Projeto: Como iniciar estudos em filosofia de maneira autodidata



Certa vez uma leitora querida perguntou como ela poderia estudar filosofia e alta cultura de modo autodidata, de preferência gastando o menor valor financeiro possível.

Em primeiro lugar, gostaria que os leitores entendessem minha limitação em escrever sobre o assunto. São apenas singelos comentários de alguém que tenta estudar muito, ainda tem muito por estudar, e pouco sabe sobre o que estuda.

Passada esta advertência, vêm algumas experiências que reuni com a colaboração de amigos.

Um bom começo para a vida intelectual é ler literatura clássica - livros que foram importantes ao longo dos séculos. Este é o inicio do conhecimento mais sadio de si mesmo e do ser humano, levando em consideração que encontramos neste tipo de arte a essência de nossa humanidade, com nossos erros e acertos. O ideal é buscar obras de bons tradutores para evitar confusões no entendimento do texto. Procure se ambientar sobre o autor e contexto histórico do período do livro. Isto ajuda a não ter uma interpretação relativista sobre a história. Outras boas dicas estão neste texto do blog "As Travessias". Inclusive o mesmo blog publicou um compilado de listas de livros clássicos da literatura. Você pode começar, também, tendo um panorama geral do que já foi produzido através da "História da Literatura Ocidental", de Otto Maria Carpeaux, ou do "ABC da Literatura", de Ezra Pound.

Conhecendo os tipos humanos presente nos clássicos, é mais fácil criar empatia, se colocar no lugar do outro, e estar preparado, em termos imaginativos, para adentrar na filosofia.

Ler o que nos indicam na universidade hoje - Foucault, Marx, Freud e afins - sem a base de Sócrates, Platão, Aristóteles, Patrísticos, Escolásticos - é absorver um conhecimento denso sem a devida base, o que pode nos fazer cristalizar este conhecimento de maneira errada. Sim, eu sei que os professores que nos ensinam estes autores modernos provavelmente não se apropriaram dos conhecimentos da filosofia grega ou medieval, e este é um dos motivos pelo qual tais nomes fazem tanto estrago no meio acadêmico. 

Há diversos livros, vídeos e textos que auxiliam no entendimento desta filosofia de base:

- O Curso de Filosofia de Sumaré tem ótimos professores com ótimas aulas. Respaldam a leitura de Platão e Aristóteles até os filósofos pós-modernos. Se você não teve na escola noção alguma de filosofia, talvez seja legal ver videos de cursinho (tipo esses rapidinhos do Poliedro) só para não ficar muito lost nas explicações.
- Canal de Gregory B. Sadler com aulas especialmente sobre os livros de Platão. Infelizmente é em inglês.
- Livros de Enrico Berti, Paul Friedlander e Giovanni Reale: ótimos comentadores de Platão e Aristóteles.
- História da Filosofia, de G. Reale e D. Antiseri
- História da Filosofia, de Will Durant
- Para os que já possuem uma base de filosofia grega e medieval, e se interessam em adentrar o tomismo e escolástica, há o grande Prof. Sidney Silveira e seu site Contra Impugnantes. Igualmente bom é o Cristianismo e os cursos no site do Pe Paulo Ricardo.
- Não nos esqueçamos dos diversos textos do Olavo disponíveis de forma gratuita no site.

Por fim, levando em consideração o contexto brasileiro, uma via de estudo que direciona muitas pessoas é o Curso Online de Filosofia (COF) do Olavo de Carvalho. Não porque sou aluna (rs), mas o Olavo lança as bases para quem está perdido, não sabe por onde começar, e ao mesmo tempo não consegue ser inteiramente autodidata. Eu diria que mesmo para os autodidatas é necessário ter um respaldo de alguém maior, uma orientação.

Há pelo país diversos grupos de estudo que apoiam e unem - tanto em termos intelectuais, quanto em termos de uma rede de amizades - as pessoas que se aventuram pelos caminhos da vocação intelectual.

O que eu participo é o Instituto Aristóteles de Filosofia (IAF), ligado ao IFE (Instituto de Formação e Educação). Começamos nos reunindo para assistir às aulas do COF e hoje nos reunimos para ler e estudar livros de filosofia grega. O IFE de Campinas, diferente do IAF em sua modelagem, oferece cursos pontuais e seminários sobre assuntos da atualidade. O IFE Rio Claro, com outro escopo de estudo, também conta com reuniões semanais. E, neste modelo de "grupo para estudos com pessoas realmente interessadas pela Verdade", há a Confraria de Artes Liberais, Schola Classica, o Instituto Hugo de São Vitor, CHE, entre tantos outros interessantes e muitas vezes desconhecidos.


Outras indicações:
- Gosto muito do blog As Travessias. Descobri-o há pouco, e me parece interessantíssimo tanto na proposta quanto nas relevantes indicações para os que se iniciam na via de estudos da alta cultura.
- O Estado da Arte: podcasts com temas pertinentes
- Bruna Luiza do Garotas Direitas iniciou uma série de postagens sobre "vida intelectual". Aqui.
- Temos um post sobre editoras com bons títulos. Vale conferir!
- Se você gosta muito de política, vários alunos do Olavo já se aventuraram a falar e escrever sobre o tema: Midia sem Máscara, Rádio Vox, Terça Livre, Círculo de Estudos Politicos.
- Tiago Amorim, em uma aula de um de seus cursos, nos ajuda a identificar a nossa vocação, que é a base para o caminho intelectual que iremos trilhar. Aqui
- É comum encontrar nos aventureiros da vida intelectual um interesse pelo tema da economia.  Se você resolve estudar com honestidade diversos nomes, tanto do lado liberal, quanto do lado socialista, tente incluir em sua lista Chesterton e Hilaire Belloc. Além de filósofos, escritores, poetas, apologetas, jornalistas e ensaístas, ambos lançaram as bases da filosofia econômica distributista. Infelizmente são pouco lembrados, inclusive entre conservadores, ao se estudar economia.
- Não se iluda com a vida intelectual... Boa entrevista entre F. Escorsim e Jota Borgonhoni para colocar nosso pé no chão.

Por fim, lembre-se sempre da lição de Hugo de São Vitor, grande teólogo medieval:

"A humildade
é o princípio do aprendizado,
e sobre ela, muita coisa tendo sido escrita,
as três seguintes, de modo especial,
dizem respeito ao estudante.
A primeira é que não tenha como vil
nenhuma ciência e nenhuma escritura.

A segunda é que não se envergonhe
de aprender de ninguém.

A terceira é que,
quando tiver alcançado a ciência,
não despreze aos demais.

Muitos se enganaram por quererem parecer
sábios antes do tempo,
pois com isto se envergonharam
de aprender dos demais o que ignoravam.


Tu, porém, meu filho,
aprende de todos de boa vontade
aquilo que desconheces.
Serás mais sábio do que todos,
se quiseres aprender de todos.

Nenhuma ciência, portanto, tenha como vil,
porque toda ciência é boa.
Nenhuma escritura, ou pelo menos,
nenhuma lei desprezes, se estiver à disposição.
Se nada lucrares, também nada terás perdido.


Diz, de fato, o Apóstolo:
"Omnia legentes,
quae bona sunt tenentes" .
I Tes 5

O bom estudante deve ser
humilde e manso,
inteiramente alheio aos cuidados do mundo
e às tentações dos prazeres,
e solícito em aprender de boa vontade de todos.

Nunca presuma de sua ciência;
não queira parecer douto, mas sê-lo;
busque os ditos dos sábios,
e procure ardentemente ter sempre
os seus vultos diante dos olhos da mente,
como um espelho".

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13 comentários

  1. Prezada Letícia, Olavo de Carvalho não é guia seguro para quem quer aprender filosofia de uma perspectiva católica. Olavo afirma-se um filósofo original, um gênio auto-ditada, com sua "unidade da consciência na unidade do conhecimento e vice-versa", uma definição de filosofia, aliás, nada católica. A filosofia que um católico deve estudar é a de Aristóteles e a de Santo Tomás, ponto final. A Igreja o diz. Além disso, estudar filosofia não leva ninguém para o céu. Conheço muitos alunos dele que colocaram essa intenção à frente de seus deveres de estado e acabaram muito mal. Mal conhecem o catecismo, a história da Igreja, e se metem a estudar Platão... Essa proposta de delegar aos alunos uma vaidosa missão intelectual -- os "restauradores da alta cultura" -- é iludir almas bem-intencionadas. Muitas vezes, deixa-se de cumprir o dever de estado, para cair-se no engano de desejar ser homem letrado. Acho que não deverias segui-lo e tampouco indicá-lo.

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    1. Olá, Godofredo.

      Em primeiro lugar, este post não é direcionado apenas para católicos, mas para qualquer pessoa que quer iniciar seus estudos em alta cultura.
      Em segundo lugar, a Igreja não diz nada sobre o que se deve ou não estudar.
      Realmente, estudar filosofia não leva ninguem ao céu. Casar não leva ninguem ao céu. Ser padre não leva ninguem ao céu. Todos estes são meios para irmos ao céu.
      A questão da alta cultura, que é muito mal interpretada por alunos do Olavo e por outras pessoas, é que há uma má compreensão do termo e de seu estudo. O que é alta cultura? O que foi produzido de melhor ao longo dos séculos. Por que ela é importante? Porque as pessoas que influenciam a sociedade precisam absorvê-la, entender o que já existiu no mundo em termos históricos, literários e filosóficos, para então entender o mundo hoje, em sua atualidade.
      Desprezar o que já existiu está bem longe do pensamento conservador, e mais perto do pensamento revolucionário.
      Aliás, este foi o erro dos iluministas. Eles conheciam alta cultura, mas deprezaram o legado até a era medieval para criar algo novo e rebelde.
      A conversão caminha JUNTO com a alta cultura, assim como caminha junto com qualquer coisa que façamos em nossa vida.
      O Olavo tem seus defeitos, é claro, mas como professor de filosofia ele é muito bom. A grande pena, na minha opinião, é que muitas pessoas que entram para o COF não tem a maturidade suficiente para acompanhar o curso, e acaba por se tornar um espantalho da Direiteen brasileira.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Oi, Letícia,
    Entendo. Mas você está enganada sobre a questão de a Igreja não dizer aos fiéis o que se deve estudar. O Index de livros proibidos existia justamente para isso, para alertar os católicos sobre as obras que não deveriam ser estudadas, a fim de não se contaminar com doutrinas perigosas ou poluir o imaginário com imagens inapropriadas. Várias encíclicas condenam filosofias, como a Pascendi em que São Pio X anatematiza a fenomenologia de Husserl, que aliás é muito apreciada por Olavo. Hoje em dia, infelizmente, com o triunfo do liberalismo, as pessoas se aventuram a ler de tudo. A meu ver o perigo é se adentrar no mundo da literatura e da filosofia sem ter uma boa formação moral, ou seja, uma base católica. Talvez para você que foi instruída nessas coisas cedo seja mais fácil distinguir os erros, mas um pagão terá dificuldades. Por isso acredito que mergulhar no mundo da literatura sem boa formação católica -- que é justamente o método do Olavo -- é algo temerário. Pense nisso!

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  3. Parabéns pelo texto Letícia. Gostei muito das dicas e anotei todas as referências - serão muito úteis nessa longa caminhada que é a vida intelectual.
    Parece que o Godofredo não leu o artigo até o fim, mas somente até a parte em que reconheceu o nome "Olavo de Carvalho".
    Se me permite gostaria de apontar algumas falhas no comentário da personagem (o verdadeiro Godofredo de Bulhão faleceu em 1100 d.C.).
    Em primeiro lugar, não é o Olavo quem se afirma um “gênio autodidata” ou mesmo um “filósofo original”, mas sim a sua obra e admiradores como Miguel Reale, Rodrigo Gurgel, Pe. Paulo Ricardo, Jeffrey Nyquist, Andrei Pleshu, Gabriel Liiceanu, entre tantos outros.
    A Igreja não determina o que os fiéis não devem estudar, se atém apenas a questões de caráter teológico. Veja –se, por exemplo, o Index, como coloca o próprio Olavo: “Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para verificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico, Kepler, Newton, Descartes, Galileu, Bacon, Harvey e tutti quanti. A Inquisição examinava apenas livros de interesse teológico direto, que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciência moderna. ”
    Parece, realmente, que não leu a postagem até o fim pois o trecho de Hugo de São Vitor, grande teólogo e filósofo da idade média, por si só já desmente o seu argumento:
    Quais são as três coisas sobre a humildade que dizem respeito especialmente ao estudante? “A primeira é que não tenha como vil nenhuma ciência e nenhuma escritura. A segunda é que não se envergonhe de aprender de ninguém. A terceira é que, quando tiver alcançado a ciência, não despreze aos demais. ” E ainda esta outra parte: “Nenhuma ciência, portanto, tenha como vil, porque toda ciência é boa. Nenhuma escritura, ou pelo menos, nenhuma lei desprezes, se estiver à disposição. Se nada lucrares, também nada terás perdido. ”
    Para mim isso vai de encontro ao que recomendou São Paulo Apóstolo: Experimentai de tudo e ficai com o que é bom.
    Há ainda muitos outros pontos, mas o comentário ficaria mais longo ainda.

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    1. Guilherme, o senhor cometeu muitos erros na sua resposta ao meu comentário, aliás erros básicos. René Descartes teve TODA a sua obra catalogada no Index, e muitos livros de literatura também foram proibidos, entre autores como Victor Hugo, Alexandre Dumas, Flaubert, só para citar alguns. Ou seja, não se trata apenas de obras de teologia, mas também obras de filosofia e literatura para as quais a Igreja pede cautela aos seus fiéis. Diga ao teu mestre que ele está enganado mais uma vez. Olavo erra muito, embora pareça sempre ter razão. Você criticou o fato de eu questionar a autora indicar o Olavo, mas a tua crítica se baseia apenas no impulso emocional de defendê-lo, pois não tratou sequer de verificar se Descartes entrou para o Index. Um filósofo age sempre colocando a razão à frente das paixões. Vê-se logo que não tens uma conduta filosófica. Procure ler mais Aristóteles e Sto Tomás antes de discorrer sobre o que não entende. Passar bem. Godofredo de Bulhão -- (e se este for realmente o meu nome de batismo, meu caro?)

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    2. Se é seu nome ou não, apenas sua mãe sabe, pois não há nenhuma referência a sua pessoa em seu perfil.

      Quanto ao Index, agradeço por chamar minha atenção; pois, sinceramente, não chequei as fontes primárias; como é assunto que me interessa irei fazê-lo.

      Entretanto, não sou mensageiro de ninguém, se tem algo a dizer ao Olavo, que o faça o sr.

      É impressionante; apesar de não conhecer nem minha história, nem minha personalidade, o sr. consegue traçar minha conduta através de poucas linhas, e ainda concluir que não posso ser algo que sequer cogitei.

      Reação emocional? Ora, não se pode defendê-lo, mas tão somente atacá-lo? Tem todo o direito de discordar dele, ou de simplesmente "não ir com a cara dele". Mas eu irei defender o professor Olavo sim, pois devo muito a ele.
      Este homem fez muito mais pela cultura do Brasil do que seus detratores.
      Com certeza não acerta em tudo, pois é ser humano; mas o número de acertos é muito maior que o de erros.

      Vale relembrar o trecho de Hugo de São Vitor sobre as três coisas sobre a humildade que dizem respeito especialmente ao estudante: “A primeira é que não tenha como vil nenhuma ciência e nenhuma escritura. A segunda é que não se envergonhe de aprender de ninguém. A terceira é que, quando tiver alcançado a ciência, não despreze aos demais. ” E ainda esta outra parte: “Nenhuma ciência, portanto, tenha como vil, porque toda ciência é boa. Nenhuma escritura, ou pelo menos, nenhuma lei desprezes, se estiver à disposição. Se nada lucrares, também nada terás perdido. ”

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Letícia, obrigada pelas dicas! São bem valiosas e práticas. Gostei do poema de Hugo de São Vitor no final. Embora faça faculdade, eu não estou tentando estudar de verdade, porque encontro dificuldades em conciliar a vida de oração e de estudos. Li recentemente a biografia da Cecy Cony e me chamou atenção o capítulo em que ela fala sobre os maus livros... Percebi que ainda tenho muito a aprender antes de começar a estudar!
    Você poderia escrever para a gente falando sobre vida de oração e vida de estudos... :)
    Abraço, Ana Claudia

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    1. Oi, Ana!!
      Muito obrigada pela visita!
      Ótima ideia!! Vou fazer isso assim que possível :)
      Abraços!

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    2. http://www.modestiaepudor.com/2016/06/estudos-oracao-e-tal-da-vida-intelectual.html

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  6. https://soundcloud.com/partituras-cat-licas/direita-catolica-olavo-tem-razao?in=partituras-cat-licas/sets/palestras

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  7. Obrigado pela orientação pertinente e própria para minha iniciação tardia neste maravilhoso conhecimento. Abraços

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