Sobre o Natal - Sem mensagens motivacionais

Em época de Natal, o que mais vemos, ouvimos e lemos são mensagens bonitinhas sobre bons sentimentos, momentos em família e alguma doce reflexão sobre a humildade de Cristo ao nascer em uma manjedoura.

Não que mensagens deste teor não devam ser divulgadas - muito pelo contrário! - porém, muitas vezes, deixamos passar a reflexão que deveríamos fazer sobre o real significado desta data.


"O Verbo fez-Se carne, para nos tornar «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4): «Pois foi por essa razão que o Verbo Se fez homem, e o Filho de Deus Se fez Filho do Homem: foi para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a adopção divina, se tornasse filho de Deus». «Porque o Filho de Deus fez-Se homem, para nos fazer deuses». «Unigenitus [...] Dei Filias, suae divinitatis volens nos esse participes, naturam nostram assumpsit, ut homines deos faceret factos homo – O Filho Unigénito de Deus, querendo que fôssemos participantes da sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses»"
(Catecismo da Igreja Católica, §460)


Deus criou o homem para o céu, para desfrutar de Sua Criação e Seu amor, em plena comunhão com Ele.
Todavia, somos de natureza distinta de nosso Criador, o que cria um abismo que dificulta esta comunhão. Tal abismo se agrava com o pecado original, que nos distanciou da graça divina.

Quando Deus se encarna em Cristo, faz-se Homem e Deus ao mesmo tempo. As portas do Céu se abrem com Jesus, a união da natureza humana e divina.

Deus se fez Homem para que o homem se fizesse Deus

Não estamos a falar aqui da leitura de um Deus que castiga, e, por medo do castigo, por medo do inferno, decidimos não pecar. Não! 
Não estamos falando de um Deus que pune, mas um Deus que se oferece. 
Estamos falando de um Deus de amor e misericórdia, que por amor eleva um mero mortal ao patamar da divindade; que quer nos dar o Céu - e portanto fazer-nos partícipes de Sua graça - somente por amor!
E é por amor e gratidão que evitaremos o pecado, porque Ele nos amou primeiro.

O mistério da encarnação continua na Igreja: por meio do batismo somos inseridos no Corpo de Cristo e passamos a partilhar da natureza divina. Tal natureza nos é concedida por graça de Deus, que nos auxilia na conversão, isto é, neste caminho de divinização. Nisto consiste a santidade: tornar-se Deus, com Deus, pela Graça de Deus. Por isso dizemos "Por Cristo, Com Cristo, em Cristo". Por Cristo podemos ser divinizados, Com Cristo adorante a Deus plenamente, em Cristo porque seremos deuses por estarmos inseridos em Seu Corpo.

Portanto, ao meditar sobre o Natal, devemos nos recordar da Encarnação que abre as portas para o Céu. Antes de Cristo, os justos do Antigo Testamento iam para o Scheol. Não podiam entrar no céu porque sua natureza não o permitia. Na Encarnação, Deus adota a natureza humana, e permite que nós tenhamos espaço no céu. Se Jesus é Deus, e se fazemos após o Batismo parte de seu corpo, então Nele somos Um.

E Lúcifer? E Adão e Eva? Não queriam estes tornarem-se como Deus? Sim, mas eles queriam tornarem-se Deus sem Deus. E Deus, por amor, permitiu que fosse atendido o desejo de Adão e Eva. Deus, por amor, permitiu que fosse criado um lugar para os que não O escolhem - o inferno. 


"Assim, pois, assumindo um corpo semelhante ao nosso, e porque toda a humanidade estava sujeita à corrupção da morte, Ele, no seu imenso amor por nós, ofereceu-o ao Pai, aceitando morrer por todos os homens. Deste modo, a lei da morte, promulgada contra a humanidade inteira, ficou anulada para aqueles que morrem em comunhão com Ele [...] O Verbo de Deus, que é superior a todas as coisas, entregando e oferecendo em sacrifício o seu corpo, templo e instrumento da divindade, pagou com a Sua morte a dívida que todos tínhamos contraído. Deste modo, o Filho incorruptível de Deus, tornando-Se solidário com todos os homens por um corpo semelhante ao seu, tornou a todos participantes da Sua imortalidade, a título de justiça com a promessa da imortalidade. Consequentemente, a corrupção da morte já não tem poder algum sobre os homens, por causa do Verbo, que por meio do Seu corpo habita neles"
(Santo Atanásio de Alexandria, na reflexão "A encarnação do Verbo")



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