Liberdade, onde moras?

Liberdade, onde moras?

                    Mais do que nunca as mulheres estão em busca da liberdade, da auto-afirmação e do seu lugar no mundo. Na verdade, todos somos chamados à maravilhosa liberdade de filhos de Deus (Rm 8,21), mas esse ser livre nada tem a ver com a independência ou com a liberdade dos animais selvagens, que consiste em fazer tudo o que se quer, quando e como se quer. Quantas mulheres foram levadas a abortar, movidas pelos que a cercavam? Quantas jovens perderam sua virgindade para serem como todo mundo? Raros são os verdadeiramente livres porque a liberdade consiste em um fator decisivo: posicionar-se sob o olhar de Deus Pai, nosso Criador, e libertar-se do olhar dos outros.

 

 

A infância espiritual:

Liberdade, onde moras?

 

                      Santa Teresinha nos ensina em sua pequena via um caminho fácil e rápido para chegarmos ao Senhor: o abandono e a confiança filial como crianças a Deus . A criança é, com efeito, totalmente dependente do pai, só vive feliz sob o seu olhar. Como podemos entrar na plenitude de nossa vocação de criança de Deus, de filho ou filha bem-amada do Pai? É necessário que nos reconciliemos com a visão da verdadeira paternidade, ainda que biologicamente nos tenha faltado.

                    Este olhar amoroso educa, transmite paz, dá confiança, coragem e força para ultrapassar os medos e vencer obstáculos, pois vive e cresce sob o olhar de seu pai e de sua mãe. Quando o filho é pequeno, eles não o perdem de vista, prontos para intervir quando surge o menor perigo. Este olhar de amor dá segurança e a criança sabe que pode ir e vir à vontade. Essa vivência da Providência no qual “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” nos confere a liberdade plena em que não são fatos, circunstâncias ou pessoas a determinar nossa vida, mas somos uma bela história onde a cada dia se compõe novos versos para um louvor agradável a Deus.

 

A adolescência, caminho de maturação

 Liberdade, onde moras?

             Porém, chega um tempo que a criança não olha para si mesma, começa a perceber o olhar dos outros sobre si, muito menos indulgente. Assim, nascem os complexos, e o adolescente tem vergonha de si mesmo, esconde-se atrás de uma mecha de cabelo, procura identificar-se com a imagem que gostaria que os outros tivessem dele, ou deslizar de forma a passar despercebido. Muda-se o corpo, muda-se de identidade, fica-se completamente desorientado, inseguro por não estar mais sob o olhar benévolo dos pais. Vendo-se através do olhar dos outros, inicia a busca para identificar a si mesmo. Quantos ainda não superaram essa fase? Não sabe mais quem é, não é mais livre. 

 

 

A prisão da subjetividade x autêntica autonomia:

Liberdade, onde moras?

 

                 Deus colocou em nós tantas riquezas que são, infelizmente, sufocadas por olhares sem esperança. Fica-se toda vida prisioneiro do olhar dos outros ou na sua própria bolha autorreferecialista, e as escolhas - as decisões mais importantes - são tomadas em função dos que nos rodeiam para não se arriscar a afligir, para não encarar a incompreensão, ou então agem para chocar e provar que estão acima de tudo. Não são, porém, atos livres nem libertadores.

O desejo de ser amado é o móvel secreto e inconsciente de todos os nossos atos.

                 Não podemos acolher o outro a não ser que nos aceitemos, que acolhamos o olhar de Deus sobre nós e recebamos Seu Amor. É necessário ter muita coragem, sobretudo a mulher, para enfrentar o desprezo dos outros que a tomam por uma débil mental ou a olham como um animal curioso se ela tem a imprudência de não aceitar de cabeça baixa os estereótipos formulados pelo feminismo.

 

Desviando o olhar de nós mesmos e dos outros: a ascese.

 Liberdade, onde moras?

                  A culpa transformou a graça em fragilidade e esta fraqueza envolve muitas mulheres, arrastando-a a escolhas que longe de libertá-la, a escravizam. Ela se fecha numa imagem de mulher superficial, de mulher-objeto, que não corresponde ao que é no fundo de si mesma que a impele ao jogo da sedução, num desejo de atrair a atenção, de ser o centro do mundo, de ser a mais bela, a mais inteligente, mais empoderada, sempre a “mais”... Infelizmente nesta busca, que no fundo é legítima, perde sua verdadeira personalidade. Tentando agradar a todos, dispersa-se e perde seu valor, não sabendo mais para que verdadeiramente existe, qual seu apelo, sua vocação, sua missão.

                   Para conseguir desviar o olhar de si mesmo e dos demais sobre a própria identidade e viver sob o olhar de Deus é indispensável uma opção: a ascese. Sendo a tendência natural a de voltar-se para si, é preciso voltar-nos para Deus, deixar-nos olhar por Ele e por isso há toda uma ascese para desviar o olhar de si mesmo, para se expor ao olhar de Deus e descobrir quem se é. Quem se esquece, se encontra.

                  A ascese faz com que se concentre as energias e desvie o olhar para ter os olhos fixos em Jesus. Entende-se por ascese um árduo processo de conversão, em adequar a rotina, as atividades, as ações, as prioridades e as preferências, enfim, todo o coração para o que é mais agradável a Deus.

 

O olhar de Deus nos cura e liberta:

Liberdade, onde moras?

 

                Sob seu olhar encontramos nossa dignidade, descobrimos quem somos e a que somos chamados. Seu olhar nos liberta da ditadura do espírito do mundo, sabiamente orquestrada pela mídia, que aprisiona as consciências e culpabiliza aqueles que ousam discordar de suas opiniões.

               É preciso simplesmente estar sob o olhar de Deus, submeter-nos, pois o Pai nos ama, Ele não desanima com nossas quedas, não nos classifica com etiquetas, conhece-nos assim como somos, e crê em nós, espera de nós.

               Deus não tem nenhuma ilusão sobre nós e nos sabe capazes do pior, mas sua confiança nos leva a crer que somos criados para o melhor...

O olhar de Deus é esperança!!!

 

Marcela Kamiroski

Toda terça-feira publicaremos um texto nesta jornada de reencontro com a identidade feminina, suas aspirações interiores e seu valor ontológico para a sociedade.

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insta: @marcela.kamiroski

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Adryana Souza

Adryana Souza

"Deus não tem nenhuma ilusão sobre nós e nos sabe capazes do pior, mas sua confiança nos leva a crer que somos criados para o melhor..."
Ótimo texto, Marcela.
Muito obrigada.
★★★★★DIA 30.01.19 09h27RESPONDER
Letícia B
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