Celebridades católicas e a vida real

Celebridades católicas e a vida real

Desde o meu texto "Porque me tornei uma católica não confessional" tenho passado por muitas experiências interessantes em minha vida. Resolvi aceitar mais convites para sair com as pessoas, passei a criar laços mais profundos de amizade e me abrir a conhecer pessoas diferentes, com opiniões diferentes e visões de mundo diferentes das minhas. Fui descobrindo pessoas que não eram católicas e que, muitas vezes, agiam melhor que muitos de meus amigos católicos. Pessoas acolheadoras, de bom coração, divertidas, alegres. Por outro lado, conheci também pessoas com histórias de vida complicadas, muitas dores, sofrimentos, abandonos e abusos. Marcas que culminaram em uma vida desregrada, superficial e confusa. As pessoas muito boas eu pensava: "elas estão a um passo de serem católicos muito melhores que eu". As pessoas confusas eu ponderava: "o que será que eu poderia fazer por elas?". E assim seguiram meus meses e anos. 

Neste tempo, em meio a conversas de sexta a noite em barzinhos e pubs, aconselhei amigas sobre castidade, vida espiritual, relacionamentos, situações de família. Quando não era possível aconselhar, a intimidade criada permitia que eu comentasse sobre mim, sobre o que eu seguia na minha vida - tudo com muito amor, respeito e humildade. Antes disso parecia que eu não estava vivendo "a vida real". Parecia que eu vivia na bolha das redes sociais em que eu era uma boa católica de facebook ou instagram. Não assino meus textos com meu sobrenome exatamente para não me acharem nas redes sociais. Não é que eu viva uma fé aqui e outra por aí; é que muita gente que só me conhece virtualmente, que nunca me viu pessoalmente, não sabe de verdade como sou, o que penso, como vivo. Muitas pessoas que me conhecem da época da Rádio Vox e me seguem se escandalizaram com meu "novo estilo de vida": nada de fotos de santos e frases católicas, mas várias fotos de viagens com amigos e saídas de final de semana com um copo de cerveja na mão. Vieram me perguntar se eu ainda era católica!! Perdi muitos seguidores e ganhei vários conselhos não-solicitados, "toques" cheios de carinho de pessoas que se importavam comigo, mas estavam presas a uma espiritualidade diferente da que eu estava vivendo no momento.

Afinal, o que eu estou vivendo no momento?

Ver tanta gente diferente de mim - meninas que acham normal sexo cada semana com caras diferentes, pessoas que não acreditam em Deus, pessoas que usam drogas porque desacreditam de si mesmas - me fez não querer escrever mais para quem já era convertido. Quando você vê uma amiga ou um amigo em situações assim, você pensa: "E o povo discutindo se calça é ou não pecado... Por que ainda fico nessas briguinhas se tem gente do meu lado a um passo do inferno?". Desde 2014 sendo acompanhada por formações e direções espirituais mensais, missa e terço diários, retiros e leituras católicas, fui percebendo que Deus veio para todos e meu chamado, hoje, é principalmente para estes que não comungam da mesma fé que temos.

Não vou me aproximar destas pessoas postando todo dia no instagram uma frase de santo. Não vou conseguir o afeto delas mostrando a todo momento minha fé. 

Eu vou conseguir a confiança, a intimidade de uma amizade sincera, se eu for uma jovem "normal", e ali, no meio de uma conversa casual, dar um bom conselho, dar meu testemunho, convidar a pessoa para uma direção espiritual ou um retiro. Mesmo que não consiga aproximar essa pessoa de Deus, já não vale alguém bem formado dando um bom conselho num lugar que só teríamos maus aconselhamentos?

Tudo isto, este "meu novo estilo", entrou em choque com o estilo de vida e evangelização de outros católicos, "celebridades", famosos nas redes sociais por falarem explicitamente da fé. Eu parecia que tinha virado "do mundo" (como se Deus não nos quisesse assim). Os outros, esses sim, são exemplares, sem medo de falar como vivem, de tirar dúvidas sobre a fé, de explicitamente se mostrarem católicos.

Não critico as pessoas católicas "famosas". São pessoas ótimas, com boa intenção, que sofrem pelo exemplo que dão e que muito ajudam outros na fé. Eu já passei por isso! Mas gostaria que me entendessem e não me criticassem pela minha forma de viver a fé. Aparentemente sou uma jovem normal nas redes sociais: não acho que seja uma pessoa com algo a acrescentar a alguém. Meu apostolado está nas confidências que troco no dia a dia com as pessoas, em quem atinjo através da amizade. Por dentro, minha fé está até mais forte do que em outras épocas: missa diária, terço, leitura espiritual, confissão e direção mensais (às vezes quinzenais).

Será que eu precisava escrever tudo isso? Explicitar como estou vivendo minha fé para evitar mal entendidos? Gostaria de não fazê-lo, mas senti a necessidade de assim proceder.

A Letícia continua católica, mais até do que em outras épocas. Estou tentando viver minha fé na vida real, me esforçando para amar o diferente e para ser santa com rosto alegre e que passa despercebida no mundo. É o que sou chamada no momento. Pode ser que algum texto meu pulule por aqui de vez em quando, mas não vou mais me dedicar aqui com a mesma frequência de antes. Há outras colaboradoras melhores para alimentar o blog - desamparados vocês não ficarão :-)

Não estou falando para fazerem o que eu faço em termos de espiritualidade. Nem todo mundo é chamado a isso! A Igreja é múltipla e há lugares para todos os tipos de evangelização. A minha é esta. Rezem por mim. E mais do que tudo, mais do que parecer bons católicos, sejam bons católicos, principalmente para aqueles que vivem ao redor de vocês. Isso foi o meu principal aprendizado nestes últimos anos...

 

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OBS: É claro que há coisas erradas e pecaminosas, e eu sei muito bem quais são elas. Mas há pontos neutros na fé: diversões, bebidas, conversas... Tudo depende da ocasião, quantidade, momento, intenção... Não me alongo nisso. Quem quiser, que se debruce sobre o Catecismo, leia "A fé explicada", de Leo Trese, e "O valor divino do humano", de Jesús Urtega. Aqui no blog também temos formações em total acordo com a doutrina e aprovadas por celibatários e sacerdotes.

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Queres ser mártir. - Eu te indicarei um martírio ao alcance da mão: ser apóstolo e não te dizeres apóstolo; ser missionário - com missão - e não te dizeres missionário; ser homem de Deus e pareceres homem do mundo. Passar oculto!
(Caminho n. 848, São Josemaria Escrivá)

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog

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Já temos 9 comentário(s). DEIXE O SEU :)
Ingrid Queiroz

Ingrid Queiroz

Leticia,sentirei falta dos seus textos...
Me identifiquei com várias reflexões suas partilhadas por aqui.
Talvez você não tenha a dimensão de quantas pessoas você já orientou e ajudou com os seus escritos.
Mas,super te entendo.
Eu também estou em um momento de descobrir o meu papel como católica na Igreja e no mundo.
Eu já me senti um tanto acovardada em relação a minha fé.
Depois eu passei por fases em que hoje eu penso que fiquei um tanto chata.
Aquele pensamento de querer converter todo mundo ,muitas vezes na marra.
Hoje eu estou buscando esse equilibrio de ser da Igreja e ser testemunho do amor de Deus no mundo,mas não cair em contradições.
Eu fico feliz por voçê já ter encontrado isso na sua vida.
Que Deus te abençoe sempre!
★★★★★DIA 20.08.19 17h31RESPONDER
Letícia B
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Letícia B

Letícia B

Que gracinha! Obrigada, minha flor! Seguimos na busca pela santidade!


Precisando, me procure!


Logo sai umas pesquisas minhas do mestrado por aí... Acho que vai ajudar muita gente!


bjo grande

★★★★★DIA 20.08.19 17h33RESPONDER
Ingrid Queiroz
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Giovana M.

Giovana M.

Ah, Letícia... Como tenho pensado nisso! O interessante é que de tanto ser influenciada por esses católicos 100% confessionais o tempo todo, cheguei a pensar que não ser assim é não ser santo. Estudo em uma Universidade Federal e vejo que a evangelização só pode atingir o coração das pessoas, quando o Cristianismo passa a fazer sentido no simples do cotidiano. A "imagem de católico(a)" apenas repele aquele que mais precisam descobrir a beleza do Evangelho. Deus te abençoe nesse processo de amadurecimento humano e espiritual! Obrigada por partilhar um pouco conosco!
★★★★★DIA 19.08.19 20h56RESPONDER
Letícia B
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Letícia B

Letícia B

Exatamente, Gi! Quando a gente vive a "vida real" a gente vê de verdade o que funciona e o que não funciona...


Grande abraço!

★★★★★DIA 20.08.19 17h32RESPONDER
N/A
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Maria Rosa

Maria Rosa

Gostaria de ser menos anti-social para dar esse testemunho como você, mas por enquanto minha fobia social não permite, não sei como mudar isso. Mas muito bom, uma lição de humildade.
*Também adoro tomar uma cervejinha bem de boa rsrs*
★★★★★DIA 14.08.19 22h50RESPONDER
Letícia B
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Letícia B

Letícia B

rsrsrs Tente se abrir aos poucos! Eu também não gostava de sair, mas comecei a fazer isso como mortificação rsrs


muito obrigada pelas palavras! :)

★★★★★DIA 15.08.19 14h31RESPONDER
N/A
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Alexandre Ferreira

Alexandre Ferreira

Talvez você se interesse por alguns pensamentos que tenho e gostaria de compartilhar.
★★★★★DIA 13.08.19 00h54RESPONDER
Letícia B
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Mariana Oliveira

Mariana Oliveira

Deus a abençoe neste novo, e a conduza rumo à Vontade d'Ele. Que você derrame seus melhores perfumes!
★★★★★DIA 11.08.19 22h39RESPONDER
Letícia B
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Letícia B

Letícia B

Que linda! Amém, Mari!

★★★★★DIA 12.08.19 19h54RESPONDER
N/A
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