Resenha de filme: À Moda Antiga (2014)



[Aviso: Contem spoilers. A ideia é você ler e ter mais vontade de assistir o filme, apesar de apresentarmos algumas nuances da história ;) ]

Como anunciado por alguns veículos, no mesmo período de lançamento de "50 tons de cinza", foi lançado também uma produção alternativa chamada "Old Fashioned", cuja tradução para o português-brasileiro foi feita como "À moda antiga".

A história, em sí, é cliché.
Rik Swartzwelder (que também dirige, escreve e produz o filme) interpreta Clay, um adulto na casa dos 30 anos, solteiro, cujo passado na universidade lhe pesa a consciência. A sua vida muda - sim, o mesmo blablabla de sempre - quando Amber (Elizabeth Roberts) chega à cidade e aluga um studio (ou kitnet) de sua propriedade. 

É óbvio que o final do filme segue o que sucede sempre com um casal em um roteiro meio drama meio romance; o que torna a obra satisfatória não é uma parte do roteiro - a história de sempre - mas o roteiro como um todo, os diálogos que se sucedem e o tom indie do desenrolar dos fatos.

O perfil de Clay pode fazer todo mundo se identificar um pouco - ou muito: o pecador convertido que tem dificuldade de perdoar seu passado. Não, não é por este estereótipo que Clay me agrada: o que eu gosto é dos diálogos que ele participa e a atitude custosa de mudança  - como diria Maria Clara Machado, "aprendi que amadurecer dói, mas o fruto pode ser bom". O seu puritanismo encontra equilibrio em Amber e é a partir dos encontros do casal que Clay passa a ser um pouco mais aberto e menos extremista.



Amber representa a típica jovem sem religião que, por mais que queira aderir ao senso comum das ideologias dominantes, tem dentro de si a angústia de encontrar alguém que a ame integralmente. Ok, isso pode soar pedante. O que faz Amber me conquistar é seu posicionamento em relação a Clay. Ela aceita a cruz. Ela poderia fugir, como costuma fazer quando se depara com problemas, poderia não perdoar o passado de Clay, poderia não aceitar alguns comportamentos puritanos do moço, poderia simplesmente não se esforçar para uma aproximação. Apesar do pensamento inicial divergente e de certa repugnância que demonstra Clay por Amber, ela aceita-o como ele é, com suas marcas, com seu jeito, com suas manias e pensamentos. Mais: Amber tenta compreender Clay.



É claro que acontecem desencontros na trama - e o que deixa todo mundo apreensivo é saber se lá pelas tantas ambos se traíram reciprocamente - mas a ideia central do filme não é, exatamente, como parece, um namoro puro. Para isso eles poderiam usar outro tipo de roteiro e uma edição, filmagem, trilha sonora e afins mais atuais. A ideia central se concentra em como podemos mudar nossa história de vida após nos abrirmos a Deus pela conversão, e as dores e alegrias deste processo.

Dá para perceber que Clay poderia se perdoar muito antes se tivesse uma direção espiritual e usufruisse do sacramento da confissão. Mas como o filme é evangélico, isso não existe, logo há uma dificuldade do personagem enxergar os próprios erros e ser curado. Lembro de uma aula do Olavo, logo as primeiras, citando "Confissões" de Santo Agostinho e como este método de confessar-se é, antes de tudo, filosófico. Isto porque faz você se localizar na realidade, em como você é de verdade, e não deixar que a sua mente camufle ou apague pecados que você cometeu em um tipo de mecanismo de defesa. Curioso é notar que um dos livros na estante de Clay é Confissões! Uma alusão à mesma vida que levou Santo Agostinho?

Na mesma cena temos Clay tocando o livro "A Regra de São Bento" - que também foi utilizada pelos anglicanos e protestantes desde a Reforma. Não vamos entrar em detalhes teológicos, mas neste livro encontramos direcionamentos para uma vida ordenada, exatamente o que busca Clay após a conversão.



Sobre a parte técnica, digamos que para adquirir um estilo mais comercial e também evitar a monotonia, cenas de passado e presente se misturam com o figurino romântico-despojado de Amber e a trilha sonora meio-pop-meio-folk. Os diálogos seguem com cortes de cenas e uma mistura do que está se passando com o que se passou... Isto deixa o conjunto da obra dinâmico. O filme poderia ser mais abrangente em seu público se as menções biblicas não fossem tão evidentes (ou se ao menos fossem mais reservadas), se Clay fosse menos puritano (e demonstrasse que dá para ser puro e viver um namoro cristão sem puritanismos), e se houvesse mais sacadas de simbolismos sutis como a dos livros que mencionei acima [aliás, em um dos momentos, quando Amber inicia seu processo de conversão e quando diz que perdoa o passado de Clay, aparecem velas, o símbolo daquele que se consome, e também o símbolo de Cristo, a Luz do mundo]

De um modo geral, a parte forte, mesmo, para mim, são os diálogos e a trilha sonora.

Como não amar a tia-avó de Clay? :)





Ficha Técnica [Fonte]

Título: Old fashioned (Original)
Ano produção: 2014
Dirigido por Rik Swartzwelder
Estreia: 2014 ( Mundial )
Duração: 115 minutos
Gênero: Drama Romance
Países de Origem: Estados Unidos da América

Sinopse
De um passado imoral para uma vida de princípios e fé em Deus. Essa é a trajetória de Clay (Rik Swartzwelder). Agora um novo homem, ele abandona sua vida de farras para gerenciar um antiquário em uma pequena cidade. De outro lado, chega Amber (Elizabeth Roberts), uma mulher de mente aberta que se encanta com as ideias de Clay sobre o amor. Ambos aprenderão que superar o medo e as feridas do passado pode ser uma tarefa difícil, mas vital na construção de uma relação sólida que honre a Deus.



Veja também a resenha do mesmo filme pelo blog Projeções de Fé

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2 comentários

  1. “Toda natureza humana resiste vigoosamente a graça, porque a graça nos transforma e a mudança é dolorosa.” – Flannery O’Connor

    A cena da menina ninando um caminhãozinho mostra, que de certa forma, este é um filme consciente. Embora os clichês. Ótima resenha

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