Nó na garganta II: A santidade é para todos

Nó na garganta II: A santidade é para todos

Muitas pessoas que se identificam com nosso apostolado nos procuram com dúvidas do tipo: Será que é compatível com a fé católica eu frequentar aulas de dança? Ser atriz? Ir a uma festa da faculdade? O primeiro post chamava “nó na garganta” porque era minha reação, um nó na garganta, quando via e ouvia coisas que, por minhas observações e experiências, podiam levar as pessoas ao erro. Este post vai um pouco nesta linha também.

Há um tempo atrás muita gente (inclusive eu) repetia a reflexão: “Quem quer ser santo não fica só no ‘é pecado ou não é pecado’, mas no ‘o que pode agradar mais a Deus’?”. Esses dias estava pensando sobre isso e sobre o quanto essa reflexão pode ser mal interpretada. Aqui no blog, vocês sabem, todas as colaboradoras procuram viver e pregar o que a doutrina católica nos pede. E, na doutrina, não existe o “pode” ou “não pode”, um conjunto de regras e proibições para cada microssituação de nossas vidas.  Existem princípios [1], e o modo como eles são aplicados dependem do bom senso de cada fiel. Pode ser que a gente erre e pode ser que a gente acerte na aplicação destes princípios: por isso devemos contar com a graça de Deus! Enfim, voltando à reflexão, assim como a doutrina precisa do nosso bom senso, agradar ou não a Deus também depende disso. Essa reflexão de agradar a Deus, levado ao extremo, pode nos conduzir a muitos erros. Por exemplo, vamos imaginar que um jovem é convidado por seus amigos a ir ao cinema assistir a um filme. Esse jovem pode pensar: “O que agrada mais a Deus, eu ir ao cinema ou ficar aqui em casa rezando? Vou ficar aqui rezando”. O jovem perdeu a oportunidade de fortalecer amizades, quem sabe dar um bom conselho, se divertir e adquirir cultura para ficar em casa rezando. Ué, Leticia, ficar em casa rezando é errado? Claro que não! A questão é que em tudo nesta vida precisamos de equilíbrio!

É bom e recomendável que cada um tenha para si uma rotina diária de oração. Essa rotina pode incluir a Santa Missa, terço e leitura de algum trecho da Bíblia.  Todas essas orações, somadas, não dão mais do que uma hora. O resto do tempo é para sermos o que somos chamados a ser: leigos. Claro que se você for vocacionado à vida consagrada, então aí é outra história. Mas estou escrevendo para leigos que vivem no mundo. Não podemos nos apartar da sociedade e achar que seremos santos porque desprezamos as pessoas e tudo o que o mundo oferece. A santidade está exatamente aí: conseguir aplicar os princípios cristãos às pequenas situações que vivemos!

Não é difícil ter paciência com seu colega chato de trabalho? E com sua família? Como é ir a uma festa ou barzinho e se controlar para não beber demais ou fazer alguma besteira? E família problemática? Não é difícil aguentar sua mãe/tia fofoqueira? Pois é, é aí que vamos fazendo nossa santidade.

Então, antes de nos perguntarmos “o que agrada mais a Deus?”, devemos direcionar a nossa pergunta para “como agradar a Deus onde estou?”. É perfeitamente compatível com a fé católica fazer aulas de dança ou ser atriz. Ou frequentar festas. O que precisamos analisar são as variáveis que envolvem ser atriz ou ir a uma festa e como nos santificarmos ali onde estivermos. Isso cabe a cada um refletir. Seria muito fácil a gente ficar aqui fazendo uma listona do que convém ou não a cada pessoa. Mas não sabemos nada sobre a vida de nossos leitores! Pode ser que uma leitora faça aulas de dança numa sala de mulheres. Mesmo que ela rebolar muito, só estão mulheres ali, é um momento de descontração. Pode ser que não, que seja aula de funk com homens. E aí? Será que convém? Acho que não, né? A atriz pode recusar papeis que firam seus valores, mas pode aceitar e até ser exemplo em outros tantos. A festa que eu vou pode ser saudável e divertida ou pode ser super pecaminosa se eu encher a cara e beijar vários caras. Percebem como é difícil dar regras para cada situação de nossas vidas? Cada um precisa analisar como se comporta em cada lugar e se consegue ser um bom católico ali.

Eu gosto muito de uma frase de Santa Teresa D’Ávila que diz: “Acredite em Deus que você está exatamente onde deveria estar”. Para mim é como um tapa na cara! Quase sempre me pego querendo estar em outro lugar, com outras pessoas, em outras situações. Mas Deus me chama a estar onde eu estou, com as pessoas que estou, na situação que estou. As pessoas precisam de mim e eu preciso delas. Um dia eu não aguento e acaba sendo grossa, perdendo a paciência, me faltando a caridade. No outro, a graça de Deus me fortalece e eu consigo vencer meus pequenos surtos de cólera. Assim é a santidade: baby steps. Oração, sacramentos e a graça de Deus.

 

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[1] No prefácio do Catecismo da Igreja Católica encontramos que sua finalidade é “é apresentar uma exposição orgânica e sintética dos conteúdos essenciais e fundamentais da doutrina católica, tanto sobre a fé como sobre a moral, à luz do II Concilio do Vaticano e do conjunto da Tradição da Igreja”. Ele “não se propõe realizar as adaptações da exposição e dos métodos catequéticos, exigidas pelas diferenças de culturas, idades, maturidade espiritual, situações sociais e eclesiais daqueles a quem a catequese se dirige”. Por fim, “A finalidade da doutrina e do ensino deve fixar-se toda no amor, que não acaba. Podemos expor muito bem o que se deve crer, esperar ou fazer; mas, sobretudo, devemos pôr sempre em evidência o amor de nosso Senhor, de modo que cada qual compreenda que qualquer ato de virtude perfeitamente cristão, não tem outra origem nem outro fim senão o amor”.

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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