5 pontos para entender melhor a mulher segundo Edith Stein

5 pontos para entender melhor a mulher segundo Edith Stein

Assim como São João Paulo II (um dos meus santos favoritos!), eu também gosto e admiro muito a obra de Santa Teresa Benedita da Cruz, a famosa filósofa da fenomenologia “Edith Stein”.

A filósofa judia, seguidora de Husserl, era ateia até ler “O livro da vida”, de Santa Teresa D’Avila, e encontrar ali as respostas para todas as suas inquietações internas. A partir dali inicia-se seu caminho de conversão que culmina em sua entrada para o Carmelo e o desenvolvimento de obras riquíssimas para a sociedade e a Igreja.

Em alguns de seus livros, especialmente no livro “A Mulher”, Edith Stein traz um maravilhoso compilado antropológico sobre as mulheres. Impossível não se identificar ou não entender o comportamento de nossas mães, irmãs e amigas. Transcrevo abaixo algumas breves observações sobre a constituição e psicologia feminina e deixo a vocês o convite para lerem e se aprofundarem nos estudos desta grande e santa mulher.

 

1)      O pecado original deformou a natureza humana

Edith Stein nos mostra que o pecado original inibe o desenvolvimento puro da natureza humana – masculina ou feminina. Isto é, nunca seremos quem realmente fomos criados para ser porque o pecado original inclina nossa natureza para uma hipertrofia, para um desenvolvimento que nunca será pleno. A mulher ou o homem desenvolvem certas inclinações más que não desenvolveriam se não tivéssemos o pecado. Porém, podemos encontrar na graça de Deus e na nossa total entrega a Ele o remédio e a purificação para estas nossas más inclinações.

 

2)      Homens e Mulheres são iguais em dignidade e têm os mesmos direitos e deveres

Apesar de sermos diferentes em termos de constituição física, hormonal, emocional e psicológica, homens e mulheres possuem a mesma dignidade perante Deus e, socialmente, isto nos faz ter os mesmos direitos e deveres. As diferenças que temos são necessárias e importantes para potencializar a vida em sociedade: estas diferenças trabalham como engrenagens para que o “motor social” funcione. Porém, isto não faz das mulheres menores ou inferiores. Quem desvaloriza a mulher em prol de uma suposta “superioridade do homem”, se contradiz “com as palavras e práticas de Nosso Senhor que admitia mulheres entre as pessoas mais próximas e que provou em toda a sua obra de redentor que se importava tanto com a alma da mulher quanto com a do homem” (A mulher, p. 86).

Inclusive, “originalmente, a reprodução era tarefa conjunta de ambos. Se a sua constituição desigual os faz dependerem da complementação mútua, mais ainda repercute essa necessidade de complementação na relação com os descendentes” (p. 90).  Isto é, diferente do que prega a família aburguesada – que muitos tomaram por modelo de família católica – o ideal é que pais e mães cuidem dos seus filhos, não sendo o cuidado obrigação exclusiva nem de um nem de outro, mas dos dois.

Mas, afinal, por que toda essa confusão sobre desigualdade e dignidade, que causa tanta discórdia sobre os ensinamentos da Igreja e repercute na própria vida social? Edith Stein afirma que “pela queda, a relação de companheirismo transformou-se em relação de domínio, muitas vezes exercida de modo brutal, onde já não se tem em mente os dons naturais da mulher e seu desenvolvimento máximo; agora ela é explorada como um meio para um fim, a serviço de uma obra ou para satisfação dos próprios desejos” (p. 90) É preciso, pois, mudar esta mentalidade.

 

3)      Mulheres podem ser dominadoras e egocêntricas

Como exposto anteriormente, o pecado deformou a natureza humana e, na natureza feminina, uma das consequência desta deturpação é manifestar uma tendência à dominação. Em todas as mulheres encontramos o desejo de dar e receber amor; de dedicar-se tanto a outro ser humano a ponto da própria aniquilação. É por isso que a formação da afetividade deveria ser o centro da formação feminina, segundo Edith Stein.

Porém, quando esta afetividade é desenvolvida de maneira errada – ou, quando, em vez das fraquezas de personalidade e temperamento serem minimizadas elas acabam sendo reforçadas – a mulher transforma-se numa déspota. Quer que tudo gire ao redor do seu umbigo, fala muito de si, não consegue lidar com críticas (leva tudo para o lado pessoal), e tem um grande desejo por prestígio e reconhecimento (seus filhos e marido são sempre os mais bonitos, os mais inteligentes, os melhores etc). Esta tendência natural deturpada também se manifesta em um interesse exagerado pela vida alheia, tanto em formato de fofocas quanto em formato de controle sobre a vida dos filhos e do marido (limitando a liberdade destas pessoas).

É necessário  que a mulher examine suas ações e busque sempre o aprimoramento de sua personalidade, bem como a minimização de suas inclinações más. Isto pode acontecer com ajuda profissional (de terapeutas), com o auxílio de bons amigos e com direção espiritual sincera e confiável.

 

4)       Mulheres têm uma tendência à totalidade

Diferente dos homens, mais objetivos e diretos nos seus afazeres, as mulheres costumam dedicar-se totalmente às coisas que fazem ou às pessoas que se interessam. A vida delas passa a ser aquilo. É por isso que é preciso ter equilíbrio para não fazer de um trabalho ou pessoa o centro de suas vidas.

Também ligado a esta tendência à totalidade está um desejo deturpado de querer saber de tudo sem se aprofundar em nada. É muito comum ver mulheres estudando ou trabalhando com vários temas, fazendo várias coisas ao mesmo tempo, dando conta de múltiplas tarefas, mas, muitas vezes, sem conseguir se focar e ser verdadeiramente boa em uma única coisa.

 

5)      O trabalho pode ajudar no desenvolvimento da personalidade feminina

Quando não se torna uma fixação e quando é feito com amor e equilíbrio, o trabalho externo pode ser para a mulher uma maneira de desenvolver com mais plenitude sua personalidade e seus dons.  A tendência feminina de se fixar excessivamente nos filhos e no marido – e seu medo de ficar sozinha quando estes se forem – pode ser equilibrada e remediada com um período diário de trabalho fora do lar em um trabalho objetivo e concreto sobre determinado tema ou assunto. Isto também é útil para a tendência feminina à totalidade.

 

Como já comentei neste texto sobre mulheres e trabalho, é importante e necessário à mulher trabalhar. Afirma Edith Stein: “Depois da evolução verificada nas últimas décadas, podemos considerar encerrado o período histórico em que se distinguia claramente entre as tarefas domésticas que cabiam à mulher e a luta pela existência fora de casa que cabia ao homem” (p. 97) e também “... aquilo que se entende comumente como sendo a vocação natural da mulher, a de esposa e mãe, não pode ser sua única vocação” (p. 203)

 

Entretanto, é certo que “o homem e a mulher têm a missão de procriar e educar os descendentes. Mas essa é a função precípua da mulher, pois ela está mais intimamente ligada ao filho, tanto pelo corpo, quanto pela alma, e por causa dessa ligação, com toda a sua forma e vida, enquanto o homem foi colocado ao seu lado como ajudante e protetor” (p. 207). Nesse sentido, cabe um esforço tanto à sociedade quanto à mulher para conseguir a conciliação de maneira adequada entre trabalho e família. São João Paulo II já pediu, assim como os Papas Bento XVI e Francisco,  aos leigos pensarem soluções adequadas para esta problemática de nossos tempos.

Importante lembrar também que, como comentado por Edith Stein e como já exposto pelos papas em diversos documentos da Igreja, pais e mães devem se esforçar por educarem os filhos com a máxima presença de ambos. Edith Stein lembra que o lar deve ser um local acolhedor, bonito, aconchegante. É ali que o marido encontra descanso para a humanidade que lhe falta quando vai ao trabalho externo. Esta humanidade só a mulher sabe dar; só ela sabe transformar o homem em alguém melhor. É neste lar que deve florescer a graça de Deus na vida do casal e dos filhos.

 

Será que nós, como mulheres, estamos cumprindo nossa missão e desenvolvendo o melhor de nossa natureza e personalidade?

 

 ATUALIZAÇÃO (08/02/2019): Não sou da opinião de que todas as mulheres são chamadas ao trabalho fora do lar. Muitas não dariam conta disso. Mas também acredito que em primeiro lugar deve imperar o bom senso. Cada um sabe das suas lutas e dificuldades, portanto sabe o que lhe convém ou não em cada momento de suas vidas.

 

PLUS: Santa Edith Stein e o Feminismo

“Convém esclarecer mais a importância das profissões extra-casa que, durante muito tempo, eram controvertidas e, só aos poucos, se tornaram acessíveis às mulheres graças à luta do movimento feminista” (p. 131)

 

“A maioria das moças que hoje faz vestibular e ingressam num curso superior nem sabem quantos comícios, manifestos, petições ao congresso e ao governo foram necessários até que, em 1901, as universidades se abrissem, finalmente, também para as mulheres” (p. 160)

 

“Como, até poucas décadas atrás, se era da opinião de que a mulher devia ficar em casa e que nenhuma serventia tinha fora dela, foram necessárias lutas longas e renhidas para alargar seu âmbito de ação que se tornara demasiado restrito” (p. 165)

 

Na obra de Edith Stein há muitos comentários sobre o feminismo. Por muito tempo eu critiquei este movimento sem muito critério ou conhecimento. Bastava ouvir falar “feminismo” e eu classificava isso como algo ruim, não querendo saber nem o resto do assunto. Aos poucos, com muito estudo e reflexão, percebi que é imprudente colocarmos tudo o que ouvimos sobre feminismo num cesto de lixo. É claro que há muito conteúdo ruim no movimento – especialmente nas linhas marxistas. Porém, é necessário ponderar que há coisas boas no feminismo – especialmente no início do movimento, com o sufragismo – e que, mesmo hoje, há linhas pró-vida e que advogam por causas importantes e em total acordo com o que acreditamos – como a própria conciliação entre maternidade e trabalho, por exemplo.

 

“O movimento feminista católico tem muito em comum com os objetivos do movimento não católico e lhe deve contribuições pioneiras valiosas, como, por exemplo, no campo econômico, a criação de oportunidades de trabalho e de formação, nos campos político, jurídico e social, os primeiros passos para a participação da mulher; até mesmo na avaliação do casamento e da maternidade continua existindo uma ampla concordância com os elementos moderados do movimento feminista civil” (p. 183)

 

“Como mulheres católicas graduadas, mantemos contato com o movimento feminista suíço, com a federação das mulheres e com as trabalhadoras cristão-sociais organizadas? Não mantemos esse contato. Por quê? O erro está em ambos os lados, mas, certamente, também da nossa parte” (p. 301)

 

Assim, é pertinente o apelo de São João Paulo II na encíclica Evangelium Vitae, quando propôs, certamente inspirado em Santa Edith Stein, um “novo feminismo”, uma espécie de nova onda feminista que busca a verdadeira realização da natureza feminina. Nada de luta de classes, negação da própria feminilidade ou embates com os homens, como propõe os marxistas ou desconstrucionistas, mas sim uma busca por equidade e valorização das diferenças entre homens e mulheres - diferenças estas queridas por Deus e essenciais para o bem comum!

 

“Nessa viragem cultural a favor da vida, as mulheres têm um espaço de pensamento e ação singular e talvez determinante: compete a elas fazerem-se promotoras de um « novo feminismo» que, sem cair na tentação de seguir modelos «masculinizados», saiba reconhecer e exprimir o verdadeiro gênio feminino em todas as manifestações da convivência civil, trabalhando pela superação de toda a forma de discriminação, violência e exploração” (Papa João Paulo II na encíclica Evangelium Vitae)

 

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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Já temos 4 comentário(s). DEIXE O SEU :)
Priscila Leite

Priscila Leite

Descobri o blog a pouco tempo. Já quero ler esta autora! Só digo isso! Rsrs
★★★★★DIA 09.03.19 09h15RESPONDER
Letícia B
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Luciana Lachance

Luciana Lachance

Oi Letícia! Amo Edith Stein!
Me parece que a família aburguesada ainda tem alguma melhoria com relação às famílias tradicionais antigas; me parece que a desigualdade era ainda maior. Também entendo que a divisão de papéis - em termos de dedicação e de tempo - permite uma organização com os filhos. Numa configuração onde ambos saem; onde esta mulher está tendo filhos, administrar os filhos, um trabalho, um pai que também ficará em casa em momentos para que esta mulher saia: na prática a minha experiência e a de pessoas próximas é a de que o esforço é hercúleo para manter um clima de normalidade. Eu realmente acredito que essa ânsia por desenvolvimento na mulher tem de ser sanada de alguma maneira, mas se não falarmos claramente de ciclos, circunstâncias, diferentes configurações... então, parece que estamos trazendo um problema para as famílias. Hoje, mais do que em qualquer época, há uma flexibilidade para um desenvolvimento da mulher, mas o modelo não burguês, por assim dizer, parece ainda mais coisa de privilégio de quem tem condições superiores de recursos. Uma família mais simples dificilmente poderá chegar perto de um projeto desses. É a impressão que me fica...
★★★★★DIA 06.02.19 13h10RESPONDER
Letícia B
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Letícia B

Letícia B

Oi, Lu! Obrigada pelo comentário! Muito bom ver você por aqui :)


Interessante o que você comentou! Acho que cada família dentro de sua realidade se organiza como pode para dar o melhor para a criação dos filhos. 

Acho que as leis e a cultura que temos, ao menos aqui no Brasil, forçam as pessoas a trabalharem no mínimo 8h por dia para ganharem um salário minimamente suficiente para sustentar uma família. Entendo que se pai e mãe trabalharem, serão duas pessoas fora de casa. Nesse sentido, realmente, é melhor que um fique em casa e o outro trabalhe. Precisaríamos de leis ou incentivos às empresas para trabalhos mais flexíveis. Isso melhoraria muito a situação das famílias!


Também sou da opinião que não são todas as mulheres vocacionadas ao trabalho fora do lar. Algumas não dão/dariam conta.


Por outro lado, algumas profissões permitem trabalhos de 6 horas, ou jornadas de 8 sendo algumas horas em casa. Talvez, nesses casos, poderiam marido e mulher se revezarem no cuidado dos filhos e ambos terem mais presença na criação deles.


O Italo Marsili fala que a presença do pai em casa 100% do tempo é até castradora. O Carlos Ramalhete diz que essa história de sair de casa para trabalhar, ou um só cuidar dos filhos, é coisa da modernidade. Enfim... Penso que o tema é um problema em aberto rs 


Gostei muito do seu comentário! Vou pensar sobre essas questões! Obrigada e volte sempre aqui!

★★★★★DIA 08.02.19 11h10RESPONDER
N/A
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McMa Mend.

McMa Mend.

Vale la pena leer los primeros capítulos del Génesis para entender las heridas del hombre y la mujer "Sentirás atracción por tu marido, y él te dominará" (Gn. 3: 16). Tal vez, según algunos teólogos, el castigo de la mujer es la dominación de su marido. Esto no es una interpretación de la "ideología de género", pero es interesante cómo la herida del pecado en la mujer se ve de algún modo en la dominación hecha o recibida por parte de la mujer, y el apego afectivo a una figura masculina.
★★★★☆DIA 31.01.19 11h51RESPONDER
N/A
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