Mamães que povoam o céu

Mamães que povoam o céu

Meu nome é Angelina, tenho 27 anos, sou casada, mãe de 4 filhos e escrava de amor a Jesus pelas mãos de Maria há 7 anos.

Eu, que sempre tive a mentalidade de ser uma grande profissional com vários títulos e pouquíssimos filhos, não poderia imaginar o que Deus reservava para o meu matrimônio.

Sempre rezei para que nunca perdesse um filho. Não sei explicar o motivo, mas carreguei esse medo por anos. Preferia não engravidar a passar por esse sofrimento. Certo dia, conheci a história da mãe de Santa Teresinha, Santa Zélia Martin, que enterrou quatro filhos. No velório de uma das crianças ela narra a resposta dada a uma senhora que a abordou dizendo que era melhor não ter filhos do que passar por aquela situação. A resposta foi como uma lança para mim. Ela dizia que preferia passar por todos os sofrimentos nessa terra para ter a graça de um filho no Céu, do que nunca dar a existência a um filho. Santa Zélia desejava uma família santa e, de fato, teve. Após ler isso, rezei pedindo que Nossa Senhora me livrasse do egoísmo e que ela me ensinasse a ser aberta a tudo que Deus quisesse nos dar.

Nessa época, após três anos de tentativas, eu engravidei. Meu João Bento chegou e encheu minha vida de alegria e gratidão. Sempre o entreguei nas mãos de Deus para que o fizesse um santo, não importando o que eu teria que passar. Deus o fez, levando meu filho direto para os Seus braços sem passar pelos meus. Entrei na escola de Maria, conhecendo um pouco do sofrimento da mãe que perde o seu filho. Esse sofrimento nos tira do egoísmo e purifica a nossa intenção. Lembro-me que, após sair da sala de ultrassom com a notícia da morte do meu filho, o médico me deu a chave do consultório e me deixou ficar sozinha por um momento. Era eu e Nossa Senhora. Pude senti-la quase que fisicamente. Em seguida fui para a sala de parto e sai sem meu bebê nos braços.

Aquelas que passam por essa situação, sabem que é um tipo de luto solitário, pois os outros não conseguem compreender muito bem, já que geralmente só consideram de fato filhos aqueles nascidos. Nesse ponto, recordo-me aqui algumas palavras da beata Chiara Corbella: “O que quero dizer às mães que perderam seus filhos é que nós fomos mães, tivemos esse dom. Não importa o tempo, se um mês, dois meses ou poucas horas, o que importa é o fato que tivemos esse dom e isso é algo que não podemos esquecer.”¹ Um filho no céu é um sinal de eternidade em nossas vidas, uma intercessão certa, um sofrimento, mas acima de tudo uma alegria de missão cumprida.

Mal sabia os caminhos que a Providência nos levaria.Alguns meses depois, para nossa alegria, descobrimos que seríamos pais novamente. Confesso que fiquei feliz, mas muito receosa. Sentimento que só quem perdeu um filho consegue explicar. Não demorou muito para comprovar com os exames que Nossa Senhora havia recolhido mais uma florzinha para o jardim dEla no céu. Foi um momento muito difícil e parecia insuportável, mas em minha alma carregava a certeza de que Deus estava no controle e tiraria um bem muito maior daquilo tudo.

Cinco meses depois, mais um positivo, alegria, medo, e olhos postos em Nossa Senhora. Nosso terceiro filho no céu. Descobri a perda justamente na quarta-feira de cinzas. Pude viver profundamente a quaresma e oferecer, ainda que minimamente, um pouquinho do meu sofrimento para amenizar os de Nosso Senhor.

 

Em um intervalo de pouco mais de um ano fomos presenteados com o dom da vida três vezes. Deus foi muito generoso conosco e hoje entendo que não importa qualquer sofrimento que tivemos que passar, pois nenhum deles podem comparar-se  com existência e a felicidade eterna de nossos filhos. Além disso, é como disse Santa Zélia: “A vida é curta e cheia de misérias e havemos de nos encontrar lá em cima”².

Quem tem filhos no céu poderá comprovar também a grande força da intercessão deles. Explico o porquê.

Com todos esses acontecimentos, percebi que meu sonho era ser mãe e não ser uma grávida. Com isso, Deus tocou nosso coração para a adoção e recebemos, pela intercessão dos nossos três filhos, um presente tão grande que não conseguiria descrever aqui. Nosso José chegou em casa para nos encher de alegria e gratidão a Deus. É um menino lindo, doce e esperto. Sem nossos filhos no céu, jamais teríamos o encontrado. Deus sabe o que faz e faz tudo perfeitamente sempre. Tenho bem claro que a finalidade da maternidade é levar nossos filhos para o céu. Tivemos esse dever cumprido com nossos três primeiros filhos e quando penso no José, lembro que Deus deixa as noventa e nove ovelhas para ir atrás de uma perdida. Assim Deus fez com nossos filhos. Deixou que os primeiros fossem para o céu para que pudessemos ir atrás daquele que estaria longe. Como valeu à pena! É um amor maior do que quando se gera, pois não é simplesmente aceitar um filho que foi gerado, mas sim ir ao encontro e se decidir por ele. Sei que a adoção não é uma via para todas as pessoas, mas tenho certo de que é para mais pessoas do que se tem visto. Além disso, de certa forma todas as mães têm que adotar seus filhos. Infelizes daquelas que não os adotam, que preferem abraçar as mil promessas do mundo enquanto os filhos são terceirizados e não caminham rumo ao céu. A maternidade é um dom que nos tira de nós e nos faz grandes diante de Deus. Não importa como ela venha, é um dom digno de ser muito comemorado. Nesse dia tão bonito para nossa família, desejo a todas as mães que Nossa Senhora as faça santas e espelho dEla, para que assim possamos povoar o céu com todos aqueles que Deus nos confiar.

 

 

1. https://www.youtube.com/watch?v=wQu882ja8Xs

2. Carta da Senhora Martin à cunhada, de 17 de outubro de 1871. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 91.

 

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Equipe Modéstia e Pudor

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