Como continuar sendo católico na faculdade

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Uma entrevista com Aurora Griffin, autora do livro “How I Stayed Catholic at Harvard: 40 Tips for Faithful College Students” (Ignatius Press). Por Paul Senz. Traduzido por Rogério Schmitt do original.



Os pais e mães católicos sempre pensam em como podem estimular seus filhos adolescentes a amadurecer no conhecimento e no amor pela fé. É inegável que existe na cultura dominante uma ofensiva sistemática e velada contra as crenças, as práticas e a moralidade católicas. E talvez não haja um campo de batalha mais crucial e difícil que o dos ambientes universitários.

A jovem Aurora Griffin acaba de publicar um livro onde conta as muitas lições que aprendeu em decorrência de suas experiências na universidade. E não em qualquer universidade – mas em Harvard, onde ela se formou, com distinção, em Estudos Clássicos na turma de 2014. O livro é único no gênero. A maioria das obras voltadas para ajudar os jovens cristãos a manter a fé no ambiente universitário foi escrita por pais, sociólogos e apologistas. Mas esse livro foi escrito por uma recém-formada, cuja tinta no diploma ainda nem secou. A autora também recebeu uma bolsa de estudos para a Oxford University, onde acaba de completar uma pós-graduação em teologia. 

As impressões que Griffin recolheu de suas experiências em Harvard dão uma perspectiva nova e excitante ao desafio de se manter fiel à fé católica na faculdade. A seguir, a recente entrevista que ela concedeu, por e-mail, ao Catholic World Report (CWR) sobre o seu novo livro. 



CWR: Quando você teve a ideia de escrever um livro sobre a sua experiência?


Aurora Griffin: Foi no Domingo de Páscoa, em 2015, e eu estava no chuveiro. Quando as pessoas ficam sabendo do livro, elas me imaginam sentada numa confortável cadeira nos jardins de Harvard, registrando meticulosamente em um belo caderno as minhas experiências ao longo de quatro anos. Até seria mais apropriado. Mas, como dizia C. S. Lewis, “de fato, a realidade não é algo que habitualmente possa ser antecipado”. 

A ideia me veio do nada, mas me arrebatou com tanto fervor que pulei do chuveiro, vesti um roupão e atravessei a casa correndo até o meu computador. Comecei a escrever tudo que podia pensar sobre o livro, e uma boa parte dele estava lá: o título, o subtítulo, o prefácio escrito pelo Peter Kreeft, a publicação pela Ignatius Press, e trinta e oito das quarenta dicas. Nada disso era garantido na época, mas tudo acabou acontecendo do jeito que imaginei.

Foi o tipo de ideia que é tão excitante que nos revigora para todos os nossos outros projetos. De repente, passei a trabalhar o dobro de antes, mas quase sem perceber. Estava no meu primeiro ano do mestrado em teologia em Oxford. Trabalhava em minha pesquisa durante o dia e, de noite e nos finais de semana, ia para um pub escrever o livro. Em Pentecostes, já havia escrito um rascunho completo.

Gosto de contar essa divertida história de origem do livro porque ela me recorda que esse projeto é somente de Deus. Eu não o planejei, e a ideia também não foi minha. Isso significa que o projeto é Dele, para que Ele o transforme no que quiser. 



CWR: Você foi criada numa família católica? Antes de ir para Harvard, você sempre esteve em ambientes solidamente católicos?

Griffin: Com certeza. Meu pai achava que os programas das escolas paroquiais católicas locais não eram ortodoxos o suficiente. Ele me catequizou a partir do Catecismo de Baltimore. Quando criança, eu podia recitar definições dos sacramentos (“sinais exteriores da graça interior”) e do homem (“uma criatura composta de corpo e alma”). Nos finais de semana, como todo mundo, ficávamos ocupados com esportes e atividades familiares. Mas sempre parávamos tudo para ir à Missa dominical. Atribuo a essa formação precoce a base de quem eu sou hoje. 

Na verdade, nunca frequentei escolas católicas, mesmo quando mais crescida. Fiz o ensino fundamental e o ensino médio numa escola protestante. Mas era fantástico. O meu pai me ensinou a apologética de que precisava para defender a minha fé das alegações teológicas protestantes (como o professor da oitava série que dizia que os católicos eram “canibais”), de forma que elas nunca me afastassem da Igreja. Na verdade, ir a uma escola protestante fez exatamente o contrário. O testemunho moral cristão deles me mostrou que a coisa mais importante do mundo era o relacionamento com Cristo. Estar rodeada por evangélicos me ajudou a perceber de um modo novo a mensagem fundamental do Evangelho, e me tornou uma cristã mais forte. Foi aí que toda a formação catequética vinda do meu pai fez ainda mais sentido: o catolicismo me ajuda a ser uma cristã melhor do que eu jamais poderia ser sem os recursos da Igreja.



CWR: O livro apresenta 40 maneiras de continuar sendo católico na faculdade. Qual é a importância do ponto de partida? É mais fácil ou mais difícil para quem já vem de uma família católica manter essa fé na faculdade?


Griffin: Na minha experiência, a criação católica foi uma vantagem enorme para manter a minha fé na faculdade. Porém, a maioria dos meus amigos que comungam diariamente vem de origens apenas nominalmente católicas. Por diferentes caminhos, eles começaram a ir à Missa durante a semana, e foi assim que começam a crescer realmente na fé. Há um momento na vida de todo mundo, quando temos que decidir sozinhos se as alegações do cristianismo são verdadeiras. Não é surpresa que as nossas próprias decisões pareçam ser um fator maior que as decisões alheias. 

Mas posso dizer que os filhos de pais hipócritas na fé quase sempre tiveram que perseverar para abraçá-la. É como ter pais que sempre falam sobre os malefícios do fumo, mas que depois vão fumar escondidos. Os seus filhos vão perceber e repelir essa falta de autenticidade. Talvez a tarefa mais importante dos pais, portanto, seja eles mesmos tentarem ser santos. Essa é a coisa que mais atrai no mundo.



CWR: Boa parte dos livros sobre como manter a fé na faculdade foi escrita por professores e pais. Qual a vantagem desse seu livro, escrito por uma recém-formada? 



Griffin: Cada geração tem os seus próprios desafios, e esse livro quer falar com os estudantes universitários num país pós-revolução sexual e pós-cristão. Foi o que fiz. Mas continuo muito otimista sobre a nossa capacidade de dar testemunho da fé nessas circunstâncias. Para mim, foi uma experiência bem positiva, mesmo em Harvard. 


Dito isso, o livro não tem nada de realmente atual. Ele não propõe nada revolucionário. Estou apenas acrescentando o meu testemunho aos séculos de uma exitosa fábrica de santos, que é a Igreja. A fórmula – recorrer aos sacramentos e viver uma vida moral virtuosa – é a melhor maneira de sermos santos, e de sermos felizes, seja num campus universitário ou em qualquer outro lugar. Alguns escutam isso e perguntam se existe algum caminho menos convencional. É como se alguém perguntasse como perder peso sem mudar a dieta e sem se exercitar! É simples de dizer, duro de viver, e realmente funciona. O meu livro é assim. 



CWR: Na Introdução, você diz que esse não é um livro de memórias, mas um manual com ferramentas que foram úteis para você. Mas eu ainda quero saber de sua experiência pessoal. Você sentiu em Harvard muita animosidade em relação à religião, ou à sua fé em particular?



Griffin: Quando o Michael Novak, meu querido amigo e mentor, viu o primeiro rascunho do manuscrito, ele foi bem honesto: “Nossa, é bem prático para um livro de memórias...”. E tive que explicar que o livro não era sobre a minha vida. Mas depois acrescentei algumas seções na maioria dos capítulos, a fim de humanizar os meus argumentos e de explicar porque aqueles conselhos funcionaram para mim. Mesmo assim, o livro não é realmente sobre a minha pessoa. Por diversas razões, isso foi uma benção para mim, como escritora. Pude partilhar com outros estudantes algumas partes da minha vida utilizadas por Deus para transmitir uma mensagem, sem as minhas lutas e o meu ego para atrapalhar. 

Sobre o que senti em Harvard: na maior parte do tempo, estava ocupada demais para me preocupar com as pessoas que não concordavam comigo. E elas também estavam ocupadas demais para se opor a mim. A imprensa liberal até publicou artigos críticos ao meu trabalho, e respostas aos artigos pró-vida que escrevi no jornal estudantil de Harvard. Mas eu e meus amigos fomos todos alvos desse tipo de crítica em algum momento. Na verdade, até nos divertíamos com isso. Estávamos geralmente ocupados demais para ficar chateados com alguma batalha específica, e sempre buscando desafios novos. 



CWR: O que você quer dizer quando escreve “se você não está ganhando terreno, então está perdendo”, se referindo à ideia de “continuar” sendo católica?


Griffin: O título do livro é meio impróprio, pois nunca estamos sozinhos, ou neutros. Forças ocultas (Efésios 6) agem para que fiquemos confusos, tentados ou egoístas. Deus se dirige a nós com amor e perdão, mesmo quando sucumbimos a impulsos malignos. Isso é óbvio, até para os pagãos. Veja, por exemplo, as teorias aristotélicas sobre o hábito das virtudes: todo dia, o tempo todo, tomamos decisões que moldam o nosso caráter. As boas decisões favorecem as boas ações, e o mesmo vale para as más decisões. Por isso, somos responsáveis por cultivar ativamente aquelas partes de nós que queremos ver florescer. O meu livro apresenta quarenta sugestões nesse sentido, embora reconhecendo que devemos cooperar com a graça de Deus. 


CWR: A primeira categoria em que o livro se foca é Comunidade. Na sua visão e na sua experiência, por que é importante haver uma comunidade católica dentro da faculdade?



Griffin: É em comunidade que aprendemos a viver a virtude da caridade, sem a qual não conseguimos cultivar uma vida espiritual. A Igreja Católica, a Igreja universal, é tão diversa em Harvard como em qualquer outro lugar. Tivemos um monte de discordâncias, mas, honestamente, se recitamos o Credo juntos, então temos também muito em comum. 


Os católicos de Harvard, principalmente os que iam comigo à Missa todo dia, se tornaram como a minha família. Não eram necessariamente os meus melhores amigos, os que estavam ao meu lado o tempo inteiro. Mas eram as pessoas com quem partilhava as mesmas crenças mais importantes. Por isso, apesar das diferenças, éramos unidos. Na faculdade, isso foi o que tive de mais parecido com uma família. A maioria das pessoas fazia amizades aleatoriamente com os conhecidos do alojamento ou das festas. Mas eu me sentia fazendo amigos para a vida inteira. Nesses últimos anos, fico feliz em dizer que ainda continuamos muito próximos.



CWR: Na seção sobre oração, você enfatiza o modo pelo qual a oração diária, tanto pessoal como litúrgica, ajuda a manter a fé. A oração pode facilmente ser deixada de lado, com base em desculpas variadas. Foi difícil manter uma rotina de oração?


Griffin: Ainda penso o mesmo. No livro, esclareço que não se trata de fazer tudo certinho o tempo inteiro. Eu não me vejo como um exemplo de pessoa que reza com perfeição o tempo inteiro. Mas acredito que isso pode ser alcançado, e que isso é a coisa mais importante que podemos fazer. Acho que todos somos chamados a viver como pessoas que rezam, mesmo em meio ao mundo. Para mim, seria muito difícil não orar. Quando não vou à Missa num dia, dá até para perceber, pois fico irritadiça e menos focada. Se não tivesse adquirido o hábito da oração durante o meu tempo em Harvard, não teria conseguido assumir todas as responsabilidades que assumi sem ficar louca. 


CWR: Você acha necessariamente mais difícil manter a fé numa faculdade secular do que numa faculdade (ao menos teoricamente) católica?



Griffin: É difícil comparar, pois nunca frequentei uma escola católica. Mas posso dizer que depende da sua personalidade. Se você se dá bem em ambientes onde precisa ser criativo, pensar por conta própria e lutar pelo que acredita, então lugares como Harvard certamente aumentarão a sua fé. Mas em Harvard você não conseguirá ser católico sem fazer uma escolha consciente de praticar a sua fé. Você precisa achar tempo para isso, e saber responder às perguntas difíceis que as outras pessoas farão. 

Eu entendo que esse tipo de pressão não é atraente para muitas pessoas, que vão achar tudo perturbador ou mesmo depressivo. Elas se dariam melhor numa escola católica, onde não tenham que lutar pela sua fé o tempo inteiro. Entretanto, como mencionei antes, a batalha espiritual não dá tréguas. Assim como ir para uma faculdade secular não é garantia de que você vai perder a fé, ir também para uma faculdade católica não é garantia de que você vai mantê-la.

Jamais diria que todos deveriam ir para Harvard. Para mim, foi a decisão correta pois era lá onde Deus me queria. Ele tinha tarefas lá para mim. Mas nós também precisamos de estudantes que, nas escolas católicas, lá cultivem prósperas comunidades de fé. A questão é perguntar a Deus o que Ele deseja, e ter coragem para aceitar a missão.


CWR: Há algo mais que você gostaria de dizer?


Griffin: O meu livro pode ser um ótimo presente de Natal para outros estudantes! Brincadeira. Falando sério. Gostaria de incentivar os pais e os alunos preocupados em manter a fé na faculdade a conhecerem as mídias sociais do livro. Cada uma delas possui carismas ligeiramente distintos, e contém materiais que não estão no livro! Fico sempre de olho nas redes e respondo todas as mensagens que chegam, então adoraria receber notícias suas. Sempre que alguém se inscreve ou compartilha o conteúdo, isso me permite levar a mensagem para outros pais e estudantes. Obrigado pela sua ajuda! Por favor, rezem por mim.



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3 comentários

  1. Excelente!!
    Letícia, você conhece o pessoal do "Santa Carona"? Eles tb fazem um trabalho super bacana de evangelização na internet. Tem o podcast "Santa Zuera" que vale a pena conehcer: https://soundcloud.com/santa-carona ;)

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    1. Que legal!! Não conheço! Bom saber de mais iniciativas assim! ;)

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