A mulher deve ser submissa ao homem no casamento?

A mulher deve ser submissa ao homem no casamento?

Falarmos de submissão, hoje, pode ser perigoso se desconsiderarmos questões históricas e a Tradição da Igreja. Muita gente entende este termo com nuances burguesas, protestantes, kantianas e até marxistas. Deixe-me explicar: um lar cristão não é um local em que o homem é o patrão e a mulher a empregada que deve obedecê-lo. Este entendimento, de origem burguesa, gera a famosa “luta de classes” que Marx e Engels defenderam em “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, em que o casal briga pela relação de submissão e autoridade estabelecida.  Em um entendimento kantiano ou muito usado pelos protestantes, que consideram a Bíblia e a Moral ao pé da letra, a mulher seria inferior ao homem e deveria ser-lhe servil por isso. No entendimento verdadeiramente católico, a submissão também não é isso! Afinal, o que seria, então, a submissão defendida pela Igreja? Vamos entender, primeiro, algumas questões históricas e doutrinais sobre o tema.

Matrimônio: vocação ordinária

Pelo estudo da Patrística [1], diz-se que, no início, Adão reunia em si as potências feminina e masculina. Quando Deus cria Eva, retira a potência feminina. É por isso que a via ordinária de santidade é o matrimônio, isto é, a via comum e cuja maioria das pessoas são vocacionadas é esta em que se unem, novamente, as potências feminina e masculina, e ambos se tornam “uma só carne”.

1 – A Patrística refere-se ao conjunto de obras dos primeiros padres da Igreja – o Cristianismo primitivo. Dentre os nomes estudados, destaca-se, sobre este tema, em especial, trabalhos de S. Máximo Confessor, S. João Crisóstomo, S. Gregória de Nissa e Santo Agostinho.

A potência feminina se expressa nas características femininas, em que uma das principais capacidades é a de se vincular ao sofrimento alheio. A mulher que vê Cristo Crucificado se envolve de tal forma com o sofrimento Dele que se oferece em holocausto passivo, como o Santo Cordeiro.

Já a potência masculina se expressa, usualmente, não se vinculando ao sofrimento alheio, mas querendo vingar a injustiça do sofrimento. A disposição natural do homem o leva a uma atitude de violência contra algo, e nós católicos sabemos que esse algo é Satanás, “pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Efésios 6:12), ensina São Paulo.

Um exemplo de como o espírito masculino e feminino pode exercer a mesma atividade de formas totalmente opostas é o Jejum. A mulher, quando jejua, sofre na fraqueza da falta de alimento e oferece toda essa fraqueza para Deus, esperando que a Graça de Deus complete seu corpo frágil. O homem quando jejua exercita um treinamento de guerra ao ferir e dominar o seu corpo. Ele retira do seu corpo o conforto e, ao contrário da mulher, com o jejum torna-se mais forte, pois robustece seu corpo para a guerra – para o combate espiritual que trava contra as tentações.

Vejam quão distinto é o espírito masculino e feminino! Não são um inferior ao outro, mas distintos e complementares, pois, como já afirmado, a unidade entre as potências masculina e feminina esteve presente em Adão e Deus as deseja unidas novamente na Santidade e no produto do Matrimônio.

Submissão e Autoridade no Matrimônio

No sentido que nos aponta a Patrística – portanto a Tradição da Igreja – a união matrimonial reproduz em sua ordem interna os elementos centrais da Criação.  A humanidade deve ser submissa a Deus, e Deus delegou à humanidade a manutenção de toda criação e o desenvolvimento pleno das potencialidades desta, tanto através da geração de filhos, quanto através do cuidado e manipulação técnica da natureza e dos animais.

Submissão e Autoridade são símbolos do mesmo Cristo – Cristo Cordeiro, que se oferece em sacrifício, e Cristo Rei, que governa a humanidade. O homem expressa o símbolo da autoridade de Cristo Rei e a mulher a submissão de Cristo Cordeiro. Esta expressão se dá, como já mencionado, pelas características psicológicas, físicas e espirituais de ambos que, juntos, são complementares e necessários para a manutenção da Criação de Deus.

Portanto, a submissão não significa “obediência” nem “inferioridade” em relação ao esposo, e autoridade não significa “tirania” ou “domínio” sobre a esposa. Ambos os termos são simbólicos para expressar as diferentes e complementares naturezas feminina e masculina.

Em termos práticos, diferente da compreensão material que oferece o mundo, tanto a autoridade como a submissão significam “servidão”. Assim, compreende-se que ambos estão servindo a Deus através da família, para levar um ao outro e os filhos ao principal objetivo de estarmos neste mundo: o Céu.

A mulher mostra sua submissão – que significa serviço – quando sacrifica o próprio corpo para gerar uma nova vida, quando sacrifica o próprio sono para amamentar uma criança, quando sacrifica seus gostos e vontades para evitar brigas e discussões.

O homem mostra sua autoridade – que também significa serviço – quando sacrifica seu sono e descanso para prover as necessidades da família, quando sacrifica suas vontades e inclinações pessoais para dar mais conforto à mulher e aos filhos, quando sacrifica seu tempo para auxiliar a esposa e aliviar seu cansaço.

Se colocássemos uma hierarquia dentro do matrimônio, como é a compreensão protestante e marxista sobre esse tema, estaríamos ferindo a igualdade querida por Deus que existe entre um homem e uma mulher. Isto porque é somente com a união de um homem e de uma mulher que uma nova vida é gerada, ou seja, é com a cooperação de ambos que uma sociedade se constitui. Somos gerados a partir de um homem e de uma mulher, e diminuir o valor humano de um ou de outro implica em diminuir o valor de ambos.

A submissão mútua

Coroando este apanhado histórico e doutrinal, São João Paulo II, grande estudante da História da Igreja, Patrística e Tradição, ao escrever a Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, nos mostra que a submissão entre os cônjuges deve ser mútua. Não é o homem maior que a mulher nem a mulher maior que o homem: ambos estão juntos para se ajudarem. O papa também reafirma a questão da igualdade mencionada acima e mostra que o pecado é o que fere a igualdade querida por Deus para ambos os sexos:

“O contexto bíblico permite entendê-lo também no sentido de que a mulher deve «auxiliar» o homem — e que este, por sua vez, deve ajudar a ela — em primeiro lugar por causa do seu idêntico «ser pessoa humana»: isto, em certo sentido, permite a ambos descobrirem sempre de novo e confirmarem o sentido integral da própria humanidade. É fácil compreender que — neste plano fundamental — se trata de um «auxiliar» de ambas as partes e de um «auxiliar» recíproco. […] Quando lemos, pois, na descrição bíblica, as palavras dirigidas à mulher: «sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele te dominará» (Gên 3, 16), descobrimos uma ruptura e uma constante ameaça precisamente a respeito desta «unidade dos dois», que corresponde à dignidade da imagem e da semelhança de Deus em ambos. Tal ameaça resulta, porém, mais grave para a mulher. Com efeito, ao ser um dom sincero, e por isso ao viver «para» o outro, sucede o domínio: «ele te dominará». Este «domínio» indica a perturbação e a perda da estabilidade da igualdade fundamental, que na «unidade dos dois» possuem o homem e a mulher: e isto vem sobretudo em desfavor da mulher, porquanto somente a igualdade, resultante da dignidade de ambos como pessoas, pode dar às relações recíprocas o caráter de uma autêntica «communio personarum» (comunhão de pessoas). Se a violação desta igualdade, que é conjuntamente dom e direito que derivam do próprio Deus Criador, comporta um elemento em desfavor da mulher, ao mesmo tempo tal violação diminui também a verdadeira dignidade do homem 

 [...]

Tudo o que se disse até aqui sobre o comportamento de Cristo em relação às mulheres confirma e esclarece, no Espírito Santo, a verdade sobre a igualdade dos dois — homem e mulher. Deve-se falar de uma «paridade» essencial: dado que os dois — a mulher e o homem — são criados à imagem e semelhança de Deus, ambos são em igual medida susceptíveis de receber a dádiva da verdade divina e do amor no Espírito Santo [...] Esta unidade não anula a diversidade 

[...]

O «conhecimento» bíblico realiza-se segundo a verdade da pessoa só quando o dom recíproco de si não é deformado nem pelo desejo do homem de tornar-se «senhor» da sua esposa («ele te dominará»), nem pelo fechar-se da mulher nos próprios instintos («sentir-te-ás atraída para o teu marido»)

[...]

Por parte da mulher, este fato está ligado especialmente ao «dom sincero de si mesma». As palavras de Maria na Anunciação: «Faça-se em mim segundo a tua palavra», significam a disponibilidade da mulher ao dom de si e ao acolhimento da nova vida. Na maternidade da mulher, unida à paternidade do homem, reflete-se o mistério eterno do gerar que é próprio de Deus…

 [...]

A maternidade da mulher em sentido biofísico manifesta uma aparente passividade: o processo de formação de uma nova vida «produz-se» nela, no seu organismo; todavia, produz-se, envolvendo-o em profundidade. Ao mesmo tempo, a maternidade, no sentido pessoal-ético, exprime uma criatividade muito importante da mulher, da qual depende principalmente a própria humanidade do novo ser humano. Também neste sentido a maternidade da mulher manifesta uma chamada e um desafio especiais, que se dirigem ao homem e à sua paternidade.

[...]

É precisamente assim que age Cristo como esposo da Igreja, desejando que ela seja «resplandecente de glória, sem mancha, nem ruga» (Ef 5, 27). Pode-se dizer que aqui esteja plenamente assumido aquilo que constitui o «estilo» de Cristo no trato da mulher. O marido deveria fazer seus os elementos deste estilo em relação à sua esposa; e, analogamente, deveria fazer o homem a respeito da mulher, em todas as situações. Assim, os dois, homem e mulher, atuam o «dom sincero de si mesmos»! O autor da Carta aos Efésios não vê contradição alguma entre uma exortação formulada dessa maneira e a constatação de que «as mulheres sejam submissas aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher» (5, 22-23). O autor sabe que esta impostação, tão profundamente arraigada nos costumes e na tradição religiosa do tempo, deve ser entendida e atuada de um modo novo: como uma «submissão recíproca no temor de Cristo» (cf. Ef 5, 21); tanto mais que o marido é dito «cabeça» da mulher como Cristo é cabeça da Igreja; e ele o é para se entregar «a si mesmo por ela» (Ef 5, 25 ) e se entregar a si mesmo por ela é dar até a própria vida. Mas, enquanto na relação Cristo-Igreja a submissão é só da parte da Igreja, na relação marido-mulher a «submissão» não é unilateral, mas recíproca!”

 

Deus se revela aos poucos

É importante citar que Deus foi se revelando ao longo da História de acordo com o grau de preparação de Seu povo. O Deus do Antigo Testamento não se apresenta ainda como um Pai misericordioso, porque o coração das pessoas ainda não estava preparado para isso. Do mesmo modo, essas questões referentes ao homem e a mulher, ao matrimônio, e à submissão da mulher e autoridade do homem, são compreendidas com nuances diferentes por nós do que por outras épocas.

São João Paulo II nos apresentou, na Mulieris Dignitatem, que a escravidão demorou muito para ser extinta, exatamente porque o coração das pessoas era endurecido. Também a questão da submissão demorará para ser entendida de maneira correta, pois muitos ainda estão presos a interpretações materialistas e descontextualizadas do termo.

“As Cartas apostólicas são dirigidas a pessoas que vivem num ambiente que tem o mesmo modo de pensar e de agir. A «novidade» de Cristo é um fato: ela constitui o conteúdo inequívoco da mensagem evangélica e é fruto da redenção. Ao mesmo tempo, porém, a consciência de que no matrimônio existe a recíproca «submissão dos cônjuges no temor de Cristo», e não só a da mulher ao marido, deve abrir caminho nos corações e nas consciências, no comportamento e nos costumes. Este é um apelo que não cessa de urgir, desde então, as gerações que se sucedem, um apelo que os homens devem acolher sempre de novo. O apóstolo escreveu não só: «Em Cristo Jesus ... não há homem nem mulher», mas também: «não há escravo nem livre». E, contudo, quantas gerações tiveram que passar, até que esse princípio se realizasse na história da humanidade com a abolição do instituto da escravidão! E que dizer de tantas formas de escravidão, às quais estão sujeitos homens e povos, que ainda não desapareceram da cena da história? O desafio, porém, do «ethos» da redenção é claro e definitivo. Todas as razões a favor da «submissão» da mulher ao homem no matrimônio devem ser interpretadas no sentido de uma «submissão recíproca» de ambos «no temor de Cristo». A medida do verdadeiro amor esponsal encontra a sua fonte mais profunda em Cristo, que é o Esposo da Igreja, sua Esposa.”

 

O amor: o núcleo do matrimônio

O núcleo do matrimônio está no amor. O amor leva ao serviço, à doação, à mortificação de si próprio. A máxima expressão do amor é Deus. Deus é amor. Portanto, porque Deus nos ama, e porque queremos amá-Lo, é que a vocação acontece.

Não podemos pensar no matrimônio como uma luta de classes, em que um dos dois quer mandar e o outro tem de obedecer. São João Crisóstomo, que viveu entre os séculos IV e V e compõe o período patrístico, já afirmava que a sujeição é “viver em concórdia”, porque, do contrário, “tudo se revoluciona e confunde” [2].

2 – São João Crisóstomo: Comentários às Cartas de São Paulo/1. Coleção Patrística, Ed. Paulus. P. 421.

As diferenças entre os sexos servem para potencializar e complementar a vida em sociedade, não para dividi-la. Homens e Mulheres deveriam funcionar como engrenagens que se encaixam para que uma máquina funcione. Isto não significa que um é melhor que o outro, ou que há graus de importância entre ambos. Há uma igualdade de valor intrínseco, ao passo que há uma desigualdade de funções e características. Temos a noção equivocada de que “desigualdade” é sinônimo de “desvantagem”. Nem sempre ser desigual é ter desvantagem. No caso de homens e mulheres, ser desigual é apenas ser diferente, e uma diferença que auxilia o outro.

Ao analisar as diferenças biológicas, psicológicas e espirituais, percebemos que todas foram projetadas por Deus para uma complementariedade entre os sexos. Todavia, o pecado original deturpou a natureza humana, e muitas características femininas e masculinas tornaram-se enegrecidas por vícios.

Edith Stein afirmava que quanto mais próximo da graça de Deus um casal estiver, mais eles terão superado o fardo do pecado original. A busca por virtudes, uma vida interior fortalecida - orações diárias e bem feitas, pequenas mortificações, a frequente busca pelos sacramentos (especialmente a Eucaristia e a Confissão) - e um apostolado diário de exemplo e caridade para com os que estão ao nosso redor, são meios eficazes de se aproximar de um estado de graça, muito próximo do Céu. Quando nos acostumamos a sacrificar nossas pequenas vontades (deixar de comer sobremesa ou evitar um copo de água em temperatura gelada num dia de calor, por exemplo), tendemos a mortificar grandes impulsos. Aos poucos, deixamos de olhar para nós e passamos a olhar mais para o outro. A vida interior fortalece nosso espírito para que não sigamos apenas os apelos de nossa carne. O apostolado diário coloca em prática o que já dizia São Francisco de Assis: “Evangelizai a todo momento. Se necessário use palavras”.

Quando homens e mulheres se aproximam de Deus, menores são seus vícios, e maior é a harmonia e integração do casal. Se esta integração se mostra efetiva na família, que é uma sociedade em miniatura, também a sociedade ampla comportará e requer homens e mulheres em diversas funções e cargos, contribuindo com suas diversidades.

O maior exemplo de doação que já existiu no mundo está na família de Nazaré: Jesus, Maria e José. Cada um deles exerceu suas funções de pai, mãe e filho baseados no amor. Cada refeição preparada por Nossa Senhora era feita com amor e capricho para que seu marido e filho se alegrassem com o sabor. Cada canto de cada cômodo da casa era limpo com carinho, pensando na felicidade que José e Jesus encontrariam ao se depararem com tamanho cuidado. José fazia cada móvel do melhor modo que conseguisse, para que seus clientes ficassem satisfeitos, e Maria tivesse orgulho dele. Jesus, o Santo Deus, mesmo sendo Deus, obedecia aos pais, duas criaturas! Às vezes imagino que lindo era o final de tarde na casa da Sagrada Família. Imagino Maria, bem cansada de um dia de trabalho no lar e de cuidado do pequeno Jesus, e José, por amor, mesmo depois de uma longa jornada de trabalho como marceneiro, querendo arrumar a louça do jantar para que ela pudesse descansar um pouco. Imagino Jesus, pequenino e bochechudo, querendo ajudar o papai a fazer cadeiras e a mamãe a arrumar a casa. Imagino Nossa Senhora fazendo a sobremesa preferida de São José e do menino Jesus! Imagino a Sagrada Família se reunindo diariamente para rezar!

Por que não você e eu termos uma família assim? Por que não crescermos em nossa dimensão espiritual para o amor? Que lindo é ser pleno de graças! Que grande maravilha é viver em harmonia e sem brigas! Sim, é possível. Que a graça restabeleça aquilo que o vício deturpou.

 

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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Ana Vieira

Ana Vieira

Ah que bonito. Me fez um bem enorme ler isso. Obrigada.
★★★★★DIA 27.10.18 10h12RESPONDER
Letícia B
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