Resenha: "O despertar da Senhorita Prim"



Fazia muito tempo que um livro não entrava para minha caixinha de "favoritos". Sabe quando você lê uma história e não quer que ela acabe? Foi essa a sensação que tive ao ler "O despertar da Senhorita Prim", de Natalia Sanmartin Fenollera.

Prudência Prim é uma mulher com vários títulos e muita independência. Cansada da vida que leva e do emprego que tem, resolve ir atrás do anúncio para a vaga de bibliotecária em um povoado chamado "Santo Irineu de Arnois". Ali a moça se depara com cultura e costumes que confrontam com suas convicções e valores.

O caos do mundo moderno, representado pela educação de Srta Prim, se choca com a pureza e simplicidade de uma vila e seus habitantes. Santo Irineu de Arnois não deixa de ser uma alegoria da Verdade - simples e modesta. O mundo moderno que é o complicado! 

Sim, a modernidade nos deu bons frutos: certos avanços científicos, certas tecnologias e procedimentos, certas técnicas e produtos. Todavia, não soubemos integrar a tradição e o passado com a modernidade; desprezamos o antigo para ficar com o novo. Esquecemos dos acertos e erros que a humanidade carregou até aqui. Permitimos que os pensamentos e as ideias se sobressaíssem à realidade. 

A jovem Senhorita Prim mostra-se como quem é chamado a pôr em cheque tudo o que sabe e aprendeu até então; a despir-se de si e de suas certezas para abrir-se à Verdade. Ela personifica a alegria que é para o homem moderno descobrir o mundo tal como ele é e aprender a enxergá-lo com seus próprios olhos.

Tudo o que escrevo aqui no blog desde o início: sobre virtudes, sobre distributismo, sobre valores e sobre relacionamentos - inclusive os textos sobre feminismo e mulher na idade média - encontram neste livro a expressão perfeita de como tudo isto poderia constituir a vida prática (o mundão, a vida real!). Tolas ideologias que acreditamos! Deixo um pequeno trecho do livro que ilustra o que escrevo:

"Quando encontrou o que procurava, a bibliotecária se encaminhou apressadamente para a porta da sala disposta a deixar aquele lugar sem esperar a escolta da criada de coifa branca, que, como muitas mulheres da vida, ocupava uma cadeira na reunião. De nada serviriam as desculpas de Emma Giovanacci e as dolorosas súplicas de Hortência Oiellet. Também de nada adiantaram as palavras de consolo de Clarissa Waste, que explicou à senhorita Prim que a procura de um marido era uma atividade comum entre as damas feministas de Santo Irineu.
- E as senhoras acham que são feministas? - exclamou indignada a bibliotecária encarando todas. - Acham que neste momento uma mulher ainda deve depender de um homem?
- Mas, minha querida, olhe para si - a voz clara e suave de Hermínia Treaumont deteve a senhorita Prim. - Mora na casa de um homem, trabalha o dia todo sob as ordens de um homem, e recebe um salário do mesmo homem, que a cada primeiro dia do mês paga pontualmente todas as suas despesas. Realmente tinha a ilusão de estar liberada da dependência masculina?
- Isso não é o mesmo, e a senhora sabe - respondeu com voz rouca a bibliotecária.
- É claro que não é o mesmo. A maioria das mulheres casadas desta vila não depende de seu marido nem de longe na mesma medida que a senhora depende de seu chefe. Como proprietárias de seu negócio, algumas delas são a principal fonte de renda familiar, e para muitas outras a principal fonte de poupança, porque formam intelectualmente seus filhos e transformam em renda disponível o orçamento que o resto do mundo gasta em escolas medíocres. Nenhuma delas é obrigada a pedir permissão se tiver de fazer qualquer coisa pessoal, como me atrevo a adivinhar que você deve fazer em seu trabalho. Nenhuma tem de calar suas opiniões, como tenho certeza de que deve fazer muitas vezes em conversas com seu patrão.
A senhorita Prim abriu a boca para protestar, mas algo nos olhos da sua oponente a fez voltar a fechá-la.
- A nenhuma - continuou Hermínia Treaumont - ocorreria levar um atestado médico cada vez que estivesse doente nem esperaria suportar olhares condescendentes quando anuncia uma coisa tão natural como um nascimento. Vê esse pequeno quadro com uma frase escrita sobre a lareira?
A contragosto a bibliotecária voltou o olhar para a parede.
- Foi escrito há muitos anos pelo homem a quem mais gratidão tenho em minha vida, depois de meu mentor acadêmico e meu próprio pai. E, infelizmente, creio que é a maior verdade que já foi dita sobre a questão. Leia-o, leia-o bem, e ouse dizer-me que não é verdade.
A senhorita Prim leu silenciosamente:
Dez mil mulheres marcharam um dia pelas ruas de Londres gritando: 'Não queremos que mandem em nós!'. E pouco depois se tornaram datilógrafas. G.K. Chesterton" (p. 79-80)


O livro pode ser adquirido pela Editora Quadrante


Veja também:

- Entrevista com Natalia Sanmartin no NKBooklovers (inglês)
- “The Awakening of Miss Prim”: A Breath of Fresh Sanity (The imaginative conservative - inglês)
- Entrevista com a autora no InfoCatólica (espanhol)
- Vídeo: entrevista com a autora - "A vida moderna nos afasta da realidade" (espanhol)

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5 comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Se fiquei totalmente envolvida lendo esse trecho, imagina o livro inteiro.
    Parece excelente mesmo, citar Chesterton prova isso.
    Ótima resenha. Obrigada Letícia. Comprarei!

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    1. Que legal, Fabi!!! Acho que você vai gostar muito! Assim que terminar a leitura, me conte o que achou! bjs!

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  3. Sabe aqueles trabalhos dos sonhos? Um dos meus é ser bibliotecária, rs. Gostei da resenha, o livro parece maravilhoso!

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    1. rsrs Que delícia! Então você vai amar o livro, Aninha! :)

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