Adoção, filho gerado no coração

Adoção, filho gerado no coração

No dia 25 de maio, comemoramos o dia nacional da adoção. E, por ocasião dessa data celebrada neste mês, gostaria de convidá-los para voltarmos nosso olhar e nossa atenção para esse assunto. Pensar em filho é pensar em família. Mas, infelizmente, a realidade de muitas crianças e adolescentes à espera de um lar, de uma família, faz-nos deparar com uma situação delicada: muitas crianças e adolescentes vivem hoje em instituições de acolhimento de todo país à espera de uma família.

A boa notícia é que muita gente deseja adotar. Na verdade, o número de pessoas interessadas em adotar é maior do que o número de crianças e adolescentes em instituições de acolhimento. Esse cenário à primeira vista pode parecer ideal, mas a conta não fecha. E a razão para isso é que o perfil desejado para adoção pela maioria das pessoas interessadas é de criança pequena, de até 3 anos de idade, do sexo feminino e branca. Ou seja, crianças maiores, grupos de irmãos, crianças com alguma enfermidade ou deficiência, por exemplo, tendem a permanecer mais tempo à espera de uma família. Um tempo bem longo muitas vezes. E ficamos a pensar no que fazer para reverter essa realidade.

Falar em adoção é tão complexo quanto delicado. Exige que se atente para diferentes e importantes fatores que precisam ser destacados e levados em conta. Vou tentar apresentar alguns deles.

Adoção dever ser uma medida excepcional.

Em primeiro lugar, em relação a esse tema, deve-se considerar a adoção como medida excepcional. Todos os esforços devem ser feitos para resguardar o direito da criança de viver com seus genitores. Assim, fortalecer as famílias, os vínculos familiares, identificar as principais dificuldades e problemas da família e tentar ajudá-la nisso é o que deveria ser feito antes de tudo. Além dos genitores, considerando que eles não possam permanecer com seus filhos de forma alguma, deve-se buscar a família extensa e verificar a possibilidade de ela permanecer com essa criança ou adolescente.

Filho é um dom a ser recebido e não um direito a ser exigido.

Em regra, quando um casal se casa o faz com o desejo de formar família, de viverem juntos um projeto de vida a dois e de receberem os filhos frutos do amor conjugal. Porém, em razão de diversos motivos, pode acontecer de o casal não conseguir gerar filhos biologicamente. Hoje em dia muitos casais enfrentam, por exemplo, a dor da infertilidade, que é um grande pesar inquestionavelmente. Entretanto, é preciso ter a consciência de que filhos são dons a serem recebidos e não direitos a serem exigidos, ou meio de compensação emocional, afetiva. Ou seja, apesar do imenso desejo de se ter filhos, é necessário ter a consciência de que eles são dons, presentes, e não um direito.

A partir daí, podemos enxergar a questão da adoção com o olhar correto: de que se faz necessário encontrar famílias para as crianças que estão em instituições de acolhimento, e não encontrar crianças para as famílias. Ou seja, o foco é (e dever ser sempre) a criança e não o contrário.

Adoção não é caridade.

É necessário se ter a real dimensão e importância da adoção de um filho. Adoção jamais deve ser vista como um ato de caridade, logo não se pode adotar uma criança ou adolescente com a motivação de ajudar uma pessoa que precisa. Adoção não é isso.

Adoção tardia.

 Além disso, já se falou aqui de uma questão chave em relação ao tempo de espera das crianças e adolescentes por uma família nas instituições de acolhimento. O perfil desejado pelos futuros pais não condiz com a realidade do perfil de tantas crianças e adolescentes à espera de uma família. De acordo com a Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal (VIJ-DF), por exemplo, “a maior parte das cerca de 130 crianças e adolescentes que aguardam adoção no Distrito Federal continuam sem um lar porque não se enquadram no perfil pretendido pelas 543 famílias habilitadas atualmente no cadastro local, em razão da idade, por fazerem parte de grupos de irmãos ou por terem problemas de saúde”1. O que revela a necessidade de se sensibilizar as pessoas para a adoção tardia (crianças maiores e adolescentes) mas também para a adoção de grupos de irmãos e de crianças com alguma enfermidade ou deficiência.

Nesse sentido, as Varas da Infância e Juventude em todo país têm se mobilizado e feito ações de sensibilização para a adoção tardia, a exemplo do projeto realizado em Pernambuco, uma parceira do time de futebol Sport Club Recife com o Judiciário local. A campanha Adote um Pequeno Torcedor levou as crianças maiores e os adolescentes aptos para a adoção aos estádios, mostrando a todos os rostinhos daqueles que esperam uma família. A parceria deu tão certo que inspirou outros times do país a se engajarem nessa importante causa.

Aqui no Distrito Federal também existe um projeto, recém-lançado pela VIJ-DF, voltado para a adoção tardia. “Para aumentar as chances de adoção desses meninos e meninas, a VIJ-DF criou o projeto Em busca de um lar. O projeto consiste na busca ativa de pretendentes à adoção de crianças e adolescentes cujo perfil é preterido pelos adotantes do cadastro da Justiça Infantojuvenil. Para tanto, a Seção de Comunicação Institucional da VIJ-DF está produzindo vídeos e fotos das crianças e adolescentes inseridos no projeto para divulgação em mídias sociais, com o acompanhamento da Seção de Colocação em Família Substituta, responsável pelos estudos psicossociais dos processos de adoção e de habilitação de interessados em adotar, pelo acolhimento e orientação dos pretendentes à adoção, bem como pela coordenação da aproximação e do estágio de convivência entre adotandos e adotantes, quando deferido o pedido pelo juiz. Os primeiros vídeos de divulgação já estão sendo apresentados nas turmas de preparação à adoção da VIJ-DF e às famílias que queiram conhecer os meninos e as meninas que tanto almejam ser acolhidos com amor e conquistar um verdadeiro lar”.

Entrega legal para adoção.

Um outro aspecto em relação à adoção que deve ser destacado é a entrega legal para adoção de bebês cujas mães assim o queiram. Vale mencionar que a entrega é diferente de abandono, que é algo legal, com amparo na lei, sendo resguardado, inclusive, o sigilo do processo se a mãe assim o solicitar. Portanto, caso uma mulher grávida tenha decidido não ficar com o bebê, ela tem a opção da entrega legal.

No Distrito Federal e em alguns poucos estados da Federação, inclusive, já há legislação local que obriga a afixação de placas adesivas nas unidades públicas e privadas de saúde para informar sobre a entrega legal dos bebês para a adoção. É oportuno dizer que já existe projeto de lei no Congresso Nacional nos mesmos moldes, aguardando tramitação e aprovação. Uma lei nesse sentido, além de informar as mães e os profissionais de saúde, pode evitar casos de adoção ilegal, rejeição da gravidez ou abandono de crianças.

 

Por fim, adotar é acolher uma vida, uma pessoa, não gerada no próprio ventre, mas gerada no coração, esperada, querida e desejada. E, assim como os filhos biológicos, que são pessoas únicas e irrepetíveis, cada uma com seu jeitinho, adotar é estar aberto para receber no coração, no lar e na família uma pessoa única, um dom de Deus, um presente que deve ser acolhido, independente se com 1 ano de vida, se já com irmãos biológicos ou com alguma enfermidade ou deficiência que exija dos pais uma dose especial de afeto, atenção e cuidado. No fim das contas, o que importa é acolher, amparar, estar disposto a se doar por inteiro e amar.

 

1. VIJ-DF lança projeto para incentivar adoção de crianças e adolescentes. (https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/noticias/2019/maio/vij-df-lanca-projeto-para-incentivar-adocao-de-criancas-e-adolescentes)

 

 

Dayane Negreiros

Entusiasta e divulgadora das catequeses sobre o amor humano no plano divino, de São João Paulo II, a Teologia do Corpo. Filha e devota de Nossa Senhora de Guadalupe. Pró-vida. Membro da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Brasília.

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