Direita, Esquerda e o caso de Tatiane Spitzner

Direita, Esquerda e o caso de Tatiane Spitzner

O caso da advogada Tatiane Spitzner supostamente morta pelo marido aconteceu há pouco mais de uma semana, mas só agora tive tempo e oportunidade de ver as imagens e refletir sobre o assunto. Vi muita gente comentando por aí sobre este crime... Alguns negando que tenha sido um feminicídio (crime contra mulher por sua condição de mulher), outros brigando com as feministas porque estas afirmam que todo homem é um potencial agressor, outros ainda defendendo o marido-possível assassino (!!!).

Como sempre digo, “nem muito ao mar, nem muito à terra”. Em primeiro lugar, é preciso ter cautela no que afirmamos e defendemos. Não é porque algo é defendido por grupos feministas que é errado. Como vocês sabem, há um certo tempo venho tentando adotar uma postura não confessional (e os resultados têm sido muito bons!). Dias atrás causei um pouco de choque em alguns seguidores e colegas do instagram (e até amigos do facebook) por compartilhar imagens de um grupo feminista pró-vida. Sei que foi um pouco chato para alguns, mas Deus sabe das minhas intenções e de que fiz isso porque tenho muitas amigas feministas que pensam que para “defender as mulheres” é preciso comprar o pacote inteiro do feminismo. Daí que quis mostrar, muito delicadamente, que não, que existem grupos feministas pró vida e que defender a vida é algo primordial para quem quer “defender as mulheres”. O fato é que nessas épocas de tentativa de legalização do aborto, apesar das diferenças, lutamos por uma causa comum, independentemente se o sujeito é ateu, espírita, feminista ou LGBT. O que importa é que esteja ao nosso lado sendo contra o aborto e a favor da vida. As diferenças deixamos para discutir em outra ocasião. Enfim, não é sobre isto o texto de hoje; só comentei este acontecimento para afirmar que nem sempre o que um grupo com ideias contrárias às nossas afirma é inteiramente errado e mentira. No caso do assassinato de Tatiane Spitzner realmente houve um crime, realmente houve um feminicídio e realmente o marido estava errado (muito errado!).

Ué, e o que isso tem a ver com direita e esquerda?

Porque saiu uma notícia mostrando que o marido de Tatiane, Luis Felipe, era simpatizante da direita, do liberalismo e do Bolsonaro. Logo, muitas pessoas começaram a associar “direita” e “conservadorismo” com “hipocrisia” e “maus tratos à minorias”. Estas pessoas estão erradas? Em partes não! E vou explicar melhor minha posição...

Faz tempo que comento aqui no blog e no instagram que não existe essa de católico ser “de direita” ou “de esquerda”. Católico é católico, uai! A divisão política entre direita e esquerda vem da Revolução Francesa. Ali chamaram os que compunham o lado direito da Assembleia Constituinte (girondinos) de “direita e conservadores”, pois defendiam poucas mudanças no poder. Os que estavam do lado esquerdo eram os jacobinos e eram chamados de “esquerda e revolucionários”, pois queriam mudanças radicais. A Igreja Católica não é “direita” nem de “esquerda” porque foi fundada há mais de 2000 anos por Jesus Cristo e não se alinha a partidarismos. Nossa Igreja defende valores que podem ser considerados para alguns de “direita” – como o direito à propriedade privada – ou de “esquerda” – como a opção preferencial pelo pobres e marginalizados

Todavia, há valores defendidos pela Igreja – como o direito à vida, ser contra o aborto/eutanásia, contra uniões homossexuais, contra contracepção – que pessoas e partidos de direita e esquerda propagam e defendem. É por isso que a Igreja não pode ser de direita nem de esquerda. Ela é Católica Apostólica Romana! Já se posicionou contra o comunismo (Encíclicas Quadragesimo Anno e Divinis Redemptoris, Papa Pio XI) e também contra o capitalismo selvagem (Encíclica Centesimus Annus, João Paulo II). A Igreja defende uma economia justa, que reconhece a verdadeira dignidade do ser humano, que paga ao trabalhador um salário justo e suficiente para ele sustentar sua família, que esteja ordenada ao serviço das pessoas e que seja exercida dentro dos limites da ordem moral. Por exemplo, é considerado roubo e pecado grave pagar salários injustos aos funcionários (CIC 2409, 2434), assim como também é considerado pecado grave gastos excessivos ou desperdício de bens (CIC 2409).

Muitos católicos, cegos diante de partidos e posições políticas, acabam por adotar em suas vidas posturas concernentes a grupos “de direita” ou “de esquerda”, ou, pior, de “extrema direita” ou "extrema esquerda". Já vi muitos homens, tomados como “bons católicos”, defendendo a ideia de "extrema direita" que somente a mulher deveria fazer serviços de casa, ou que somente a mulher deveria cuidar dos filhos. Além destas opiniões não estarem de acordo com os ensinamentos do Magistério, ainda acabam sendo um grande contratestemunho para muitas pessoas. Este tipo de pensamento se alinha mais à burguesia pós-Idade Média do que ao real e verdadeiro pensamento católico. O mesmo vale para ideias de esquerda ou extrema esquerda que nada tem a ver com a doutrina católica.

Assim, quando vejo católicos defendendo ardentemente a “direita brasileira” me dói o coração, porque no bojo estes sujeitos acabam defendendo valores contrários aos que pregam nossa religião. No caso do crime contra Tatiane, o marido poderia ser de direita ou de esquerda, isso não importa... É uma posição política adotada por ele. A questão é quem ele era como pessoa: alguém que objetificava a própria esposa! Um homem que desrespeitou e tratou com violência uma mulher!

Antes de buscar se alinhar e defender posições políticas, busque ser uma pessoa virtuosa e boa, que pratica o que prega a própria fé. Nossa Igreja defende que mulheres sejam tratadas com o máximo de amor e dignidade – não importa se ela é uma princesa ou uma prostituta. Cristo tratou com amor a prostituta enquanto todas a tratavam mal e mostrou a esta pobre mulher a dignidade que ela tinha e havia perdido. É assim que devemos agir.

Não seja de direita ou de esquerda: busque a santidade, seja uma boa pessoa. As ideias e opiniões que você defenderá serão consequência disso.

 

Atualização:

Não, não estou defendendo o feminismo em sua essência marxista e pós moderna, que prega o igualitarismo sem medida entre os sexos ou, pior, que prega que não existem "sexos". Só estou afirmando que, muitas vezes, não vale a pena brigar com as pessoas e, sim, tentar dialogar com elas em ideias que podemos ter semelhanças. Vejam, por exemplo, que a inserção da mulher no mercado de trabalho já acontecia na Idade Média. Vejam, também, que a "igualdade" entre os sexos é algo querido pela Igreja e muito comentado por São João Paulo II, que mostrou essa igualdade no sentido de equidade (considerar as diferenças entre homens e mulheres como potencializadores da vida em sociedade). Em outra oportunidade farei um post sobre feminismo.

[Não coloquei no post imagens do casal em respeito aos familiares e porque não temos autorização direta para publicar estas imagens]

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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Alice Criff

Alice Criff

feminicídio foi um termo cunhado pela primeira vez por uma feminista norte-americana chamada Diane Russel, nos anos 70 do século XX. me preocupa o ódio que alguns homens de extrema direita vêm tendo das feministas. Elas já prestaram grandes serviços à humanidade, vide direito ao voto.o machismo e a misogenia são um mal. essa moça , morreu por culpa da misogenia de um adepto do neofascismo, e isso precisa serr dito como forma de alerta.
★★★★★DIA 18.10.18 14h08RESPONDER
Letícia B
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Amanda Nogueira

Amanda Nogueira

Muito bom, esclareceu algumas dúvidas. Esses dias fiquei bastante chateada por conta de um post que fiz sobre armamento e uma amiga acabou gerando a maior polêmica, comentando várias coisas, sendo que só quis compartilhar uma sátira. Diante dessas posições diferentes o melhor mesmo é deixar para lá? Eu não gosto muito de falar sobre politica, mas acabo ficando em dúvida se ao não falar estou sendo contra a doutrina, isso confere ou é só neura minha? Aguardo resposta, paz e bem.
★★★★★DIA 20.08.18 18h42RESPONDER
Letícia B
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Letícia B

Letícia B

Oi, Amanda!! Tudo bem? 


que bom que deu certo comentar hehe


A doutrina católica não fala nada diretamente sobre essas questões mais práticas, por exemplo, o armamento. Então fica na consciência de cada fiel escolher determinada posição. Algumas vezes vale a pena defender nossa opinião, principalmente quando sabemos que defender a verdade trará consequências importantes. Outras vezes é preciso ponderar se defender nossa opinião vai ser desgastante para a relação de ambos. Em suma, não há resposta correta. Depende do que vamos defender, para quem e quando. Às vezes calar é um bem maior, às vezes falar que o é.


Em todos os casos, devemos sempre pedir as luzes do Espírito Santo e ajuda do nosso anjo da guarda para tomarmos a posição que mais pode agradar a Deus!


Espero ter ajudado!


Com carinho,


Leticia


 

★★★★★DIA 20.08.18 21h41RESPONDER
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Amanda Nogueira

Amanda Nogueira

Sim, deu certo consegui recuperar a senha. Obrigada pela reposta, me ajudou mesmo e tbm pela atenção com minha dificuldade em interagir no blog kkk,. Deus abençoe sempre mais essa missão :)
★★★★★DIA 20.08.18 21h51RESPONDER
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Letícia B

Letícia B

<3

★★★★★DIA 20.08.18 22h12RESPONDER
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Alexandre Ferreira

Alexandre Ferreira

Houve um homicídio, feminicídio é invenção da militância feminista.
★★★★★DIA 19.08.18 20h05RESPONDER
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Letícia B

Letícia B

Oi, Alexandre! tudo bem?


As origens dessas palavras são contraditórias, porque quando são incorporadas a um vocabulário "geral" fica difícil rastrear realmente da onde surgiram e se o seu significado hoje é compatível com sua origem. Fique com a essência do texto, acho que é isso que importa!


abraços


Leticia

★★★★★DIA 20.08.18 21h43RESPONDER
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