A Crise da Masculinidade



Por Maggie Gallagher. Traduzido do original por Rogério Schmitt. Grifos nossos. Originalmente publicado no Sempre Família.


O jornalista George Will, numa coluna recente, escreveu sobre o extraordinário livro novo do economista Nicholas Eberstadt, intitulado “Men without Work”.

Algumas de suas perguntas são: “Por que o atual ciclo de recuperação é mais irregular que os outros ciclos de recuperação no pós-guerra?”; “Por que sólidas maiorias continuam, ano após ano, a declarar nas pesquisas que a América ainda se encontra em recessão?”; “Por que Trump?”; “Por que Bernie Sanders?”.

Todas as boas notícias sobre a queda do desemprego não levam em conta, diz Eberstadt, algo fundamental: “a deterioração das taxas de trabalho dos americanos do sexo masculino”.


De cada quatro homens na idade mais produtiva para o trabalho (25-54 anos), um não está trabalhando hoje. Desde 1948, dobrou a porcentagem de homens entre 20 e 64 anos que não trabalham. Atualmente, há menos homens em idade ativa trabalhando do que em 1930, no auge da Grande Depressão. 


No entanto, a maior parte desse declínio se deu a partir de 1965. Nos últimos cinquenta anos, a parcela de homens em idade ativa e desempregados mais que dobrou: de 10% para 22%. Entre os homens na idade mais produtiva para o trabalho, essa porcentagem subiu de 6% para quase 16%. Alguns desses homens estão em programas educativos ou de treinamento. Mas, nessa faixa etária, a vasta maioria desses homens ou trabalha em meio período ou trabalha em período integral e estuda em meio período. (Essa categoria inclui os meus dois filhos, e talvez o seu também. O meu caçula faz faculdade e trabalha numa loja 7-Eleven, e o meu primogênito trabalha como executivo e faz um MBA). 

A estimativa de Eberstadt é que, se descontados os homens que estudam em vez de trabalhar, os homens em idade ativa que não trabalham ainda são quase 10 milhões, ou cerca de 10% da população masculina em idade ativa. Isso é o que os romanos chamavam de “dizimação”. 


Seria essa a razão pela qual a economia não está crescendo tão depressa quanto deveria?


Como será que o sumiço dos homens no ambiente de trabalho passou despercebido por tanto tempo? Eberstadt aponta para “a transformação histórica, no pós-guerra, da natureza do trabalho feminino”. Entre 1948 e 2015, dobrou a proporção de mulheres entre 25 e 64 anos na força de trabalho: de 34% para 70%. Isso mascarou o contínuo declínio masculino. Ao final dos anos noventa, a participação das mulheres na força de trabalho parou de crescer. Ele nota que “somente então a taxa geral de trabalho entre os adultos começou a registrar declínio”. “Por duas gerações inteiras, o crescimento do emprego feminino mascarou a constante queda do emprego masculino”. Hoje em dia, são homens quase 40% dos americanos desempregados.


No entanto, a segunda mudança estrutural é: “Números crescentes de homens em idade ativa simplesmente abandonaram – por algum tempo ou para sempre – a competição por postos de trabalho. Esses homens criaram um novo estilo de vida, uma alternativa para a antiga busca de trabalho remunerado”. E Eberstadt comenta que essa situação é quase sempre voluntária. Esses homens não só não estão procurando trabalho, como também “só uma minoria relata ter abandonado a força de trabalho por não conseguir achar emprego”. 

Talvez nesse ponto Eberstadt subestime a relutância, nas pesquisas, dos homens admitirem uma falha ou fraqueza. Mas, seja como for, isso reflete uma mudança enorme nas normas masculinas. No passado, os homens preferiam ser conhecidos por não trabalharem devido a não conseguirem emprego do que por serem dependentes financeiramente de alguém.

Como escreve Eberstadt, “foi possível ignorar esse afastamento em massa da força de trabalho porque esses homens são, quase sempre, socialmente invisíveis ou inertes”. Ninguém organiza manifestações em seu favor, e eles nem sequer contam com organizações sindicais ou políticas. As queixas masculinas são invisíveis ao discurso público, em parte porque definimos como meta social ter mais mulheres trabalhando.

Há alguns meses, o colunista Derek Thompson publicou um artigo chamado “What Are Young Non-Working Men Doing?”. Ele observa que, desde 2000, “caiu 10 pontos, para cerca de 70%, a taxa de participação de jovens entre 16 e 24 anos que não passaram do ensino médio”. Onde eles estão? Morando no porão da casa da mamãe, como na expressão utilizada por Hillary Clinton para zombar dos eleitores de Bernie Sanders. O número de jovens entre 18 e 34 anos que mora com os seus pais é de 35%, superior aos 28% que se casaram. Isso é parte dos frutos da “revolução” trazida pelo divórcio e pelos filhos fora do casamento. Muitos desses pais provavelmente são mães solteiras, já que alguns pais estão sustentando indefinidamente filhos que não trabalham. 


O que será que fazem esses rapazes? Pesquisa preliminar do economista Erik Hurst, da Universidade de Chicago, citada por Thompson, sugere que “as horas em que eles não estão trabalhando foram quase inteiramente substituídas por diversão. 75% desse tempo recreativo adicional pertence a uma única categoria: videogames”. E, até agora, parece que eles gostam que seja assim. Numa entrevista publicada no site da universidade, Hurst afirmou que “pesquisas sobre felicidade indicam que eles se sentem mais satisfeitos que os seus pares”.


Em outro artigo de 2014, sobre o mistério do declínio do trabalho masculino, Thompson descreveu a dinâmica que desconecta os homens do mercado de trabalho: a perda estrutural de empregos e o aumento da rede social de proteção. Mas então ele aponta para o que penso ser a peça mais importante do quebra-cabeça: a identidade masculina. 

Olhando para o futuro, a identidade é o aspecto do declínio do trabalho que talvez não receba atenção suficiente. Se o futuro do trabalho não tem um viés contrário aos homens, ele certamente parece ter um viés contrário à ideia tradicional de masculinidade. Na construção civil e na indústria, dois setores onde os homens predominam, houve uma perda de 3 milhões de postos de trabalho desde 2008. A maioria dessas vagas desapareceu para sempre. Enquanto isso, as únicas atividades em que se espera, na próxima década, a geração de mais de 100 mil postos de trabalho são na assistência à saúde relacionada ao cuidado pessoal e doméstico e nos especialistas em marketing . Todas essas áreas são atualmente dominadas por mulheres.
Pode parecer sentimentalismo falar de orgulho e identidade diante de tendências tão disseminadas empiricamente, tais como a redução salarial para homens sem o ensino médio completo, ou o lento crescimento da automação nas atividades pior remuneradas. Mas alguns economistas acreditam que a identidade tem um papel de protagonista na economia. ‘Parte do declínio do trabalho entre os homens jovens é um desencontro entre aspirações e identidade’, diz Lawrence Katz, um professor de economia em Harvard. ‘Trabalhar como técnico de saúde tem uma conotação de emprego para mulher. O crescimento das oportunidades de trabalho ocorre em áreas consideradas mais femininas, como educação, saúde e governo’, ele acrescenta. A economia não está somente deixando os homens para trás. Ela está deixando o masculino para trás”.


Nós já não valorizamos mais a virilidade do trabalho masculino, pois a própria virilidade saiu de moda. O problema não são as mulheres que trabalham, o problema é a ideologia de gênero, que vem afirmando há cinquenta anos que as realidades básicas do gênero e da diferença dos gêneros são, de algum modo, um crime contra as mulheres (e, mais recentemente, contra a comunidade LGBT).


Eis algo que a humanidade compreendeu por milhares de anos e de que agora se esqueceu ou jogou no lixo: se quisermos homens bons, precisamos admirar, idealizar e recompensar a bondade masculina.

O trabalho foi redefinido, e não só pela abolição do gênero. O próprio trabalho masculino foi redefinido como uma fonte de privilégios injustos. Para os Donald Trump e Bill Gates deste mundo, isso faz sentido: os mais ricos e poderosos ainda são majoritariamente homens. 

Mas, na maior parte da história humana, foram três as razões dos homens trabalharem em empregos sórdidos e prejudiciais à saúde: o seu próprio sustento, o sustento de suas famílias, e porque era isso que se esperava do sexo masculino. A dependência financeira – seja de uma mulher, do governo ou da caridade dos vizinhos – era anátema para a identidade masculina. 



O termo chique para esse tipo de formação de identidade é “capital simbólico”. De vários modos distintos, nós simplesmente fracassamos em revigorar o que herdamos das antigas gerações, aquelas fontes de identidade para tantos americanos que não foram para Harvard e que não fazem parte da classe privilegiada: a religião, o patriotismo, a comunidade e, sim, a masculinidade social. Noto que parte do apelo de Donald Trump é que ele sempre diz aos eleitores que o sucesso não é ser necessariamente igual a ele. Ser um professor ou um policial feliz é ser tão bem-sucedido como um magnata imobiliário de Manhattan.


Na maior parte da história humana, a masculinidade era algo conquistado, e não dado de antemão. Ela guiava os homens em caminhos que a sociedade definia como sociais. Acima de tudo, nos tempos modernos, o trabalho e o casamento. As conexões entre trabalho, casamento, paternidade e masculinidade geravam uma tremenda energia social. Ser marido e pai era uma identidade masculina reforçada social e sexualmente. Era diferente de ser apenas um chefe de família. Maridos e pais dedicados tinham o seu trabalho. Os que não tinham eram mais que caloteiros, mais que ameaças sociais. Eram homens fracassados. Homens e mulheres sabiam disso.


A redefinição da masculinidade como “pessoalidade” não produziu uma geração de homens que agem como mulheres. As fontes profundas de motivação não são iguais nos dois gêneros.


Hoje os homens são definidos como inimigos, a menos que finjam se conformar à ideia de que o gênero não importa. Os homens adultos agora buscam refúgio no mundo dos videogames, no qual os seus impulsos agressivos são valorizados, em vez de serem desprezados – sem risco e sem verdadeira recompensa. É daí que vem a fúria do “GamerGate” – a ira de homens cujos refúgios fantasiosos de masculinidade foram ameaçados pelo feminismo. 


O caminho adiante não é o caminho de volta. É claro que o primeiro passo não é rejeitar as mulheres que trabalham. Mas rejeitar a indistinção dos gêneros e a gênerofobia. De recuperar e respeitar a necessidade masculina de conquistar uma identidade masculina, sem ferir os seus filhos ou as suas mulheres. Ou as suas mães. Ou a economia.

Se quisermos mais homens bons, precisamos valorizá-los mais.

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