois a cruz é o trono do Amor, que é Jesus. A cruz é o topo, o cume da ação de Jesus e será também a nossa. Por ela Jesus cumpriu a Vontade do Pai e assim, pela cruz, também nós a cumpriremos.

Aqui, vale lembrar dois tipos de cruzes: aqueles que construímos e aquela que nos é reservada por Deus. Cada um de nós possuímos uma cruz, feita muitas vezes de madeiras diferentes, ou seja, de dificuldades em várias áreas da vida que carregamos e que por meio delas alcançaremos a salvação. Mas também, por diversos motivos podemos criar para nós cruzes que não são da vontade de Deus, os vícios são exemplos disso, são cruzes forjadas pela nossas próprias mãos.

Assim, para que não haja insultos a Deus é preciso analisar a procedência da cruz, pois a cruz feita por Deus é um fardo leve, pois é fonte de amor e ele nutri a alma de vigor.

Feita essa observação é preciso também se atentar a algumas facetas dessa prática:

Orgulho: a alma se envaidece e por isso se acha superior as outras por fazer mortificação, o que não procede, pois é uma prática que deve estar incutida na vida de todo cristão.

Exagero: não se vê limites corporais na realização das práticas e o corpo sofre além das medidas. A mortificação é passar desejo e vontade, não se lançar para a morte.

Indiferença: Não se acredita que essa prática tenha sua eficácia, então não se pratica nenhuma mortificação.


Todas essas vias de desvio podem ocorrer na prática da mortificação e devem ser alvo de grande vigilância.

Mas afinal, qual a importância da mortificação?

Mesmo depois do batismo ainda podemos sentir os efeitos da concupiscência, o apetite da carne, dos olhos e do orgulho. A mortificação é uma forma de aplacar os malefícios do pecado original em nossa vida.

Na vida cristã temos a vivência que se baseia em passar do homem velho para o homem novo, no entanto, isso só é possível com a mortificação do homem velho, que permite o nascimento do homem novo, que é Jesus em nós.

Quando observamos a vida dos santos podemos distinguir “categorias de mortificação”: 

Não diga: "Essa pessoa me dá nos nervos".
Pense: "Essa pessoa me santifica"

Mortificação Corporal 

Temos aqui uma variedade de mortificações. No que se refere a alimentação, temos uma regra básica de não ultrapassar o necessário para o corpo, assim se passa desejo e não fome. Esse ponto é importante pois impede abusos. Aqui o importante é primeiro pedir a Deus que não deixe que o prazer guie nossos atos, mas sim a vontade de bendizer a Deus em tudo, inclusive durante a alimentação.


Nessa categoria se encontra o jejum que deve ser feito debaixo do véu da obediência, portanto é importante a orientação de um padre para realiza-lo fora das orientações básicas da Igreja (mais de um jejum semanal), abster-se de lanches entre as refeições e também realizar uma meditação da paixão do Senhor durante a refeição, para torná-la fonte de edificação, e não prazer inútil. Também podemos realizar mortificação corporal com um sono regrado (sem sonequinhas repetitivas), não murmurar se estiver indisposto e também evitar se auto dispensar ou pedir dispensa por essa indisposição, suportar a doença com paciência.

O intuito da mortificação é sublime, pois temos a intenção de, unidos a Jesus, salvar as almas, não é uma obra egoísta, que visa a própria salvação, seu maior mérito esta em “dar a vida pelos amigos” e nesse caso não se trata de “vida corporal” mas sim de prazeres que só nos dão vida nesse mundo e podem ser, facilmente, vias de condenação. A mortificação nos impulsiona a praticar o “Conhece-te, aceita-te e domina-te” de Santo Agostinho, pois nos coloca frente a frente com nossas limitações e nos leva dominá-las. O que podemos esperar de um cristão que não domina seus apetites e prazeres corporais. Assim como Jesus, nosso Reino não é desse mundo.

Mas, inversamente ao que muitos pensam, a mortificação não é somente uma prática de continência alimentar, existe a mortificação dos sentidos. Sim, fechar os olhos a espetáculos que dão prazer aos olhos; não escutar elogios e bajulações; não reclamar do paladar da comida ou do cheiro, se privar sempre de algo à mesa que lhe seja agradável; no frio, calor, ventania, bendizer ao Senhor; calar a ira e a irritação; não ter necessidade de sempre ter de se explicar; não se habituar a jogos e leituras nada edificantes.

E ainda a mortificação da vontade e do espírito. Calar os pensamentos inúteis, sobre o futuro ou de tristeza, calar a língua que é o órgão natural do espírito, obedecer em tudo e bendizer na humilhação, na vergonha e no esquecimento.

“Desejo poucas coisas, e o pouco que desejo, o desejo pouco
", dizia São Francisco de Assim.

Também são mortificações cumprir o dever e ter uma postura modesta, nunca se dando ao luxo de descansar a postura por desleixo (São Francisco fazia muito essa), assim como também evitar as filhas menores da acídia que são a desordem e sujeira; tolerar os defeitos do próximo; se afastar de amizades que lhe dirigem conversas inúteis, mas engraçadas; fazer um favor que lhe custe. Essas são tarefas menores, que justamente por essa razão são difíceis de se praticar e operam uma grande ascese na vida diária.

Assim, é possível ver que o caminho da mortificação é rico e fortalecido pela vivência do evangelho, pois é o evangelho na prática.

“Em todas as coisas sofremos a tribulação… Trazemos sempre em nosso corpo a morte de Jesus, afim de que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos” (2 Cor. 4, 10).

A mortificação é uma forma de purificação da própria alma, um caminho para negar a natureza e se unir a Deus e também um ato de amor. A cruz é o caminho do céu, não há como unir-se a Deus sem se unir a ela, e por amor nos unimos a cruz, para nos apresentar diante de Deus. Deus acolhe as nossas ações (pois “a fé sem obras é morta” Tg 2, 26) e por meio delas podemos entrar na sala do Trono do Pai Celeste e lá apresentarmos nossas obras, por nós e pelos irmãos.

Já parou para pensar quantas conversões, quantas almas saindo do purgatório e vendo a face de Deus, quantas bênçãos para o clero você pode conseguir oferecendo as pequenas mortificações naturais de cada dia a Deus nessas intenções? Pequenas sementes de fé, como um grão de mostarda, são as mortificações que germinam e não movem somente montanhas mas os Céus, o coração de Deus.

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