A verdadeira dignidade da mulher está no olhar de Deus

A verdadeira dignidade da mulher está no olhar de Deus

O mundo clama para que as mulheres voltem a viver conforme sua essencial vocação, missão e dignidade. O mundo atual, vai dizer Jo Croissant, “acha-se totalmente desestabilizado porque a mulher não sabe mais quem ela é”. A mulher é aquela que pode transformar todos os ambientes onde estiver: o lar, o trabalho, a escola, a comunidade, o grupo da paróquia, a sociedade, se ela conhece, reconhece e vive segundo seu genuíno valor e sua verdadeira identidade. Ela tem um papel significativo a desempenhar. E reencontrando seu lugar, tudo o mais se ordena.

Eu, como tantas amigas, colegas, conhecidas, tantas mulheres, todas temos, em geral, diversos compromissos diários com a família, os estudos, o trabalho (seja no lar e/ou fora dele), as atividades no grupo da paróquia, no apostolado, a visita a alguém, o lanche no fim do dia marcado com as amigas para papear sobre a vida e chorar ou sorrir com elas (faz parte), entre outras atividades. E fico impressionada como Deus criou essas criaturas tão fortes, batalhadoras, capazes de executar mais de uma atividade ao mesmo tempo, que se desdobram no dia a dia para realizar tudo que precisam.

O coração de uma mulher esconde mistérios que só Deus consegue penetrar, conhecer e curar.

Deus criou a mulher porque percebeu a solidão do homem, não havia ninguém com quem ele pudesse compartilhar a vida, ser um com ele. O homem se viu só, olhou para Deus, e o Pai, que é Amor, desejou que a criatura humana vivesse à imagem da comunhão de amor da Santíssima Trindade. “O homem é uma pessoa, em igual medida o homem e a mulher: os dois, na verdade, foram criados à imagem e semelhança do Deus pessoal”. E, assim, o Senhor Deus criou a mulher. Nesse contexto,  São João Paulo II, na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, assim discorre:

Penetrando com o pensamento no conjunto da descrição de Gênesis 2, 18-25 e interpretando-a à luz da verdade sobre a imagem e semelhança de Deus (cf. Gên 1, 26-27), podemos compreender ainda mais plenamente em que consiste o caráter pessoal do ser humano, graças ao qual ambos — o homem e a mulher — são semelhantes a Deus. Cada homem, com efeito, é à imagem de Deus enquanto criatura racional e livre, capaz de conhecê-lo e de amá-lo. Lemos também que o homem não pode existir « só » (cf. Gên 2, 18); pode existir somente como « unidade dos dois », e portanto em relação a uma outra pessoa humana. Trata-se de uma relação recíproca: do homem para com a mulher e da mulher para com o homem. Ser pessoa à imagem e semelhança de Deus comporta, pois, também um existir em relação, em referência ao outro « eu ». Isto preludia a definitiva autorevelação de Deus uno e trino: unidade viva na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

(...) Deus, que se dá a conhecer aos homens por meio de Cristo, é unidade na Trindade: é unidade na comunhão. Desse modo lança-se uma nova luz também sobre a semelhança e imagem de Deus no homem, de que fala o Livro do Gênesis. O fato de o homem, criado como homem e mulher, ser imagem de Deus não significa apenas que cada um deles, individualmente, é semelhante a Deus, enquanto ser racional e livre; significa também que o homem e a mulher, criados como « unidade dos dois » na comum humanidade, são chamados a viver uma comunhão de amor e, desse modo, a refletir no mundo a comunhão de amor que é própria de Deus, pela qual as três Pessoas se amam no íntimo mistério da única vida divina. O Pai, o Filho e o Espírito Santo, um só Deus pela unidade da divindade, existem como pessoas pelas imperscrutáveis relações divinas. Somente assim se torna compreensível a verdade que Deus em si mesmo é amor (cf. 1 Jo 4, 16). (...) Na «unidade dos dois», o homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir « um ao lado do outro » ou «juntos», mas também a existir reciprocamente «um para outro».

Desse modo, é fácil perceber a igual dignidade do homem e da mulher, criados à imagem e semelhança de Deus, e evitar cair no engano tão difundido de que a mulher é menos valorizada na Igreja, de que sua dignidade é desprezada. Talvez esse pensamento equivocado venha de interpretações descuidadas, superficiais, parciais ou descontextualizadas. Tanto o homem como a mulher, a coroa da criação, foram criados, à imagem e semelhança de Deus, para revelar ao mundo o Seu amor. Ou seja, tanto um quanto o outro têm a mesma dignidade diante de Deus.

Porém, ao longo dos tempos, temos visto ou presenciado muitas situações e relatos de maus tratos, depreciação, violência, coisificação da mulher, o que nos causa tristeza e indignação, e fere o coração de Deus. A esse respeito, assim nos fala Alice Von Hildebrand:

Quando assumimos que as mulheres foram constantemente menosprezadas, humilhadas e depreciadas ao longo da história da humanidade, precisamos ter em mente que os culpados sempre foram alguns homens em particular, manchados pelo pecado original e ansiosos por se colocarem acima dos outros, muitas vezes para compensar sua própria mediocridade. Uma coisa é certa: a Igreja Católica, que elevou as mulheres a uma dignidade extraordinária, é e sempre foi um bode expiatório muito conveniente para seus detratores. É psicologicamente satisfatório encontrar uma instituição na qual pôr a culpa por todos os males que afligem o mundo, enquanto o acusador se enrola no manto confortável da irrepreensibilidade! Pessoas ignorantes recusam-se a distinguir entre a santidade da Igreja como esposa de Cristo e sagrada mestra e as ações lamentáveis de muitos de seus filhos rebeldes e desobedientes. (...)

O menosprezo da mulher é claramente uma triste conseqüência do pecado original, que subverteu a hierarquia de valores. Ao desejarem se tornar iguais a Deus (sem Deus), Adão e Eva estavam, na verdade, revoltando-se contra sua condição de criaturas, ou seja, contra sua dependência total de Deus. Ele era o criador; eles estavam sujeitos a Ele. O pecado original foi um pecado de orgulho, de desobediência, de irreverência e de revolta metafísica que levou a uma inversão da hierarquia de valores. Ao terem a arrogância de se declararem iguais a Deus, Adão e Eva declararam guerra a essa hierarquia. E, uma vez quebrado o equilíbrio, sobreveio uma série de conseqüências particularmente ominosas para as mulheres.

No entanto, isso não é sonho de Deus para o homem e a mulher. Não é esse o projeto de Deus para a humanidade. O mundo, infelizmente, tem ultrajado o caráter feminino com não poucas ideologias supostamente a favor da mulher, mas, ao contrário, só a rebaixam, descaracterizam sua real essência e valor.

Porém, qual criatura Deus mais elevou e cobriu de todas as graças senão uma Mulher, a Santíssima Virgem. “Maria — a mulher da Bíblia — é a expressão mais acabada desta dignidade e desta vocação. De fato, o ser humano, homem ou mulher, criado à imagem e semelhança de Deus, não pode realizar-se fora da dimensão desta imagem e semelhança”.

Oportuno se faz mencionar também aquelas mulheres chamadas doutoras pela Igreja, como Teresa de Ávila, Catarina de Sena, entre outras. E, ainda, quantas santas que foram casadas, mães e profissionais, como Santa Zélia, cujo empreendimento foi tão bem-sucedido que seu esposo, São Luís Martin, largou seu ofício para trabalhar com ela. E, assim, tocaram juntos os negócios, sem descuidar da família e, principalmente, da educação das filhas. É preciso citar, também, Santa Gianna Beretta Molla. Ela que foi esposa, mãe, médica e ainda encontrava tempo para seu apostolado na Ação Católica. Um exemplo bem atual é o testemunho de vida da Serva de Deus Chiara Corbella Petrillo, esposa, estudante e mãe, que se empenhava em cultivar sua espiritualidade pessoal e conjugal. E como não falar de Santa Mônica, uma mulher que gerou seu filho duas vezes. Santo Agostinho, primeiro foi gerado na carne e dado à luz e depois foi gerado na oração de sua mãe, pela sua conversão, para que, ao fim de sua vida terrena, o filho alcançasse a vida eterna, chegasse à pátria dos eleitos. E quantas mães, assim como Santa Mônica, também geram seus filhos duas vezes, para esta vida, dando à luz, e com orações, pela conversão e santificação deles, a fim de alcançarem a vida eterna. São mulheres extraordinárias, confiantes no amor de Deus Pai, que jamais se deixa vencer em generosidade. Mulheres que se realizaram e viveram plenamente sua missão porque plenamente viveram o projeto de Deus para suas vidas, souberam, guiadas pelo exemplo da Santíssima Virgem, ser dócil ao Senhor. E, assim, nelas, Ele tudo realizou, tudo realiza.

A verdadeira identidade, genuína vocação, missão e dignidade da mulher estão em viver e ser conforme aquilo que Deus sonhou para cada uma. A mais alta dignidade da mulher está em ser aquilo que Deus pensou para ela, está em Deus, o que confirma São João Paulo II: “A dignidade de todo ser humano e a vocação que lhe corresponde encontram a sua medida definitiva na união com Deus”.

A mulher precisa se enxergar como Deus a vê, e “o olhar de Deus é esperança. (...) O olhar de Deus nos cura. Somente ele pode penetrar em nossa intimidade sem nos magoar. Desnudar nossa pobreza sem nos desesperar. É seu amor que nos salva”, vai dizer Jo Croissant. O olhar de Deus nos cura na medida em que nos enxerga como filha amada, a alegria do Pai, devolve-nos a dignidade, cura, enfaixa as feridas e nos recorda e confirma nossa vocação, nosso valor, nos revela que fomos feitas para amar e para ser amadas, cuidadas, tratadas com zelo e carinho.

A mulher é aquela capaz de harmonizar, acalmar e encher de ternura os ambientes, ela é a alma da casa. Mas também de acolher e consolar os corações, de dar a vida. Quanto mais próxima e íntima de Deus, quanto mais dócil ao Senhor, quanto mais unida a Deus mais uma mulher vive e realiza no mundo o belo projeto de Deus para sua vida. Assim, se ela reencontrar seu lugar, tudo se ordenará para a felicidade de todos.

Dayane Negreiros

Entusiasta e divulgadora das catequeses sobre o amor humano no plano divino, de São João Paulo II, a Teologia do Corpo. Filha e devota de Nossa Senhora de Guadalupe. Pró-vida. Membro da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Brasília.

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