Intercessão dos santos: provas bíblicas que você talvez não conheça





Por Sean Chapman. Traduzido do original por Rogério Schmitt. Grifos nossos.



A intercessão dos santos é algo que, num ponto de vista puramente prático, me parece fazer todo sentido. Sim, Deus é tudo para mim, mas ele não é a única coisa. Em outras palavras, não consigo navegar pela vida sem a assistência das criaturas de Deus (tanto vivas como mortas). Pode ser a ajuda imediata de um amigo a quem pedi auxílio, um ancestral que me ajudou na minha existência física ou, melhor ainda, algum personagem histórico que jamais conheci mas que, mesmo assim, foi responsável por boa parte da sabedoria e da prosperidade de que desfruto hoje na minha cultura. Nesse sentido, portanto, o homem não vive somente de Deus. 


Se não fosse realmente desse jeito, então por que sequer nos daríamos ao trabalho de agradecer alguém por algo? De fato, onde existe vontade, e algum bem que foi recebido, então a gratidão se faz presente. É o que nos recorda a famosa piada sobre o sujeito que estava se afogando, mas que recusou toda sorte de ajuda e intercessão sob o pretexto que “Deus o salvaria”. Ele acaba se afogando e sendo levado à presença de Deus, onde descobre que Deus havia se utilizado daqueles indivíduos como agentes de seu auxílio salvador. Nós não somos meras marionetes de Deus. Por Sua generosidade, somos parceiros e embaixadores do Seu plano de salvação.

Para mim, isso tudo é muito razoável num sentido prático. Mas procurar na Bíblia provas claras de que seres humanos já falecidos podem vir ao nosso auxílio é algo que, por várias razões, era sempre um desafio. Por isso, me espantava sempre que ouvia na Missa esse tipo de leitura. Muitos citam o livro do Apocalipse (por exemplo, Ap 5, 8 ou Ap 8, 3-4) em defesa da doutrina da intercessão, mas sempre achei esse argumento pouco convincente, já que a atividade divina é tão extramundana e simbólica (e como poderia ser diferente?). E isso é parte da dificuldade de se defender esse ponto. Como tornar mais “mundano”, mesmo que só por um instante, algo que parece ser tão extramundano?




Essa leitura bíblica se refere ao profeta Elias:


“Tal foi Elias, que foi envolvido num turbilhão. Eliseu ficou repleto do seu espírito; durante sua vida nenhum chefe o pôde abalar, ninguém o pôde subjugar. Nada era muito difícil para ele: até morto profetizou. Em vida fez prodígios; morto, ações maravilhosas” (Eclo 48, 12-14).


Será que eu entendi errado a passagem? Li novamente. Não, é exatamente isso o que ela diz: “após a morte, ele fez milagres”. A crítica que sempre escutara a respeito da intercessão dos santos parecia refutada por essa simples afirmação. Sempre que, no passado, tentei fazer a analogia entre as atitudes humanas e divinas, os que procuravam refutá-la diziam que as regras dessa vida não se aplicam ao lado de lá da cortina. Nessa vida, me diziam, temos permissão para realizar obras em favor do reino de Deus. Mas após a morte, não mais. Mas lá estava um versículo, do qual não me lembrava ter lido antes, sugerindo algo muito parecido com a intercessão de um santo após sua morte física. Será que precisamos ser ainda mais diretos? Vou falar novamente: “Morto, (fez) ações maravilhosas”.

Não se sugere que Eliseu esteja em algum tipo de competição com Deus. Muito ao contrário, o ponto é que a morte não muda a nossa capacidade de amar a Deus e de servir ao próximo. Na verdade, é possível argumentar que a nossa proximidade íntima com Deus na próxima vida pode até servir para multiplicar os nossos esforços a esse respeito.

Por outro lado, alguns podem dizer que o livro do Eclesiástico é parte da Septuaginta, e que não é aceito no cânon protestante. De fato, se não existissem outros versículos parecidos em meu apoio, concordaria que o meu argumento estaria em apuros. Todavia, o que mais me chama a atenção nessa passagem não é apenas o que ela diz, mas sim o fato de que ela corrobora e esclarece outra passagem que está em todas as Bíblias cristãs:

“Eliseu morreu e foi sepultado. Bandos de moabitas faziam incursões na terra todo ano. Aconteceu que, enquanto alguns homens estavam sepultando um morto, avistaram um desses bandos; jogaram o corpo dentro do túmulo de Eliseu e partiram. O corpo tocou nos ossos de Eliseu, recobrou vida e pôs-se de pé” (2Rs 13, 20-21).

Portanto, Eliseu era capaz de fazer milagres não apenas nessa vida mas, aparentemente, como sugerido nas duas passagens, ele “fez ações maravilhosas” mesmo após a morte. E que ações maravilhosas seriam essas? Vejam as passagens acima. Numa só penada, esses textos correspondentes não apenas apontam para a possibilidade de figuras santas promoverem milagres após a morte, mas para algo ainda mais chocante: que a cura existe, quase literalmente, dentro de seus próprios ossos.


Desde uma perspectiva católica, essas relíquias não são vistas como amuletos. Ao contrário, o seu poder deriva da mesma Fonte de sempre. Seja na vida ou na morte, o poder do profeta vem de sua união inabalável com Deus. No entanto, um contra-argumento comum a essa alegação é o seguinte: “Os profetas podem ter sido necessários antes de Cristo, mas agora que Cristo veio e morreu por todos nós, não há mais necessidade deles”. Mas Cristo não veio para abolir os santos e os profetas. Ele veio, como sugerem os profetas a seguir, para compartilhar o seu poder intercessor com todo o seu povo, e não apenas com alguns eleitos:


“Josué, filho de Nun, que desde a sua juventude servia a Moisés, tomou a palavra e disse: ‘Moisés, meu senhor, proíbe-os’. Respondeu-lhe Moisés: ‘Estás ciumento por minha causa? Oxalá todo o povo do Senhor fosse profeta, dando-lhe o Senhor o teu Espírito’” (Nm 11, 28-29).


“Depois disto, derramarei o meu Espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões” (Jl 2, 28).


Essas exatas palavras das escrituras hebraicas não foram cumpridas em Pentecostes? E depois?

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