Sobre o pudor

"O respeito à intimidade


O que vem a ser, afinal, o pudor? Antes de mais nada, deve-se frisar que não se pode ser relacionado exclusivamente com a sexualidade. Tomado em sentido amplo, entende-se por pudor a tendência inata de zelar por tudo o que pertence à intimidade da pessoa, defendendo-a de qualquer intromissão inoportuna. Onde há intimidade - encarada no seu sentido mais amplo -, o pudor desabrocha necessariamente. Nada mais natural, já que a intimidade, de per si, vela-se, protege-se e esconde-se no mistério.
A rigor, o que é 'intimo' identifica-se com o que é 'pessoal'. É por isso que as pessoas se encontram à vontade e se manifestam com liberdade justamente nos ambientes íntimos. Nessas situações, não têm receio de vir a perder a imagem ou de ser mal interpretadas.
Há coisas que só se podem manifestar na intimidade, por estarem estreitamente vinculadas ao que há de mais profundo, de mais 'íntimo' na pessoa, individualizando-a e mostrando quem realmente ela é. Ao tornar-se público, aquilo que é íntimo esvai-se, perde valor, e a pessoa sente-se de certo modo violentada. É como se algo de grande preço lhe tivesse sido roubado, como se uma parte de si mesma se despedaçasse e se perdesse no exato instante em que caiu no domínio público. Neste sentido, perder a intimidade equivale a perder o domínio próprio, a perder-se como ser humano.
O pudor é a tendência natural de defender o domínio sobre 'aquilo que é mais meu'; não as 'minhas' coisas, o que possuo, mas a mim mesmo - o eu, entendido aqui como o que possuo de mais vitalmente íntimo, algo que tem valor somente para mim e para aqueles que me são chegados e que podem ser considerados quase um prolongamento do meu ser. Descobrir a intimidade aos que se situam fora de um âmbito verdadeiramente 'íntimo' equivale a perder-se, a cessar de ser dono daquilo que tem maior valor na vida da pessoa.
Compreende-se assim que, quanto mais rica é uma personalidade, tanto mais precisará de privacidade, tanto maior amplidão e valor terá a sua intimidade. São estes os casos em que o senso de pudor é mais forte. As pessoas frívolas, pelo contrário, aquelas que se revelam carentes de uma autêntica vida interior, estão mais inclinadas a tornar pública a sua intimidade. Na sua pobreza moral, consideram-na coisa de pouco valor. Embora sejam egoístas, não se apreciam pelo que valem; não têm escrúpulos em expor-se à curiosidade igualmente frívola daqueles que somente se interessam por assuntos vazios e inconsistentes.
'Certamente - observa Gabriel Marcel - poderá ocorrer o caso de uma intimidade patológica, quando esta se encerra em si mesma e se transforma assim em exclusão e cegueira. A verdadeira intimidade é algo bem diferente'. O pudor - em parte inato, em parte fruto de uma boa educação - ensina a discernir aquilo que verdadeiramente deve ser resguardado, indicando também de que modo e em que circunstâncias se podem manifestar certas realidades sem que a pessoa se prejudique.
Ainda que seja uma defesa natural contra qualquer violação da intimidade, o pudor reveste-se de uma especial importância perante as agressões no campo da sexualidade, às quais se poderia sucumbir facilmente se não se recorresse a algumas normas de prudência indispensáveis à própria natureza humana. Nesta ordem de coisas, o pudor revela-se como uma virtude moral. É um hábito que facilita a vigilância em face dos perigos a que a pureza está sujeita, das influências do ambiente que podem ocasionar afetos ou comoções sexuais inoportunas, e das ameaças contra a reta ordenação dos instintos. Assume a função de moderador do apetite sexual, ajudando a pessoa a desenvolver-se num clima humano em que está assegurada a supremacia do espírito.
Com as palavras de Pio XII, o pudor 'bem pode chamar-se a prudência da castidade. Pressente o perigo iminente, impede que a pessoa se exponha ao risco e impõe a fuga das ocasiões a que se expõem os menos prudentes. Não lhe agradam as palavras torpes ou menos honestas, e detesta a mais leve imodéstia. Evita a familiaridade suspeita com pessoas do outro sexo, porque enche a alma de profundo respeito pelo corpo, que é membro de Cristo (cfr. 1 Cor 6, 15) e templo do Espírito Santo (cfr. 1 Cor 6, 19). A alma cristãmente pudica tem horror a qualquer pecado de impureza e retira-se ao primeiro assomo de sedução' (Encíclica Sacra virginitas, n.56). O pudor não constitui, portanto, uma força repressiva, exceto para aqueles que procuram mascarar a luxúria sob a aparência de virtude.
Os que conhecem a dignidade do ser humano - do homem inteiro, corpo e alma -, criado à imagem e semelhança de Deus e chamado a ser templo do Espírito Santo, reconhecem o pudor como aquilo que realmente é: um poderoso aliado na defesa do corpo - parte integrante do nosso ser - perante a agressividade dos impulsos sexuais descontrolados que quereriam transformá-lo em objeto de prazer, traindo a finalidade querida pelo Criador. Sabemos bem que existe uma lei de Deus, objetiva e de validade universal, que obriga a evitar (para nós e também para os outros) toda a excitação dos apetites sexuais fora do âmbito da intimidade conjugal, que tem por fim a procriação como ato próprio e inequívoco. Não há dúvida nenhuma de que desnudar determinadas partes do corpo humano em outras circunstâncias constitui um estímulo fortemente contrário às exigências da castidade.

Para além das modas


Não se pode negar que, dentro de certos limites, os usos e costumes sociais mudam com o tempo. Contudo, deve-se também dizer que o campo do relativo e do convencional é muito mais restrito do que poderia parecer. Existe um limite real entre o decente e o indecente, quer o reconheçamos, quer não. Uma pessoa que se esforce por viver cristãmente consegue distinguir sem maiores dificuldades a modéstia da imodéstia e o pudor da falta de vergonha.
Há, porém, o caso das pessoas que carecem de discernimento, e que procuram avaliar a honestidade ou a malícia de uma determinada situação pelas reações que provoca. Assim, por exemplo, já que parece não se verificarem reações propriamente eróticas diante do espetáculo oferecido numa praia ou numa piscina, é comum ouvir dizer que ali 'não há nada mau'.
Não faltam também os que sustentam que se cometem menos pecados de luxúria nas nossas praias do que se cometiam nos balneários da belle époque. Hipótese tão verossímil quanto dúbia, que alimenta a tese do relativismo nas normas morais, bem como a do 'acostumar-se'. Segundo essa tese, o hábito de contemplar o nu mais ou menos total levaria a superar a possibilidade de ter reações eróticas, a menos que interviesse uma intenção pervertida.
[...]
Certamente, o próprio nu, considerado materialmente, pode ser honesto ou impudico: isso depende de que seja exigido, por exemplo, por motivos de saúde ou ditado por desejos exibicionistas. Há, neste sentido, uma certa elasticidade, ainda que o pudor permaneça em boa parte inato no homem. Efetivamente, circunstâncias diferentes de idade, temperamento, propensões, indiferenças ou repulsas influem coletiva ou individualmente numa certa relativização do que é impudico. Contudo, certas ações, representações ou modos de vestir serão sempre proibidos de modo geral, pois são motivo de escândalo para outros, ainda que possam ser pessoalmente indiferentes num caso ou noutro.
Podemos, portanto, afirmar que, se bem existam manifestações 'relativas' do pudor, mutáveis conforme as circunstâncias, nem tudo é relativo no pudor. Sobretudo, é preciso enfatizar que o pudor deve estar presente em toda a situação humana e manifestar-se de forma adequada."

Do livro "O Pudor", de Ada Simoncini. São Paulo: Editora Quadrante, 1991. Grifos nossos.

You Might Also Like

0 comentários