Os desafios da evangelização

  • 13:17
  • By Modéstia e Pudor - Colaborador
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“Ai de mim, se eu não evangelizar!” (1 Cor 9, 16)



Não é novidade que a sociedade caminha a passos longos ao relativismo moral e que isso tem dividido a Santa Igreja Católica desde dentro. Fundar uma nova igreja tornou-se fácil nos tempos modernos, e o desafio é permanecer firme na Igreja de Cristo, principalmente aos católicos que procuram estar de acordo com a doutrina e professar sua fé em sintonia com a tradição de dois mil anos. Deveria ser uma obediência natural, porém, quem busca isso hoje é tachado de “retrógrado”. Vivemos, como diz o grande Padre Paulo Ricardo, na “cultura do analgésico” e do “não precisa”, onde se foge da dor e busca-se o prazer. Nada mais é pecado, tudo pode; práticas de devoção, missa diária, confissão frequente, são um exagero, uma vez que “Deus é bom e misericordioso com todos os vossos filhos” – o típico pensamento protestante que resulta em cristãos mornos. Quem se habilita em viver uma família numerosa, viver a modéstia, hábitos de vida conservadores e santificação cotidiana, é tido como “louco”, “fora da realidade”. 

Dentro desse cenário muitas vezes nos vemos desanimados e sentimos como se nosso esforço em evangelizar não surtisse efeitos. Por muito tempo sentimos que o melhor é nos fecharmos em nossa bolha e estudarmos sozinhos, sem espalhar aquilo que conhecemos, uma vez que ninguém o quer ouvir e muito menos viver. Mas precisamos tomar cuidado para não cairmos na vaidade, no egoísmo e no desespero. Sabemos que ensinando é que aprendemos e, novamente citando Pe Paulo, “se você não converte ninguém você se desconverte”.

Não podemos ignorar o Evangelho! “Ide, pois, e ensinai a todas as nações" (Mt 28, 19). É o que Deus nos manda fazer. Já pensou que este pensamento secularista pode ser nossa cruz? E o que estamos fazendo com ela? Deixando-a de lado e aliviando-a, ou tomando-a e rumando à santidade?

Diz um adágio antigo, atribuído a Tertuliano: unus christianus, nullus christianus. Isto é, um cristão sozinho não é um cristão. Que adiantaria estudarmos e buscarmos o conhecimento da Palavra se ela não frutifica? Afinal, a semente precisa germinar e frutificar (Mt 13: 1-23).

É então que nos perguntamos: “Como posso evangelizar?”

Nesta sociedade mimada que não pode ser tirada de sua zona de conforto que já grita por socorro e afago para aliviar sua dor, como poderemos levar a Palavra de Deus de modo com que atraiamos estas pessoas à Igreja sem as repelir, de modo com que elas ouçam e se sintam abaladas a mudar de vida?

Precisamos ter em mente que cada pessoa possui um temperamento, querido por Deus, e que precisamos usar disto a serviço de Deus, além de levá-los em consideração ao conversar com nossos irmãos. São os temperamentos sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico, que remontam a Hipócrates, sendo aqueles que mais correspondem à realidade, de acordo com mestres da espiritualidade. Várias das características de cada tipo temperamental são observadas nos apóstolos, que tiveram suas qualidades canalizadas para a evangelização. 

Há pessoas que precisam de um “empurrão” para saírem da inércia, e daí entra aquele servo com mais firmeza no falar, uma certa dureza caridosa para despertar o outro a buscar a vida em Cristo, para mostrar que o caminho que estão os levarão à perdição. Há os mais sensíveis e que acolhem melhor uma palavra mais branda, que os chamem ao Lar, os mostre que a vida regrada na imitação de Nosso Senhor é forma de santificação e salvação eterna; para esses, o servo passivo e calmo é ideal.

Portanto, não há uma maneira x ou y de evangelizar melhor, visto que cada um tem uma maneira de abordar e de acolher esta abordagem. O que precisamos é aceitar nosso modo de ser, pois somos instrumentos das mãos de Deus e Ele nos quis assim para adorá-lO em Espírito e Verdade. No batismo morremos para este mundo e o homem novo nasce. Devemos deixar com que o Espírito Santo aja em nós e nos forme, orando em todo o tempo movidos pelo Espírito (Ef 6, 18). Se somos mais passivos, quando for o momento de ter mais autoridade, peçamos inspiração ao Espírito Santo, e assim em outras ocasiões. 

A verdade é que o evangelho é doce e firme ao mesmo tempo! Ele precisa atrair as pessoas a Deus pela caridade e também precisa mexer na ferida, fazer acordar, com firmeza. Como vemos, por exemplo, no discurso de Pedro (v. At 2: 14-47), sua firmeza ao evangelizar levou milhares de pessoas a se converterem. Já em Maria vemos a “força revolucionária da ternura e do afecto”[1] na evangelização. 

Um fato que precisamos cuidar é para que nosso discurso não acabe caindo no relativismo. Não podemos ser tão brandos a ponto deste sacrilégio! Quando se vê que o discurso simpático não faz a pessoa acordar é hora de lutar com outras armas. "Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo"[2], por isso não podemos jamais deixar que o respeito humano tome o lugar da Verdade!

Outra maneira que tem sido bastante eficaz é partilhar da beleza de Deus com os amigos. Falar para quem não se conhece direito pode soar vaidoso ao ouvinte - mesmo que essa não seja nossa intenção. Para evitar isso, o ideal é que se busque conhecer aquela pessoa, detectar suas necessidades para então poder ajudá-la. Partindo da amizade ela terá uma abertura maior e mais confiança quando for dialogar sobre a Verdade. 
É a "nova evangelização" ou "reevangelização" da qual falava João Paulo II: “não parece justo equiparar a situação de um povo que nunca ouviu falar em Jesus Cristo, com a de um outro que o conheceu e aceitou, mas depois o rejeitou, embora continuando a viver numa cultura que absorveu em grande parte os princípios e valores evangélicos”. Num contexto assim, há que levar a cabo uma “nova Evangelização” ou “reenvagelização”." [3]
Trata-se de pessoas que não só desconhecem a fé católica, mas também daquelas que conhecem porém a negam. Para tremenda missão, devemos estar preparados de todos os modos e das melhores armas: oração, caridade e alegria.

A oração é o escudo do cristão. E quando fala-se de oração não é somente a contemplação e meditação, ou récitas, mas a oração diária e cotidiana. "São Josemaria não se cansava de repetir que a arma do Opus Dei é a oração, e essa lição que aprendemos a praticar, também convertendo o trabalho em oração, temos de transmiti-la com paixão e dom de línguas em todos os ambientes. "A oração é o fundamento e o ponto de partida de todo o apostolado."[4]. As menores tarefas do dia a dia podem ser convertidas em grande oração, se feitas com amor e doação. Deus nos deu talentos, nos concedeu determinados temperamentos e dons para que aproveitássemos isso em favor do reino dEle, cada um único, específico para uma obra grandiosa e santificante.


"Nenhum de nós é um exemplar repetido: o nosso Pai criou-nos um a um, distribuindo entre os seus filhos um número diverso de bens. Temos que pôr esses talentos, essas qualidades, a serviço de todos; temos que utilizar esses dons de Deus como instrumentos para ajudar os homens a descobrir Cristo.

Não consideremos este anseio como algo acrescentado, como se se tratasse de orlar com filigrana a nossa condição de cristãos. Se a levedura não fermenta, apodrece. Pode desaparecer reavivando a massa; mas pode também desaparecer por se perder, num monumento à ineficácia e ao egoísmo. Não prestamos um favor a Deus Nosso Senhor quando o damos a conhecer aos outros: Se anuncio o Evangelho, não tenho de que me gloriar, pois é uma necessidade que me é imposta, a mandado de Jesus Cristo, e ai de mim se não evangelizar!" [5]

A caridade é o sal do apostolado e a alegria surge dela! Com caridade se atrai pessoas para Deus e se é espelho de Cristo neste mundo. A alegria mostra a beleza da vida cristã autêntica a fim de despertar o desejo por tamanho bem! Afinal, sabemos que na sociedade atual nem sempre o "anunciar", o "falar", ações mais diretamente ligadas de fato à evangelização, têm grande eficácia. Por isso, devemos viver aquilo que professamos a fim de que nossas sejam visíveis, comprovadas em nossas ações cotidianas. Fazer tudo com amor, bem feito, cuidar e ajudar o próximo, enfim, são infinitas as formas de evangelizar através do cotidiano, e isso atrai os olhares, isso é ser como Cristo. Muitas vezes o exemplo move mais do que o discurso. Afinal, antes de falar, precisamos agir. Sejamos cristãos coerentes antes mesmo de pensar em evangelizar.



Falamos da abordagem da evangelização que pode servir de ponto de partida, mas uma coisa é certa: não importa como você fale, o Evangelho vai incomodar! Aos que falam mais diretamente ele apenas incomoda mais rápido, escandaliza, uma vez que a pessoa já se depara com a verdade toda à sua frente! E deve ser assim! Uma vida cristã sem incômodo não é vida cristã! Lembremos sempre: “Os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Coríntios 1:22,23)

Não nos foi dito: deite e me espere que o buscarei para levar ao Céu. O que Jesus nos ordenou é “negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9:23). Devemos seguir na imitação de Cristo, sendo espelhos da Virgem Maria, de São José, dos Santos e Apóstolos que já nos traçaram o caminho de santidade – e nenhuma vida destas grandes pessoas foi “água com açúcar”. Muito pelo contrário!

Então, tenhamos em mente que temos uma grande missão.

“A Palavra de Deus sempre desagrada a alguns corações. A Palavra de Deus incomoda quando se tem o coração duro, o coração pagão, porque a Palavra de Deus o interpela a ir avante, buscando e matando a fome com aquele pão do qual falava Jesus. Na história da Revelação, muitos mártires foram mortos pela fidelidade à Palavra de Deus, à Verdade de Deus”.[6]

Evangelizar não é uma tarefa fácil, bem como viver o Evangelho também não é. Como cristãos, não buscamos coisas que nos sejam fáceis, devemos buscar aquilo que nos santifique! Vamos nos manter firmes na fé e viver o Evangelho no cotidiano – este é nosso maior apostolado!

"Não, meus filhos! Não pode haver uma vida dupla, não podemos ser como esquizofrênicos, se queremos ser cristãos", exortava Escrivá. E dito isso, seguia adiante: "aí onde estão nossos irmãos os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores - aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Em meio das coisas mais materiais da terra é que nós devemos santificar-nos, servindo a Deus e a todos os homens."[7]






[1] Exortação Apostólica do Papa Francisco - Evangelii Gaudium. Na parte: A Estrela da nova evangelização [287-288]

[2] (Cf. Caritas in veritate, n. 3).

[3]Cfr. Bem-aventurado João Paulo II, Litt. enc. Redemptoris missio, 7-12-1990, n. 37 e n. 30

[4] Cf http://opusdei.org.br/pt-br/article/a-tarefa-da-nova-evangelizacao/#_edn13

[5] In: São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, ponto 258.



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