Da concepção ao nascimento




Lennart Nilsson é um fotógrafo suiço que, com uma câmera acoplada a uma sonda intra-uterina, fotografou por muitos anos o inicio da vida, desde a concepção até o parto. Seu principal trabalho é o filme "O milagre da vida" (1983).

The miracle of life | Miracolul vieţii (Ro) from PRO VITA on Vimeo.


O trecho abaixo é retirado do livro "O que é psicologia pré-natal", de Joanna Wilheim. Para entendermos e nos maravilharmos com a beleza da natureza humana:

"Considerarei como 'nascimento' o momento em que, depois de ter permanecido armazenado no saco escrotal de seu pai por um período de aproximadamente dois meses, é ejaculado dentro da vagina daquela que virá a ser sua mãe, em companhia de mais algumas centenas de milhões iguais a ele.

O meio ambiente com que se deparam estes pequenos viajantes pode ser bastante hostil a eles, pois o meio vaginal pode apresentar, ocasionalmente, condições desfavoráveis: um teor de acidez acima do que a natureza do espermatozóide pode suportar, agindo sobre suas caldas e parasilando-as. De seu lado, no entanto, os espermatozóides secretam uma enzima que tem o poder de neutralizar esta condição desfavorável, permitindo-lhes avançar. Alguns sucumbem, porque são mais fracos; outros perdem-se no meio do caminho. Os melhores nadam, agitando suas caudas, que são o meio de locomoção. Atravessando o útero, depois de terem penetrado pela cérvix; alguns desorientam-se; outros no entanto são 'chamados' pelo óvulo. Explico: sabe-se hoje que o óvulo 'escolhe' os espermatozóides dentre os quais irá selecionar aquele pelo qual irá se deixar penetrar; para tanto, as células que envolvem o óvulo secretam uma substância química que atrai a uns, mas não a outros

Finalmente, o pequeno punhado de sobreviventes que restou daquela multidão inicial aproxima-se das cercanias do óvulo, depois de ter nadado contra a corrente e de ter enfrentado outro inimigo mortal: as células assassinas do sistema imunológico da mãe, cuja missão é detectar todo e qualquer corpo estranho e atacá-lo para matar.

Espertos, os diminutos espermatozóides "vestem" uma capa protetora para esconder os seus antígenos, com o que conseguem burlar a vigilância da sentinela postada para não deixá-los passar. Após atravessar as linhas inimigas, um pequeno grupo de sobreviventes chega às portas do óvulo, que para eles se configura imenso: o óvulo é 85 mil vezes maior que o espermatozóide! Cercam-no, nadando em volta.

Um punhado começa a operação 'penetração': trabalham em equipe, secretando a enzima cujo efeito é dissolver a membrana protetora que envolve o óvulo e permitir a passagem de um. Finalmente UM consegue! Pula para dentro, literalmente mergulhando de cabeça. Neste momento uma contra-ordem elétrica se produz na membrana do óvulo, que se fecha, impedindo qualquer outro de entrar. A cabeça do espermatozóide mergulha dentro do óvulo. Mas a cauda, aquele precioso instrumento de locomoção que lhe dava liberdade, fica de fora, é amputada no momento da penetração.

E agora que a cabeça do espematozóide está dentro do óvulo, o que acontece com ela? Pois bem, ela estufa, aumenta quatro vezes de tamanho em relação à dimensão original e abre-se, dando passagem ao núcleo contido dentro dela, núcleo este que traz toda a bagagem genética do pai. Uma vez liberado, ele se encaminha em direção ao núcleo que o óvulo liberou. É um indo em direção ao outro, em movimento de mútua atração, até que se encontram abrindo-se um para o outro num grande amálgama fusional.

Antes de prosseguir, volto-me para a odisséia do óvulo, que também navegou - embora bem menos que o espematozóide e em águas bem menos perigosas e turbulentas. Ele é um só, enquanto que o espermatozóide era um entre centenas de milhões. É grande, forte, com uma reserva proteica muito maior do que o espermatozóide. E, sobretudo, ele está dentro de sua própria "casa". Ou melhor, dentro da casa de sua própria mãe. O ambiente que o cerca é um ambiente familiar. O óvulo não é, nem se sente, atacado. Sua composição genética é a mesma das demais células daquele corpo de mãe. Não há antigenos seus mobilizando ataque de anti-corpos. Não há nenhuma guerra a declarar. Não há sentinelas inimigas a burlar. Nem soldado inimigo postado para atacá-lo e exterminá-lo.

É verdade que sofre uma queda, uma experiência deveras desagradável: ao ser expelido pelo ovário, cai na cavidade abdominal, sem direção; lá os extensores da trompa o apanham para conduzi-lo ao duto no qual irá se encontrar com seu par. Não possui mobilidade própria; é carregado pelos cílios da trompa, que o vão levando devargazinho e em direção àquele lugar onde deverá se "casar" com seu par. Voltemos ao encontro e casamento. Um dentro do outro. O pequenino contido pelo grande, o grande contendo o pequenino. Podemos considerar que neste momento dá-se o primeiro nascimento do novo ser. Tão logo fundem-se os núcleos e é produzido a amálgama cromossômico, o óvulo deixa de ser o que era antes, o espermatozóide deixa de existir na sua identidade original, e nasce o novo ser, ao qual vou chamar de concepto.

E o que acontece com o concepto tão logo ele passa a existir? Ocorrem duas coisas ao mesmo tempo, uma positiva e uma negativa. A positiva é que dentro dele se dá uma explosão de vida: há uma fantástica expansão em relação ao estado anterior de compressão dos gens existentes antes da liberação, expansão esta que, ao se dar, libera muita energia. A negativa é que tão logo ele passa a existir, é identificado como corpo estranho pelo sistema imunológico da mãe. Explico: a bagagem genética do óvulo que era da mãe foi acrescida da bagagem genética do espermatozóide que era do pai. A nova composição genética contém a mistura dos dois, constituindo portanto uma bagagem genética diferente da ovular original, que chama contra si os anticorpos defensores do organismo materno. Por que assinalo isso com tanta ênfase? Porque, como você deve se lembrar, já mencionei que tudo o que se passa com o novo ser, desde a emissão de cada uma das duas células básicas componentes, tem um registro que fica guardado em nossos arquivos de memória.

[...]

O óvulo acaba de ser fecundado, há fusão dos núcleos, um novo amálgama celular. Vinte horas depois da fusão dar-se-á a primeira divisão celular, a partir do que, a cada doze ou quinze horas, dar-se-á nova divisão. As divisões continuam: serão quatro, depois oito, dezesseis, trinta e duas células, e assim por diante. Este estágio é conhecido pelo nome de mórula, porque sua aparência lembra a de uma amora. A mórula continua sua descida pela trompa, levada pelos cílios. Este tempo de percurso dentro da trompa é muito crítico: o concepto está exposto aos ataques fisiológicos provenientes do organismo materno, que ameaçam a sua sobrevivência. As estatísticas informam que cerca de 70% dos óvulos fecundados são destruídos na trompa antes de alcançarem o útero. Portanto, aqueles que alcançam - e isso se refere a todos nós que estamos no mundo - podem ser considerados sobreviventes.

Nos dez dias que se seguem à concepção, este pequeno aglomerado de células em constante multiplicação faz sua descida até o útero. O blastócito, composto agora de cerca de cem células, atravessa uma abertura estreita existente na passagem entre a trompa e o útero e, num formidável salto, despenca como uma bola no vazio. [...] O blastócito, após ter aterrisado no útero, vai procurar um lugar para se nidar. Movimenta-se sobre a mucosa, procurando um lugar seguro - o "seu" lugar - para se implantar. Mas antes precisa romper a bainha contensora, uma espécie de invólucro protetor, que o envolve. Quebra-a, livra-se dela: massa celular está agora liberada para se ligar à membrana acolhedora do útero. Há novamente registro de um movimento de grande expansão - é a massa celular saindo do estado de compressão. Neste momento inicia-se a nidação: da massa celular saem raízes que vão se fixar na parede uterina.

Este momento marca o novo e importante registro de contenção adotiva: agora é o útero adotando o concepto. Contam-nos os imuno embriologistas que neste instante produz-se uma espécie de pacto de não-agressão a nível celular: o blastócito produz um muco cujas propriedades químicas visam neutralizar o efeito provocado por seus antígenos sobre a mucosa do útero, que de outra forma responde com irritação agressiva, visando a sua destruição e consequente eliminação. Com frequência, porém, tal pacto não se realiza. Instala-se então uma guerra: o concepto, movido pelo seu instinto de vida, trava verdadeira batalha para sobreviver, enquanto, do outro lado, o organismo materno - movido pelo seu instinto de vida - defende-se do "invasor-agressor". Também desta experiência, de nidação ou implante, ficarão registros significativos na nossa matriz básica, seja do sentimento de adoção, de aceitação e acolhida, seja do sentimento de rejeição.

No blastócito, começa a diferenciação celular: uma parte se destina à formação do embrião, e outra parte se destina à formação da placenta, que é um orgão do embrião formado a partir de células suas. Com quatro semanas o embrião mede seis milimetros, tem um corpo com uma cabeça, um tronco e uma cauda. Apresenta rudimentos do cérebro, espinha, tubo digestivo. O sistema nervoso começa a se formar no 18º dia, quando também se formam os rudimentos dos olhos. A boca abre-se pela primeira vez em torno do 28º dia e o coraçãozinho rudimentar começa a bater, bombeando sangue para o fígado e a aorta.

Com cinco semanas, mede um centímentro. Começam a despontar pernas e braços. Surgem pela primeira vez movimentos bruscos, espontâneos. Com seis semanas o embrião mede um centímetro e meio. O seu coraçãozinho apresenta de 140 a 150 batimentos por minuto, duas vezes mais que o de sua mãe. Suas mãozinhas estão desenvolvendo dedos. A partir deste momento, o embrião responde ao toque com movimentos amplos e generalizados. Começam a aparecer os primeiros reflexos: se sua mãozinha ou pézinho tocar a parede do útero, os dedos ou artelhos se contrairão. Se for feito um eletroencefalograma, seu traçado será semelhante ao do adulto. Com sete ou oito semanas, o embrião é capaz de realizar movimentos muito simples de flexão de braço ou de perna, pulso, cotovelo ou joelho. Um ligeiro toque em sua face o fá-lo-á desviar a cabeça. O movimento é vital para o desenvolvimento dos ossos, das juntas e das experiências sensoriais do feto - ou embrião - inclusindo aquelas que derivam do movimento, e que são essenciais para o desenvolvimento de seu cérebro. O sangue do embrião absorve proteínas, gordura e açúcar da placenta para o constante processo de construção de suas células, e oxigênio para alimentar o processo. Com oito semanas, ele mede quatro centímetros; neste ponto do desenvolvimento, os embriologistas passam a se referir ao ser em desenvolvimento como "feto".

O feto vive dentro de um saco amniótico contendo um liquido que o acolchoa e protege. Este líquido tem um teor de salinidade semelhante ao do mar primitivo. Nesse meio ambiente flutuante e sem peso, o membros e o corpo têm amplo espaço para se movimentar, mantendo suas articulações flexíveis. Dentro do seu corpinho, todos os orgãos já estão no devido lugar: tudo o que se encontra em um ser humano a termo já está formado. Ele agora é capaz de movimentar a cabeça, os braços e o tronco com facilidade. Se a palma de sua mão for tocada, ele reage, fechando-a. Responde às mudanças de posição de sua mãe. Se os seus lábios ou o seu nariz forem roçados, responde com um movimento de curvatura do pescoço para se afastar do estímulo. Se um fio de cabelo esbarrar em sua face, afasta a cabeça e estica os bracinhos para afastar o cabelo. Fetos de oito semanas foram vistos fazendo um movimento para afastar ou apanhar com a mão a agulha introduzida por ocasião do exame de amniocentese. Sua placenta produz os hormônios necessários para a manutenção da gravidez.

Entre a 10ª e a 12ª semana após a concepção, o feto começa um vigoroso programa de exercitação física, rolando de um lado para o outro, estendendo e flexionando as costas e o pescoço, agitando os bracinhos, dando chutes e flexionando os pés. Esta movimentação se mantém, sem muita alteração, por todo o tempo da gestação. É uma movimentação graciosa e espontânea, uma coordenação que revela um tipo de inteligência direcional. Com doze semanas mede sete centímetros e meio, pesa quatorze gramas. É capaz agora de movimentar todas as articulações de um braço ou de uma perna. Além de chutar e virar os pés, dobra os dedos, franze a fronte, aperta os lábios, abre a boca, coça a cabeça, faz caretas, esfrega os olhos e engole o líquido amniótico. Os seus pulmõezinhos primitivos e vazios expandem-se e contraem-se como se estivessem ensaiando para quando precisar deles no momento do nascimento. Se seus lábios forem tocados, ele responde com um movimento de sucção. Se suas pálpebras forem tocadas, responde contraindo-as em vez de jogar o corpinho para trás, como fazia antes. Começa a chupar o dedo. Fetos da mesma idade começam a revelar variações individuais: suas feições começam a se diferenciar; também começam a ficar evidentes diferenças nas expressões faciais.

Com 14 semanas, engole, chupa e respira. É capaz de movimentar os braços juntamente com as pernas e às vezes pode-se ver o feto com as mãozinhas levantadas. Começa a apresentar expressões faciais de agrado e desagrado. Com 15 semanas o feto apresenta todos os movimentos presentes em fetos a termo. Com 16 semanas, além de levantaras sobrancelhas, fazer caretas, coçar a cabeça e esfregar os olhos, começa a desenvolver o sentido do paladar. Nesta idade, as papilas gustativas já estão desenvolvidas, e surgem as preferências de gosto: o feto faz caretas e pára de engolir quando uma gota de substância amarga é colocada no liquido amniótico, enquanto que uma gota de substância doce provoca aceleração da ingestão do liquido. Reage da mesma maneira à nicotina e ao alcool ingeridos pela mãe, com o que evidencia o desagrado que lhe causam.

Na 19ª semana os seus movimentos começam a ficar mais coordenados, contrastando com os movimentos iniciais, que eram reflexos mais primitivos. Começa a dar "passos": é capaz de ficar ereto e impulsionar o corpinho para a frente, sustentando-se sobre uma das mãos. Na 26ª semana de gestação, o feto abre os olhos pela primeira vez e, a partir deste momento, comportar-se-á como um recém-nascido: fecha os olhos quando dorme e abre-os quando está acordado. Com 28 semanas todos os fetos sadios piscam os olhos. Até o sétimo mês o feto pode movimentar-se livremente, até mesmo virar cambalhotas. Mas, a partir do oitavo mès, o ambiente torna-se mais apertado e quase todo o espaço disponível está por ele ocupado. Começará então a fazer os movimentos preparatórios necessários para o seu nascimento. Ao sentir-se pronto e maduro, organiza-se para prosseguir o seu desenvolvimento fora do corpo de sua mãe e separado dela."

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