O Distributismo é católico?




Por David W. Cooney para o The Distributist Review. Traduzido por Rogério Schmitt. Grifos nossos.


Os leitores do “The Distributist Review” costumam comentar o grande número de artigos que publicamos sobre a doutrina católica. Parece haver a impressão de que a defesa do Distributismo deveria ser feita somente com base no argumento econômico, sem fazer referência a qualquer fé religiosa, a fim de não afastar os não católicos. Surge assim uma pergunta legítima para quem se interessa pelo Distributismo. O Distributismo é católico?

A resposta a essa questão é um sim e também um não. Em nome da transparência, digo que sou católico, assim como a maioria dos autores em “The Distributist Review”. Isso não é surpresa para os que têm o hábito de ler os nossos artigos. Porém, vários desses artigos foram escritos por não católicos. Mas, voltando ao ponto principal, a resposta à pergunta “O Distributismo é católico?” é sim e não ao mesmo tempo.


Porque o Distributismo não é especificamente católico


O Distributismo se baseia em ideias filosóficas. Ao contrário do que muitos supõem, a filosofia é distinta da teologia e da religião. São campos separados, mesmo quando há superposição de tópicos. Vários princípios caros ao Distributismo também são encontrados nos ensinamentos de outras religiões e culturas mundo afora. Muitos das doutrinas filosóficas em que se baseia o Distributismo são anteriores ao cristianismo. Aristóteles, por exemplo, defendia muitas posições distributistas. Desse modo, essas visões filosóficas não podem ser consideradas especificamente católicas. 


Além disso, assim como não existe apenas uma forma de governo que seja compatível com o catolicismo, não existe também um único sistema econômico compatível com o catolicismo. É possível, por exemplo, haver um sistema capitalista que seja compatível com o catolicismo. Mas muitos elementos atualmente aceitos como parte do capitalismo em todo o mundo – como a usura – teriam que ser dele eliminados para que isso acontecesse.

Porque o Distributismo é católico


O Distributismo, como uma visão econômica distinta, surgiu a partir dos ensinamentos pontifícios. Vários papas escreveram encíclicas sobre temas de justiça econômica e social que, por sua vez, inspiraram diferentes grupos católicos a formar um movimento com o objetivo de apresentar essas questões, e suas respectivas soluções, para o público mais amplo. Esse movimento veio a ser conhecido como Distributismo ou Distributivismo (ainda que os seus fundadores tenham expressado o desejo de encontrar um nome melhor). 

O movimento incluiu, desde o início, pessoas que não eram católicas. Mas as posições defendidas pelos distributistas são consistentes com a doutrina católica sobre a justiça econômica e social. Em outras palavras, o Distributismo é um programa filosófico a respeito de estruturas econômicas e sociais que é, por sua vez, compatível com a fé católica. Não se pode separar o Distributismo da doutrina católica, assim como não se pode separar a Constituição dos Estados Unidos dos escritos de John Locke.


E como ficam os não católicos que simpatizam com o Distributismo?


A questão real para os não católicos que simpatizam com o Distributismo é se eles podem ou não aceitar as posições filosóficas em que se baseia o Distributismo. Não é necessário ser católico para ser um distributista, assim como não é necessário ser católico para acreditar que os mais ricos devem ajudar os mais pobres. O ponto é que a aceitação do Distributismo pelos que não são católicos não se baseia no fato de que ele é consistente com o catolicismo. Mas sim no fato de que o Distributismo é uma visão econômica e social com bases filosóficas sólidas e práticas. Já os católicos que aceitam o Distributismo, podem fazê-lo por ambos os motivos. 


Mas, se é assim, ainda é possível perguntar por que há tantos artigos especificamente católicos em “The Distributist Review”. A nossa sociedade promove o erro de que a fé deve ser confinada aos muros das casas e das igrejas, de que ela nada tem a ver com a economia ou com a política, e de que ela deveria ser simplesmente oculta da vida pública. Mas o catolicismo, assim como outras religiões, ensina que a fé se aplica a todos os aspectos da vida. E o capitalismo, do modo que é praticado hoje no mundo, aceita de bom grado muitas práticas que não são compatíveis com a fé católica. 


Por isso, nos cabe permitir que os católicos não se esqueçam desse ponto. Nós apresentamos os ensinamentos claros e consistentes da Igreja, e incentivamos os católicos a conciliarem as suas próprias visões com esses ensinamentos. Eles podem até continuar rejeitando certos aspectos do Distributismo como sistema econômico, mas não podem continuar aceitando ou ignorando os aspectos do capitalismo que são incompatíveis com a fé. Nós também incentivamos os não católicos a fazerem o mesmo no que diz respeito às suas crenças, e publicamos com satisfação os comentários de nossos leitores sobre essas questões. 

Nós acreditamos que seria errado e desonesto omitir o fato de que o Distributismo possui laços com a doutrina católica. Que sentido haveria em esconder isso dos que não são católicos? Não. Seremos transparentes sobre esses laços, e esperamos o mesmo dos não católicos que vierem a aceitar que as ideias distributistas também são compatíveis com a sua fé. Não é algo que precise ficar escondido. 


Considere as seguintes questões.


Você concorda que é totalmente injusto que os governos tomem empréstimos para socorrer bancos e corporações considerados “grandes demais para falir”, mas que não façam quase nada para ajudar os pequenos empresários e os trabalhadores, que são atingidos muito mais duramente pelas crises econômicas?

Você concorda que o modo pelo qual os governos, independentemente dos partidos políticos, lidam com as crises econômicas, demonstra que eles dão mais importância para as grandes corporações do que para a população em geral? E que isso acontece por causa do controle desproporcional que essas poucas empresas exercem sobre a economia? 

Você acredita que uma sociedade na qual a maioria do capital (os meios de produção) seja propriedade de um grande segmento da população é preferível àquela em que essa propriedade caiba a um pequeno segmento da população (os donos de empresas “grandes demais para falir”)?

Você acredita que as famílias são mais livres e independentes economicamente caso elas sejam donas (sozinhas ou associadas) do capital utilizado para prover as suas necessidades?

Você concorda que os governos devem ser severamente limitados em sua capacidade de interferir na vida familiar como, por exemplo, na criação e educação das crianças?

Você concorda que, ainda que os monopólios possam reduzir bastante os custos de produção, os métodos utilizados frequentemente prejudicam a sociedade (salários menores, produção terceirizada, menos empregos locais, etc.), em favor da manutenção de lucros elevados?

Em sua opinião, você acredita ser errado que as empresas demitam funcionários dedicados, a fim de contratar mão de obra barata em países que se utilizam do trabalho forçado ou infantil, em condições intoleráveis?

Você concorda que um grande número de pequenos produtores produz uma economia mais estável; que é melhor que setores inteiros não tenham que se vergar à má gestão de algumas grandes corporações; e que não deveríamos depender, para necessidades básicas como comida, de grandes e distantes fornecedores? 

Você diria que, sempre que as grandes empresas criam oligopólios, diminui a chance de que elas sintam o poder da competição, a qual poderia tornar os salários e preços mais justos?

Você acha irônico que os defensores do capitalismo monopolista do “livre mercado” estejam sempre falando dos benefícios da competição, quando a meta das grandes empresas é eliminar a competição?

Você concorda que é totalmente errado que os bancos prejudiquem as pequenas empresas com empréstimos a taxas altíssimas de juros, enquanto os juros para as grandes empresas são muito baixos (mesmo quando o risco é praticamente idêntico)?

Não é preciso ser católico para concordar com nada disso, ou com muitas outras questões levantadas pelo movimento distributista.

Sejam bem vindos!

You Might Also Like

0 comentários