Três falácias no debate sobre códigos de vestuário




Por Trent Horn. Traduzido do original por Rogério Schmitt. 


Atualmente é muito comum a publicação de notícias sobre estudantes do ensino fundamental, médio ou até superior que contestam dresscodes considerados machistas e discriminatórios contra as mulheres. A leitura dessas reportagens mostra a presença constante de três falácias (ou erros de lógica) sobre a modéstia e a necessidade dos códigos de vestuário. 


A falácia do ou/ou


Também conhecida como a “falácia do falso dilema”, ela aparece quando são apresentadas somente duas soluções para um problema – com as soluções restantes sendo negligenciadas ou excluídas. 

No caso da distração provocada pelas roupas imodestas, essa falácia acontece quando um dos lados defende a aparente solução do senso comum: dizer às estudantes para não mais se vestirem imodestamente, a fim de que ninguém seja distraído. 

O outro lado então reage com a sua única solução , a qual, devo admitir, é um slogan grudento: “Não diga às meninas o que vestir, ensine os meninos a não ficarem olhando”!

Tais críticos dizem que as escolas deveriam ensinar os homens jovens a não ver as suas colegas de classe como objetos, não importando o que elas estiverem vestindo. Eles dizem que é machismo colocar somente sobre os ombros desnudos das mulheres o peso de evitar as distrações masculinas. 

E eles têm razão.



As escolas deveriam ensinar todos os seus estudantes a não transformarem os seus colegas em objetos. O “vigiar o olhar” é tão importante quanto o vestir-se modestamente. Mas só porque as escolas deveriam ensinar o “vigiar o olhar” não quer dizer que elas também não deveriam ensinar a virtude da modéstia. 

Assim como é possível tornar uma pessoa um objeto quando se olha para ela, também é possível nós mesmos nos tornarmos objetos quando destacamos as características sexuais de nossos corpos através de trajes imodestos. Não há motivo que impeça as escolas de ensinar tanto o respeito de si próprio, pelo uso de roupas adequadas, como o respeito para com os outros, evitando-se os olhares maliciosos. [1]

A falácia do contínuo


A falácia do contínuo aparece quando uma pessoa alega que, como é difícil localizar com exatidão um ponto divisor em um contínuo, então não existe ponto divisor algum. Ela também é conhecida como a falácia da barba, ou a ideia errônea de que, como não há um ponto divisor objetivo entre a barba por fazer e a barba, segue-se então que não há como dizer se alguém usa barba.

Mas como essa falácia aparece no debate sobre os dresscodes? Ela surge sempre que os críticos citam os casos dos códigos mais conservadores para fazer com que todos os códigos de vestuário pareçam ridículos. Um exemplo favorito recente é o de uma escola no estado de Utah que usou o Photoshop para cobrir os ombros de estudantes que posaram para o álbum de fotos da escola. Pelos padrões da nossa cultura, aquelas fotos eram até razoavelmente decentes. 

Os críticos então dizem: “Como definir o que é um ‘traje apropriado’? As saias devem ficar um, dois ou três dedos acima dos joelhos? E qual deveria ser a largura desse ‘dedo’ arquetípico? Seria imodesto exibir um centímetro de pele abaixo da clavícula? Como não podemos traçar uma linha, então não devemos julgar o que as pessoas escolhem vestir”.

É verdade que não há uma linha divisória precisa entre roupas imodestas e roupas modestas. Mas, assim como a ausência de uma diferença precisa entre a barba por fazer e a barba não afeta a minha capacidade de afirmar que alguém usa barba, a ausência de uma diferença precisa entre roupas modestas e imodestas não afeta a minha capacidade de identificar trajes imodestos. Parafraseando Potter Stewart, o falecido juiz da Suprema Corte, “posso não conseguir definir, mas eu reconheço quando vejo”.

Em todas as críticas que li sobre os códigos de vestuário, ainda não consegui encontrar uma solução alternativa aceitável para os críticos que, ao mesmo tempo, regulasse o uso de trajes visivelmente inapropriados dentro do ambiente acadêmico (ou de qualquer lugar público).

Será que uma escola que adverte um rapaz por usar uma sunga ou uma garota por usar o top de um biquíni os estaria “sexualizando de uma forma inapropriada” ou “envergonhando os seus corpos”? Ou seria somente puro bom senso reconhecer que algumas formas de exibir publicamente o corpo não são apropriadas, pois o corpo possui elementos sexuais? 

Só porque existem casos em que discordamos sobre o que é ou não é um traje apropriado, não quer dizer que não existam casos claramente inapropriados, os quais justificam a existência dos códigos de vestuário. Aqui vão alguns exemplos fáceis:

- Se as suas calças ou saias são tão curtas que as suas nádegas estejam aparecendo, então você está se vestindo imodestamente.

- Se as suas roupas são tão apertadas a ponto de poderem ser confundidas com pintura corporal, então você está se vestindo imodestamente.

- Se a sua blusa é cortada de tal modo que, em seu movimento normal, parece que você nem a esteja mais vestindo, então você está se vestindo imodestamente.

A falácia da consequência


Essa falácia aparece quando alguém diz que como uma lei afeta apenas um certo grupo de pessoas, então a lei deve ser injusta. De fato, uma lei pode ser injusta quando ela afeta somente um certo grupo de pessoas (como leis que excluam uma certa raça do direito de voto), mas isso não é uma prova automática de que a lei seja injusta.

Por exemplo, muitos críticos dizem que como a vasta maioria das violações dos códigos de vestuário acontecem entre as mulheres, então as mulheres seriam, injustamente, o seu alvo. Por isso, os códigos seriam machistas e deveriam ser abolidos.

Mas essa conclusão simplesmente não procede.

Os homens são a vasta maioria das pessoas que cometem agressões sexuais, mas isso por si só não prova que as leis que proíbem a agressão sexual sejam dirigidas, injustamente, contra os homens. O fato só comprova que os homens são mais predispostos a cometer esse tipo de crime.

Do mesmo modo, só porque em algumas escolas as mulheres são mais predispostas a violar os aspectos dos códigos de vestuário que lidam com a cobertura de partes do corpo (ao passo que os homens são mais inclinados a violar as partes que lidam com roupas agressivas), isso não prova que esses aspectos do código de vestuário sejam machistas. 

O machismo existiria se o código de vestuário dissesse que os garotos podem vestir calções curtos e exibir as suas barrigas tanquinho, mas as garotas não.

Lembram da escola em Utah que eu mencionei anteriormente, que editou as fotos das estudantes no álbum do colégio? Ela foi criticada por ter permitido que os garotos aparecessem no álbum fotográfico vestindo camisas desabotoadas e com o peito aparecendo

Conclusões


A responsabilidade por ensinar o valor e a dignidade de todas as pessoas pertence a todos os homens e mulheres. Homens e mulheres não devem se ver uns aos outros como objetos, ou usar os outros como meios para realizar seus prazeres sexuais (mesmo que tal prazer seja puramente mental). Os homens e as mulheres também devem se vestir modestamente, para que não despertem, sem necessidade, sentimentos sexuais em outras pessoas.

Não estamos condenando o corpo (seja o feminino ou o masculino), mas reconhecendo que a forma humana é bela, e que desperta sentimentos poderosos nas outras pessoas. E os estudantes não precisam, sem necessidade, enfrentar tais sentimentos enquanto tentam solucionar equações de segundo grau.



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[1] Nesse ponto, alguns críticos dos dresscodes  reagem com uma visão pós-moderna extremamente distorcida da pessoa humana. Em essência, eles dizem que uma pessoa só pode ser sexualizada aos olhos da outra, e que o modo de se vestir nada tem a ver com a nossa sexualidade. Mas o corpo humano não é um objeto vago e “neutro”. Ele é uma expressão maravilhosa da pessoa humana. E uma das coisas que ele expressa é a sexualidade, a qual não é somente uma atitude que “anexamos” às nossas escolhas diárias, mas sim uma parte do nosso próprio ser. O corpo humano não é “neutro”, mas possui elementos sexuais que podem ser aceitavelmente mostrados em alguns contextos (como o quarto), mas não em outros (como o escritório ou a sala de aula). É verdade que parte do que é ou não é sexual pode variar em função da cultura (em algumas tribos africanas, por exemplo, exibir abertamente os seios não é considerado imodesto). Mas o fato de a etiqueta variar em culturas diferentes não justifica que sejamos rudes na nossa cultura. E o fato de os padrões de modéstia variarem em culturas diferentes também não é justificativa para nos vestirmos imodestamente na nossa cultura.

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