A Igreja não pode prosperar sem pais


Tradução do original "The Church can't flourish without fathers", por Tim Stanley*, da edição impressa n.23 (Jan 2015) da revista britânica "The Catholic Herald".
Tradutores: Bárbara Guedes, Walter Guardado e um tradutor anônimo. Rezem uma ave maria por eles! Grifos nossos ao longo do texto


Cardeal Burke. Foto: Divulgação

Cardeal Burke foi ridicularizado por afirmar que homens são repelidos por uma igreja “feminizada”. Mas ele compreende que os pais tem uma enorme influência sobre o crescimento das crianças para serem “frequentadoras da Missa”.


As relações entre o clero e a mídia agora estão em conformidade com um plano de fundo ridículo: o clérigo diz algo perfeitamente razoável e a mídia já diz que ele quer trazer de volta a Inquisição. Então o Cardeal Burke estava correndo um grande risco quando ele deu uma entrevista para o Novo Projeto de Emangelização[1] sobre o tema de gênero e a Igreja Católica. Com impressionante candura, ele lamentou a influência do feminismo no catolicismo – e com grade de previsibilidade, a mídia o chamou de Neanderthal[2].

Jornais como o Independent lançaram sua sugestão de que o feminismo assumisse a responsabilidade pelos escândalos de abuso de crianças que incentivou uma crise de identidade sexual. Kaya Oakes do Washington Post escreveu que o Cardeal teve uma visão antiquada do gênero e era estranhamente cego para a contínua dominação institucional dos homens. E David Gibson, do Serviço de Notícias de Religião, empurrou ainda mais as coisas com uma observação que foi caluniante tão quanto Joan Collins jogando o gato de botas: "Burke, uma tradicionalista litúrgico, bem como um conservador doutrinal, que é conhecido por usar seda elaborada e paramentos de renda enquanto celebrava a missa, também disse que 'os homens precisam se vestir e agir como homens respeitando a si mesmos, as mulheres e as crianças '.” 

Porém, o que o Cardeal disse mesmo, e quão preciso foi? Ele argumentou as três coisas. Em primeiro lugar, que há uma crise da espiritualidade Católica entre os homens, que resulta em baixo comparecimento na Missa. Em segundo, que isto é em parte devido a uma feminização da liturgia. Em terceiro, que o feminismo tem também prejudicado o papel masculino tradicional da família e causado uma crise social mais ampla. Vamos testar cada hipótese, por sua vez.

Os homens estão desengajados da igreja? Matthew James Christoff, que dirige o novo projeto de Emangelisation, projetado para re-evangelizar homens católicos, e quem conduziu a entrevista com o Cardeal Burke, diz que católicos masculinos "foram ignorados [pela Igreja] em grande número e muitos têm se afastado". Ele cita pesquisas mostrando que "somente um quarto a um terço de ‘frequentadores da Missa’ regulares são homens e que 70 a 90 por cento das funções nas paróquias são dominadas por mulheres". A queda na participação masculina, obviamente, traduz-se em uma baixa nos números de vidas buscando o sacerdócio.

A relativa ausência de homens também tem um impacto sobre a continuação da fé de uma geração para outra. Um estudo suíço de Werner Haug e Phillipe Warner, publicado em 2000, concluiu que adultos tomam suas sugestões religiosas muito mais da forma como seus pais se comportaram durante a sua infância do que a forma como as suas mães fizeram. Se um pai e uma mãe frequentam a igreja regularmente, 33% dos seus filhos irão à igreja regularmente mais tarde na vida. Se uma mãe frequenta a igreja regularmente e o pai de forma irregular, apenas dois por cento crescem como participantes regulares. Mas se um pai é regular e a mãe é irregular, a probabilidade de fidelidade à igreja realmente aumenta: 38% de seus filhos se tornarão paroquianos regulares por eles mesmos. Se a fé na infância é vista como "mãe gosta que façamos alguma coisa", não tem quase impacto tanto quanto "pai insiste que façamos alguma coisa".
Citação da Semana:

"Vise o Céu e você conseguirá a Terra, vise a Terra e você conseguirá nenhuma das coisas"- C.S.Lewis

Que a afirmação do Cardeal Burke de que o catolicismo é "um problema de homem" é indiscutível, e quanto a sua análise das causas? Quando estava conversando casualmente com amigos e sacerdotes sobre a ideia de que a liturgia tinha se tornado feminizada, fiquei surpreso ao encontrar o acordo quase universal baseado na observação casual. Muitos homens admitiram que se sentiam "constrangidos" em uma Missa que todos falavam e apertavam as mãos e celebravam a vida em Comunidade. "Observe quantos homens ficam com os braços dobrados, obviamente desconfortáveis", confidenciou a um amigo. "E muitos deles aparecem tarde porque têm medo de que se eles aparecerem mais cedo serão solicitados a fazer algo fútil."

Joanna Bogle, uma escritora católica, que tem uma preferência pessoal para o rito moderno, lamenta que a Missa contemporânea apresente "muitas mulheres servindo” Elas tendem a ser "de certa idade – acontece que sou dessas também", ela diz, "e dominadoras quando se trata de ler ou auxiliar com serviços". Ela se preocupa, pois isso significa que eles estão sendo distraídos de outras tarefas em que as mulheres muitas vezes são muito melhores do que os homens ("ensinando, por exemplo,"), enquanto os homens não veem muitos papéis dentro da Missa do que desempenhar as suas habilidades. A ironia, ela insiste, que é a liturgia que se desenvolveu depois do Concílio Vaticano II na verdade deveria se prestar a um maior entendimento dos papéis complementares de homem e mulher. “Agora nós rezamos em voz alta e ouvimos”, ela diz, e nos conseguimos ouvir e entender uma rica linguagem nupcial de Deus como Pai, Jesus como Filho, a Igreja como Mãe, e por aí vai”

Joseph Shaw, presidente da Latin Mass Society, discorda levemente. Para ele, a transformação pós-1960 da Missa está no coração do problema – apesar de sua linguagem inteiramente ortodoxa. “O tipo de liturgia que apela ao homem,” ele argumenta, “é aquela com grandiosidade”. O Rito Antigo enfatizava o mistério cósmico de Cristo, enquanto o Novo é uma celebração da comunidade. 

Ele diz: “Se você fizesse a pergunta: ‘As mulheres gostariam de um missa que fosse mais uma celebração da comunidade?’ a maioria responderia: ‘Isso parece maravilhoso!’ Mas isso ignora a contra proposição de que os homens iriam gostar muito menos”

Em outras palavras, tudo que atrai as mulheres no Rito Novo é precisamente aquilo que afasta os homens. E, ironicamente, uma dessas mudanças é a emergência de uma grande ênfase sobre a personalidade do padre – o que o Cardeal Burke chama de “padre show”, Em muitos lugares a Missa se tornou muito “clericocentrica”[3], o cardeal explicou. “Esse tipo de abuso leva à perda do senso do sagrado, tirando da Missa o mistério essencial. A realidade do próprio Cristo descendo ao altar para fazer presente Seu sacrifício no Calvário se perde

Liberais não-católicos lendo isso podem achar muito dessa linguagem alarmante na sua suposição de que homens e mulheres são feitos, e naturalmente inclinados, para funcionar conforme seu sexo[4]. Mas, enquanto isso pode parecer um charmosamente nostálgico e abstrato princípio quando se está falando de liturgia, acaba tomando um significado no mundo real quando se considera o que o cardeal Burke tem a falar sobre a família moderna. “Eu me lembro de no meio dos anos 1970”, ele disse, “jovens homens me dizendo que estavam, de um certo modo, assustados pelo matrimônio por causa da radicalização das mulheres, bem como de suas atitudes auto-referenciais[5] que estavam emergindo naquele tempo. Esses jovens homens estavam preocupados de que entrar num casamento simplesmente não iria funcionar por causa de uma constante e incessante demanda de direitos para a mulheres. Estas divisões entre as mulheres e os homens têm piorado desde então.

Além disso, a pornografia tem distorcido o significado do sexo, definindo-o de maneira egoísta, diz o Cardeal. Em resumo, a família não funciona porque o homem e a mulher não se consideram componentes fundamentais de um único mecanismo, mais são consideradas como peças de reposição.

Certamente na Grã-Bretanha, por exemplo, o número de famílias monoparentais triplicou só nos últimos 40 anos. Mas isso é inteiramente uma crise de identidade de gênero? Também poderia ser devido ao aumento da disponibilidade de anticoncepção, que permite que as pessoas tenham relações sexuais breves, sem compromisso. Também poderia se considerar que as pessoas que vivem mais tempo são mais educadas, têm estilos de vida mais saudáveis e desfrutam de maior independência através da riqueza material, que elimina toda a necessidade económica de arranjos familiares tradicionais.


Em outras palavras, um cético diria que a decadência da família nuclear é realmente um sinal de uma sociedade muito mais rica e mais livre do que nunca. A isso, adicione as palavras do cardeal sobre uma instituição que - quase unicamente – se protege contra visões modernas para a sobrevivência da ortodoxia e recusa-se a abrir ao sacerdócio de mulheres. Essa descrição condenatória do Cardeal Burke ("Um doutrinário conservador famoso por usar roupas feitas de seda e rendas") implica que a igreja abriu-se ao ridículo aos olhos de muitos liberais.

A implicação do Cardeal Burke de que a incerteza sexual estava no centro do escândalo de pedofilia – em vez de simplesmente perversão, poder e proteção da autoridade secular - certamente parece ingênua. Mas a opinião liberal é prejudicada pelas consequências sociais óbvias na redução da autoridade masculina. Joanna Bogle trabalhou com os presos e determina uma alta incidência de homens criados exclusivamente pelas mães. "Homens jovens em nossas prisões carecem de fortes modelos masculinos", diz ela. "Eles não têm pai". E ela está certa. Estatísticas em Prisões dos Estados Unidos geralmente mostram que entre metade e dois terços dos presos vêm de lares monoparentais.

Como as causas das mudanças sociais na década de 1960 foram estabelecidas ainda é assunto a ser debatido, o que é indiscutível é que o Ocidente passou por uma poderosa revolução social que deixou um lugar muito diferente em que os papéis masculinos e femininos não são tão bem definidos como outrora. E enquanto haja adultos liberais, milhões de crianças pagam o preço de sua recém-descoberta[6] liberdade.

Cardeal Burke obviamente o vê como seu dever moral assinalar isto, e o público deve ser grato pela honestidade.

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Outra opinião: “O cardeal está errado sobre os homens e o feminismo radical”

- Por Madeleine Teahan

A Igreja tem um “problema masculino”? O cardeal Burke reconheceu corretamente que os homens católicos não estão imunes às forças sociais que erodiram a masculinidade no mundo secular. Além disso, a Igreja não pode continuar ignorando o típico camarada que se senta no último banco e se esconde atrás de seu livro de cantos toda semana e desaparece antes da bênção final. 

Mas se a Igreja afasta os homens porque eles pensam que ela é por demais feminina, isso se reflete pior nos homens do que na Igreja. No final das contas, uma liturgia sentimentalóide e uma má catequese afastam as mulheres também. Nós deveríamos ter as mesmas expectativas dos dois sexos: que eles tomarão a iniciativa de buscar uma catequese e recursos espirituais decentes até que a Igreja cuide desse problema. 

O cardeal Burke apresenta os homens como vítimas passivas do feminismo radical e da má liturgia. É como se eles fossem um sexo passivo - totalmente débeis e impotentes para ir ao contra-ataque. Essa visão não mina a capacidade tipicamente masculina para o cavalheirismo e fortaleza a qual o cardeal se refere? E quem são as principais vítimas do feminismo radical? As mulheres católicas acolhem nossa cultura contraceptiva e pornográfica também, em parte porque ela resulta num número decrescente de homens que estão realmente interessados em compromisso marital vitalício. Apesar do que o cardeal Burke disse ter acontecido nos anos 1970, eu não acho que seria cinismo dizer que os homens estão morrendo de medo[7] do casamento por estarem com medo das “atitudes auto-referenciais” das mulheres. Mais frequentemente do que o contrário, os homens estão com medo da monogamia, do comprometimento e de estarem “amarrados”.

Parece-me que a chamada “nova emangelização” demanda em primeiro lugar que elevemos as expectativas em relação aos homens pelo reconhecimento de que eles enfrentam as mesmas batalhas que as mulheres católicas e creditando-lhes a coragem de lutar ao lado delas.
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Notas
[1] New Emangelisation: um neologismo criado a partir da junção de Evangelization (evangelização) e man (homem)
[2] Acredito que seja algo relacionado a “ultrapassado” ou “antiquado”.
[3] Priest-centered
[4] In certain gendered ways 
[5] Self-focusing
[6] New found
[7] Quaking in their boots (há uma expressão coloquial para isso no Brasil: tremendo nas bases)

*Tim Stanley, autor do original, é um historiador e escritor do Daily Telegraph

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