Nó na garganta I: Modéstia e Castidade

Nó na garganta I: Modéstia e Castidade

Dia desses vi uma foto em que um moço (na casa dos 20 anos) afirmava que achou o look com calça sugerido pela página ridículo; disse que não pecaria contra a castidade vendo a moça, ao contrário, riria dela. Não é a primeira vez que vejo comentários sugerindo que a roupa faz ou não um homem pecar contra a castidade. No começo daqui do blog mesmo, em posts já apagados e podcasts enterrados, creio que cheguei a comentar que a roupa que usamos pode fazer alguém pecar por pensamento. Isso é verdade. Uma mulher com decotão, roupa colada, lingerie aparecendo, fazendo a linha “mulher-fruta”, com certeza despertará desejos e pensamentos libidinosos nos homens. A questão é que o homem pecar ou não contra a castidade não é culpa exclusiva da mulher. Não podemos culpar aos outros por nossos pecados!
 
Vamos olhar essa questão do pecado por outro ângulo. Imagine que você está com um grupo de pessoas conversando sobre assuntos diversos e, lá pelas tantas, alguém comece a falar mal de um sujeito que você não gosta. Você recebeu uma tentação, uma sugestão para pecar. Escolher ou não falar mal da pessoa depende exclusivamente de você, do seu autocontrole e do seu livre-arbítrio.
 
Da mesma maneira, uma mulher usar roupas sugestivas pode, sim, exacerbar em um homem desejos sexuais. Na verdade, só o fato de um homem ver uma mulher bonita, mesmo que seja só o seu rosto, já pode deixá-lo excitado. Mesmo nos cegos, pela percepção hormonal de uma mulher em idade fértil, há atração sexual. São questões hormonais e à nível bioquímico. Devemos olhar tudo isso como bom e querido por Deus!  A questão é o que fazer quando um homem olha uma mulher e fica excitado: ele pode permanecer com a imagem dela e escolher o pecado ou pode fazer outra coisa e esquecer a excitação que teve. Nos dois casos, pecar ou não pecar, a decisão é somente dele!
 
Algumas pessoas confundem sugestão/tentação com pecado. Pecado é escolha livre e decidida. Imaginemos que você é uma pessoa de oração e missa diária, e que pede sempre a ajuda do anjo da guarda e Nossa Senhora nas tentações. Mesmo que você cuide das coisas que vê, surge na sua imaginação várias cenas impuras. Esta é a tentação. O que você fará a partir de agora pode ou não ser pecado. Se você, de livre vontade, isto é, sem estar em estado de semiconsciência ou dormindo, alimenta estas cenas, aí, sim, é pecado. Se você reza, pede ajuda dos santos, tenta fazer outra coisa, tenta ignorar, aí não é pecado, por mais persistente que sejam os pensamentos.
 
Mesmo que vivêssemos em uma colônia puritana da Era Vitoriana, com roupas que só mostrassem nossos rostos; pior: mesmo que homens e mulheres só andassem de burca. Ainda assim teríamos tentações e pensamentos impuros. Temos a concupiscência, não adianta fugir! Nossa vida é uma constante batalha: não nos esqueçamos disso!
 
Há extremismos em relação à modéstia que faz com que qualquer tipo de roupa “mais normal” que uma mulher use seja vista por certos grupos como “imodesto” e “pecaminoso”. Às vezes dá certo medo de sugerir looks aqui no blog ou no insta e lidarmos com um rio de comentários criticando “nossa” concepção de modéstia.
 
Eu sei que alguns de vocês já estão cansados de me ouvirem falar de burguesia rsrs, mas acho que o assunto ainda não foi muito bem absorvido pelas pessoas.
 
A moral católica é baseada em princípios que dependem da situação que cada um vive para ser aplicada. A nossa vidinha brasileira de classe média é bem diferente da vida do Trump (para citar um cara ryco) e bem diferente da vida daquela pobre criança africana com barriga d’agua (que costumamos ver em propagandas de ongs humanitárias). A vida que vivemos hoje, em um mundo globalizado, é bem diferente da vida que uma pessoa vivia na época que as primeiras máquinas pós-revolução industrial eram lançadas. A Igreja Católica é para todos os povos em todos os tempos e em todas as idades. Os princípios são os mesmos. Aplicar estes princípios depende de diversos fatores que somente cada um, com boa formação moral, pode julgar. É claro que aplicar alguns princípios é mais fácil do que aplicar outros.  Por exemplo, não pecar contra a castidade é mais fácil de ser entendido e aplicado do que a virtude da modéstia, ou da justiça, ou da caridade, apesar de tudo estar entrelaçado, de certa maneira. No século XVI, por exemplo, não se falaria que ver um filme pornô é pecar contra a castidade, porque não existiam filmes pornôs. Ou seja, o princípio “não pecar contra a castidade” atualiza-se a depender de cada época. E as outras virtudes mencionadas? Modéstia, justiça, caridade? Quantas vezes ficamos na dúvida se fomos injustos com uma pessoa ou se fomos caridosos de lhe mostrar o próprio erro? Quantas vezes tivemos dúvida se faltamos com a caridade ou se agimos com fortaleza? Enfim... É difícil ter uma regra pronta para cada situação da vida. Tudo depende de muita coisa!
 
Bem diferente do pensamento católico, o pensamento kantiano – aliás, absorvido pelas religiões protestantes porque Kant também era protestante – não vê as diferentes nuances de cada tempo e situação. Kant achava que existiam, sim, regrinhas para cada situação da vida. Ele enxergava os princípios morais como absolutos.  
 
 
É interessante notar como os protestantes leem a Bíblia: de maneira absoluta, descontextualizada, sólo scriptura. Muitas pessoas enxergam a Bíblia e a moral católica da mesma maneira que Kant.  Muitas falas de santos, padres, cardeais e inclusive papas deveriam ser contextualizadas em termos culturais, mas são interpretadas como absolutas.
Ué, Letícia, até papas? Sim! Não são todos os documentos da Igreja considerados “doutrina” (sugiro a leitura deste texto). Muitos documentos têm valor de orientação pastoral, isto é, aplicação da doutrina para determina tempo e contexto cultural. Se existem documentos assim é exatamente porque a moral não é absoluta, certo, amiguinho? ;)
 
A virtude da modéstia talvez seja a mais mal interpretada de todas nos últimos tempos. A doutrina, em si, pede o básico da fé cristã: sermos guiados pelo princípio da caridade; evitar expor nosso corpo à olhares maldosos (isso para homens e mulheres!). Este são os princípios. A aplicação deles depende de questões culturais e temporais. Isso não significa que, se no futuro for moda a praia do nudismo devemos ficar nus também. Isso significa que há um princípio, mas como esse princípio vai ser aplicado depende de cada época e lugar. Vou dar um exemplo. Seria modesto eu visitar um país que as mulheres usam burca e me vestir com o rosto descoberto? Obviamente, não. Receberia diversos olhares maldosos e seria tachada de prostituta. E seria modesto uma mulher usar burca aqui no Brasil? Também não, porque ela chamaria demais a atenção, e chamar a atenção é falta de discrição, algo que não convém com a virtude da modéstia.
 
 
Não estou escrevendo groselha: o próprio Catecismo propõe que a modéstia e o pudor variam de cultura para cultura (CIC 2524). Fato é que, na nossa cultura, muitos grupos interpretam determinadas roupas como imodestas não existindo elementos doutrinais ou culturais que endossem isso.
 
As regrinhas de modéstia são frutos de uma moral burguesa, kantiana, protestante, muito longe de serem frutos da moral católica. O problema das pessoas que seguem este tipo de regra é se afastar do cerne da doutrina e viver em uma espécie de clã ou comunidade que comungam as mesmas opiniões que eles. De que forma é possível evangelizar e participar do mundo se vestindo de maneira estranha e inadequada? Ou proferindo regras pesadas e que apartam a maioria dos cristãos? Para algumas pessoas o catolicismo é um pacote de “pode” e “não pode” que limita a vida em sociedade. É uma série de proibições que deixam a vida um fardo pesado e difícil de ser carregado. Desde comprimento de saia até proibiçõezinhas mesquinhas como “beber até ficar alegre é pecado venial”. Céus! Se libertem disso!!!!
 
Várias meninas já me perguntaram se blusa de alça, calça legging, calça jeans, saia na altura do joelho e até se fazer a unha e se depilar eram pecado. Se são no oriente médio não sei, mas aqui, dependendo o modo como você vai usar estas peças, podem ser até atos de caridade. Sim, se você compor um look asseado, bonito, elegante, isto vai mostrar que você se importa com as pessoas ao se redor, que você quer agradar aos outros com sua beleza, e isso é uma das expressões da caridade! (Se você ficou meio confuso sobre esse parágrafo, recomendo ler este texto).
 
Usar uma blusa de alça pode ser ok para uma moça com pouco busto, pode não ser legal para alguém com muito seio e que vai evidenciar ainda mais com a roupa. Pode ser ok usar blusa de alcinha em um churrasco, mas é falta de respeito usá-la na missa. Se uma calça legging for usada com um mini-vestido pode ficar elegante e confortável. Se for usada com uma blusa curta obviamente ficará vulgar e imodesto.
 
É difícil tachar a peça X ou Y de errada, imodesta. Tudo depende do corpo da pessoa, da ocasião que ela usará, da combinação que fará. Se você é bem formado moralmente (como buscamos fazer neste blog), com toda a certeza você reconhecerá uma peça imodesta.
 
É natural, também, que uma mulher bem formada em termos morais automaticamente abraçará sua feminilidade e buscará uma imagem corporal que expresse isso. O mesmo para um homem que abraça sua masculinidade e a expressa nas suas roupas e atitudes.
 
Compor um visual limpo, agradável aos olhos e elegante é algo extremamente desejável para um cristão. Se as pessoas ao seu redor não se vestem desta maneira, reze por elas. Não culpe aos outros pelos seus pecados. Lembre-se que ser uma pessoa melhor a cada dia requer a base do cristianismo: a caridade. Ser católico deve ser algo que transforme novas vidas positivamente. Algo que nos faça mais felizes. Mesmo nos sofrimentos e batalhas diárias é possível ser feliz se tivermos absorvido a moral como deveríamos absorver. Não encare o catolicismo como um fardo. Se você está fazendo isso, há grande perigo de, mais cedo ou mais tarde, você derrubar esse peso e perder a fé.
 
Com carinho,
 
Letícia
 
P.S.: Essa história de regras, escrúpulos e moral kantiana enraizada no catolicismo é tão séria que há muitos casos de casamentos com vários problemas de ordem sexual e afetiva por conta do casal achar que “tudo é pecado”. Lembremo-nos sempre da máxima aristotélica: “a virtude está no meio”. Na dúvida, consulte o Catecismo e um bom católico, de preferência um sacerdote bem formado e equilibrado.
 
Nó na garganta I: Modéstia e Castidade
 

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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Já temos 6 comentário(s). DEIXE O SEU :)
Dani Kiedis

Dani Kiedis

Retiraram a newsletter do site.. Pq? Fiquei triste não recebo mais nada no meu e-mail, fica difícil acompanhar o blog, vejo meu e-mail o dia inteiro e não tenho redes sociais.
★★★★★DIA 02.01.18 17h20RESPONDER
Letícia B
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Letícia B

Letícia B

Oi, Dani! Logo voltaremos com a newsletter! Que bom que você sente falta rsrs


Obrigada pelo comentário! :) bjo grande!

★★★★★DIA 02.01.18 20h38RESPONDER
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Amanda Nogueira

Amanda Nogueira

Amei esse texto, só confirmou uma reflexão que já estava tendo a algum tempo. Me sinto mais leve, parabéns e que Deus abençoe sua missão.
★★★★★DIA 21.12.17 14h56RESPONDER
Letícia B
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Letícia B

Letícia B

Que fofa! Obrigada, Amanda! Reze por mim, por favor! :) bjs!

★★★★★DIA 21.12.17 21h38RESPONDER
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Adryana Souza

Adryana Souza

"Não encare o catolicismo como um fardo. Se você está fazendo isso, há grande perigo de, mais cedo ou mais tarde, você derrubar esse peso e perder a fé."

Parabéns por esse belo texto!
★★★★★DIA 19.12.17 12h14RESPONDER
Letícia B
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Vivian A

Vivian A

Muito bom! Posta mais!
★★★★★DIA 17.12.17 18h46RESPONDER
Letícia B
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