Penitência: Corações Rasgados - Por Ana Paula Barros

Por Ana Paula Barros do Salus in Caritate

Foto: Lux Sit


Durante toda a história do povo de Deus vemos chamamentos, em determinados periodos da história, a conversão e a penitência. Esses momentos sempre estavam acompanhados de um maior conhecimento de si mesmo e uma maior aproximação de Deus. 

Na penitência podemos saborear o conhecimento da própria miséria, digo saborear, pois, reconhecer-se miserável é abrir uma porta para a Misericórdia, que é como um grande mar capaz de encobrir todos os nossos pecados.

Pai Elias, O ministro (Padre do Deserto), disse, "O que pode o pecado onde há penitência? E de que adianta o amor onde há orgulho?"

A penitência nos fortalece no combate contra os pecados, que muitas vezes encontram morada em nossas fraquezas e más tendências. No entanto, Elias já nos alerta sobre a necessidade da mudança interior, da necessidade de realizar a penitência por amor a Deus e se atentar a toda raíz ou faísca de orgulho que possa encontrar morada em nós.

Pai Theodore de Pherme, também Padre do Deserto, disse: "o homem que permanece de pé quando se arrepende, não guardou o mandamento."

Se precisamos combater o orgulho, temos que nos abrir a uma penitencia que nos leva a humildade prática. No fundo a penitência tem essa função, nos levar a humildade, pois, é o que esta no coração, o coração rasgado e o reconhecimento das próprias limitações e pequenez que faz da penitência uma atitude que nos une a Deus e domina o Eu.

Pai Theodore dizia, "a privação de alimento mortifica o corpo do monge." Pai Anotherold disse, "as vigílias mortificam ainda mais."


Existem várias formas de penitência, todas devem ter como objetivo mortificar o corpo. E devemos entender como “corpo”, as inclinações, desejos, vontades, pensamentos, comporamentos, ou seja, tudo que de alguma forma se tornou motivo de escravidão. Esta é a época em que nos preparamos para encontrar nossas algemas, clamar a Deus pela libertação e receber a Páscoa do pedido atendido. 

É tempo de ordenar a vida, olhar para si mesmo, exercitar o auto dominio e por fim entregar o dominio da vida a Deus. É o tempo favorável para entregar, novamente, o trono da nossa vida ao Senhor. Mas antes, é preciso abrir a porta para a ação de Deus pela oração e pela penitência. Ambas, juntas, abrem essa porta.


O quarto mandamento ("Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja") determina os tempos de ascese e penitência que nos preparam para as festas litúrgicas; contribuem para nos fazer adquirir o domínio sobre nossos instintos e a liberdade de coração.

CIC, 2043


"Com nossos instintos a luta é raramente de igual para igual: ou nossos instintos nos governam ou nós governamos nossos instintos. Como é triste se deixar levar pêlos instintos! Um cristão é um nobre; ele deve, como um grande senhor, mandar em seus vassalos."

São João Maria Vianney

A penitência se baseia em controlar-se, ser senhor de si verdadeiramente. No entanto, não somos tão fortes, logo nos lançamos a atacar (com a penitência) e a nos defender e fortificar na Providência (com a oração).

A penitência interior do cristão pode ter expressões bem variadas. A escritura e os padres insistem principalmente em três formas: o jejum, a oração e a esmola, que exprimem a conversão com relação a si mesmo, a Deus e aos outros. Ao lado da purificação radical operada pelo batismo ou pelo martírio, citam, como meio de obter o perdão dos pecados, os esforços empreendidos para reconciliar-se com o próximo, as lágrimas de penitência, a preocupação com a salvação do próximo, a intercessão dos santos e a prática da caridade, "que cobre uma multidão de pecados" (1Pd 4,8).
CIC 1434

Um irmão perguntou ao Pai Poemen desta maneira: "meus pensamentos me atormentam, fazendo com que eu deixe de lado meus pecados e me preocupe com as faltas de meus irmãos." O ancião contou-lhe a seguinte estória sobre Pai Dioscurus (o monge): "na sua cela ele chorava por si mesmo, enquanto seu discípulo se sentava eu outra cela. Quando este último veio ver o ancião perguntou-lhe, "pai, por que choras?" "Estou chorando pelos meus pecados, respondeu-lhe o velho homem. Ao que o discípulo disse, "você não tem nenhum pecado, Pai." O ancião replicou, "É verdade, meu filho, se eu pudesse ver meus pecados, três ou quatro homens não seriam suficientes para chorar por eles."


Temos a graça desse tempo, para chorar as faltas, alcançar um “coração contrito” que chora as quedas e se conscientiza das áreas onde Deus não vem sendo o Senhor, das áreas onde limitamos o senhorio de Jesus.

Agora como alcançar o “espirito penitente” necessário para essa Quaresma, sem medos e receios, de uma prática profunda?


A conversão se realiza na vida cotidiana por meio de gestos de reconciliação, do cuidado dos pobres, do exercício e da defesa da Justiça e do direito, pela confissão das faltas aos irmãos, pela correção fraterna, pela revisão de vida, pelo exame de consciência pela direção espiritual, pela aceitação dos sofrimentos, pela firmeza na perseguição por causa da justiça. Tomar sua cruz, cada dia, seguir a Jesus é o caminho mais seguro da penitencia. 
CIC, 1435

A leitura da Sagrada Escritura, a oração da Liturgia das Horas e do Pai-nosso, todo ato sincero de culto ou de piedade reaviva em nós o espírito de conversão e de penitência e contribui para o perdão dos pecados.
CIC, 1437

A penitência cotidiana, diz o Catecismo 1436, encontram sua fonte e seu alimento na Eucaristia . 

O próprio Jesus é a nossa força, nesse tempo, nos disponibilizamos, nos abrimos para nos esvaziarmos de nós mesmo e recebermos Jesus, próximo e aqui na Eucaristia, dando a Ele o trono da nossa vida. Que alcancemos a graça de mudar de vida, alcancemos "animi cruciatus (aflição do espírito)", "compunctio cordis (arrependimento do coração)", uma conversão de coração. Imagine todos purificados pelo Amor de Deus alcançados pela penitência humilde, como seria o mundo?


“Em tempos de tristeza e de inquietação, não abandones nem as boas obras de oração, nem a penitência a que estás habituada. Antes, intensifica-as. E verás com que prontidão o Senhor te sustentará” Santa Teresa de Jesus

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