Namoro: razão ou emoção?

Namoro: razão ou emoção?

Há algum tempo venho notando uma certa  “fantasia” acerca do namoro entre católicos. Como nascemos em uma era supersexualizada – em que a emoção guia nossas ações - muitas pessoas receberam formação catequética de que a razão deveria nos governar em absoluto, especialmente nos relacionamentos. Isso é verdade? Em parte, sim! A razão realmente deve se sobrepor à emoção em muitos casos, mas o ideal é que ambas andem juntas, em equilíbrio. O que se observa, entretanto, é um incentivo para desprezarmos nossas emoções, como se elas fossem uma parte ruim da nossa vida.

Isto está em total desacordo com os ensinamentos católicos, especialmente os da Teologia do Corpo. Afirma a catequese 111 do Papa São João Paulo II (grifos nossos): “A verdade da crescente aproximação dos esposos através do amor desenvolve-se na dimensão subjetiva “do coração”, do afeto e do sentimento, a qual permite descobrir em si o outro como dom e, em certo sentido, “saboreá-lo” em si. [...] A esposa sabe que se voltam para ela os “desejos” do esposo e vai ao encontro dele com a prontidão do dom de si porque o amor que os une é de natureza espiritual e, ao mesmo tempo, sensual. E é também com base neste amor que se realiza a releitura na verdade do significado do corpo, porque o homem e a mulher devem constituir em comum aquele sinal do recíproco dom de si, que põe a marca sobre toda a sua vida.”

E também a catequese 109 (grifos nossos):  “Mesmo uma análise sumária do texto do Cântico dos Cânticos permite sentir exprimir-se naquele fascínio recíproco a “linguagem do corpo”. Tanto o ponto de partida como o ponto de chegada deste fascínio —recíproca maravilha e admiração— são, de fato, a feminilidade da esposa e a masculinidade do esposo na experiência direta da sua visibilidade. As palavras de amor, pronunciadas por ambos, concentram-se, portanto, no “corpo”, não só porque ele constitui por si mesmo fonte de recíproco fascínio, mas também e sobretudo porque sobre ele se detém direta e imediatamente aquela atração pela outra pessoa, pelo outro “eu” —feminino ou masculino— que no impulso interior do coração gera o amor. O amor, além disso, produz uma particular experiência do belo, que se concentra naquilo que é visível, mas envolve contemporaneamente a pessoa toda. A experiência do belo gera o prazer, que é recíproco.”

Do mesmo modo nos diz o grande Papa Bento XVI na encíclica Deus caritas est: “O homem torna-se realmente ele mesmo, quando corpo e alma se encontram em íntima unidade; o desafio do eros pode considerar-se verdadeiramente superado, quando se consegue esta unificação. Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza. [...] Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade, é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só deste modo é que o amor — o eros — pode amadurecer até à sua verdadeira grandeza” (grifos nossos).

Portanto, atração e emoções – o amor eros - são perfeitamente queridas por Deus. Por que Ele nos dotaria de sentimentos, emoções e atração sexual se não vamos usar isso onde deveríamos usar, que é no relacionamento entre um homem e uma mulher que pensam em namorar?

A atração física acontece em nível bioquímico. É difícil (quase impossível) “criar” uma atração por alguém: ou você se atrai pela pessoa ou não. É claro que, muitas vezes, você acha uma pessoa bonita, mas conhecendo-a melhor essa admiração cresce e acontece o “apaixonamento”. Outras vezes o apaixonar-se é instantâneo, “à primeira vista”. Em todos os casos, não devemos pensar que nosso afeto e emoções deveriam ser deixados de lado na escolha de um potencial namorado(a). Namore alguém que você esteja apaixonado. Que faça seu coração bater muito forte e seus pensamentos ficarem na pessoa o dia inteiro. Namore alguém que você queira passar todos os dias da sua vida e mais a eternidade. 

E a razão? A razão vai te ajudar a não cometer loucuras: não se expor a situações de pecado, não dar passos maiores que as próprias pernas (se casando sem ter nem como sustentar uma família, por exemplo), e te ajudando a analisar se o potencial esposo(a) tem as virtudes necessárias para construir uma boa família. A razão equilibra a emoção e a emoção equilibra a razão.

Esses dias eu estava conversando com uma amiga, que dizia que conhece muitas pessoas boas que juntas dariam ótimos casais, mas que não dá para pensar que é só “juntá-las”, porque as coisas não eram assim. Realmente! Muitas vezes acabamos brincando de ser Deus, de querer criar sentimentos onde não há e juntar pessoas porque achamos que elas seriam felizes juntas. O melhor nestas situações é rezar por estas pessoas, colocando em oração para Deus providenciar um bom cônjuge para elas, mas evitando “arranjar casais”, pois, por mais boa intenção que haja, pode ocorrer de se criar uma atmosfera forçada e nossas ações mais dificultarem do que ajudarem os outros.

Namorar uma pessoa puramente pelas emoções é extremamente arriscado, do mesmo modo que o é namorar apenas pela razão, apenas porque o sujeito parece ser “um bom partido”. É  verdade que em muitos momentos do namoro você se deparará com pessoas mais atraentes que a garota ou o cara que você estará compromissado(a). Nestes momentos é essencial ter bom senso e utilizar da razão para ponderar se as virtudes do seu namorado(a) e a história de vida de vocês pesam mais que a atração sentida pelas pessoas que você conhecer. Pode ser que no seu trabalho haja um cara lindo, mas que não tenha as virtudes do seu namorado. Ou pode ser que sua colega de faculdade seja a maior gata, divertida e legal, mas o relacionamento construído com sua namorada seja mais importante e encantador que o que você construirá com qualquer outra pessoa. A Igreja afirma que, para iniciar um namoro, é necessário que ambos tenham o desejo do relacionamento evoluir para o matrimônio. Todavia, namoro não é casamento; é um tempo de conhecimento mútuo. Se você não tiver certeza sobre diversos fatores – desde sentimentos até virtudes e maturidade – é melhor colocar em oração, se aconselhar com boas pessoas e, se for o caso, terminar o relacionamento.

Entretanto, lembre-se que os namoros podem ter muitos momentos difíceis, porém se há boa formação por parte dos dois e se há no coração do casal o desejo de superar os problemas juntos, o resultado será o fortalecimento do relacionamento. Isto culminará em uma preparação muito mais sólida para o matrimônio.

Em suma, razão e emoção foram feitas para estarem integradas na pessoa humana. Se um destes pontos está te desequilibrando ou se você está dando mais atenção e peso para um lado do que para o outro, repense suas condutas!

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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