O que é doutrina e o que não é

O que é doutrina e o que não é

Jovenzinhos e adolescentes recém-convertidos (ou os que não se converteram recentemente, mas que desejam viver uma vida decente e santa) acabam capturados por grupos radicais do catolicismo.

 

Estes grupos, pregando uma doutrina própria e desprezando tudo o que foi produzido após o Concílio Vaticano II, terminam por sempre citar santos e papas específicos, mas, muitas vezes, não se atentam para o que realmente “nos manda” a Igreja e o que é opinião ou fala marcada por contextos temporais.

 

Esses dias me lembrei de algumas falas do Papa Pio XII, um santo sacerdote, mas que, nas falas específicas que citarei aqui, não emitiu pareceres que endossassem a doutrina da Igreja e, sim, orientações e opiniões próprias do contexto da época. Assim, quando vemos estas falas, se descontextualizadas, podem causar grandes mal-entendidos e confusões.

 

Algumas afirmações do Papa Pio XII, proferidas em conferências e alocuções, poderiam ser facilmente confrontadas com documentos pontifícios do Papa João Paulo II. Levando em consideração que o Magistérios se constitui por encíclicas, constituições apostólicas, exortações apostólicas, cartas apostólicas e bulas, e não por alocuções ou entrevistas, poderíamos considerar os ensinamentos de São João Paulo II como doutrina, e os do Papa Pio XII não, se fôssemos levar tudo "ao pé da letra".

 

O que diz Papa Pio XII, no Discurso às mulheres de Ação Católica, 21 de outubro de 1945:

 

 

“Que desde muito tempo os acontecimentos públicos tenham-se desenvolvido de modo não favorável ao bem real da família e da mulher é um fato inegável. E para a mulher, voltam-se vários movimentos políticos, para ganhá-la à sua causa. Alguns sistemas totalitários colocam diante de seus olhos magníficas promessas; igualdade de direitos com os homens, proteção das gestantes e das parturientes, cozinha e outros serviços públicos comuns que libertarão do peso das obrigações domésticas. […] Permanece, porém, o ponto essencial da questão, a que já acenamos: a condição da mulher com isto se tornou melhor? A igualdade de direitos com o homem, trazendo o abandono da casa onde ela era Rainha, sujeita a mulher ao mesmo peso e tempo de trabalho.

[...]

Eis a mulher que, para aumentar o salário do marido, vai ela também trabalhar na fábrica, deixando durante sua ausência a casa no abandono, e esta, talvez já suja e pequena, torna-se também mais miserável pela falta de cuidado; os membros da família trabalham cada um separadamente, nos quatro ângulos da cidade e em horas diversas: quase nunca se encontram juntos, nem para o jantar, nem para o repouso depois das fadigas do dia, ainda menos para as orações em comum. Que permanece da vida de família? E quais atrativos que podem ser oferecidos aos filhos?

A estas penosas conseqüências da falta da mulher e da mãe no lar, ajunta-se outra ainda mais deplorável: ela diz respeito à educação, sobretudo da jovem e sua preparação para a vida real. Habituada a ver a mãe sempre fora de casa e a própria casa tão triste no seu abandono, ela será incapaz de encontrar aí qualquer fascínio, não provará o mínimo gosto pelas austeras ocupações domésticas, não saberá compreender a nobreza e a beleza das mesmas, nem desejará um dia dedicar-se a isso, como esposa e mãe.

Isto é real em todos os graus sociais, em todas as condições de vida. A filha da mulher mundana, que vê todo governo da casa deixado nas mãos de pessoas estranhas e a mãe ocupada em ocupações frívolas, em fúteis divertimentos, seguirá seu exemplo, quererá emancipar-se o quanto antes, e segundo uma bem triste expressão, “viver a sua vida”. Como poderia ela conceber o desejo de se tornar um dia uma verdadeira “domina”, isto é, uma senhora da casa em uma família feliz, próspera e digna? Quanto às classes trabalhadoras, obrigadas a ganhar o pão cotidiano, a mulher, se bem refletisse, compreenderia talvez como não poucas vezes o suplemento de ganho, que ela obtém trabalhando fora de casa, é facilmente devorado pelas despesas ou também pelos desperdícios ruinosos para a economia familiar”.

 

 

Observem que o Papa Pio XII, no contexto dos anos 50, condena o trabalho da mulher fora do lar, e exalta o modelo burguês em que o marido sai para trabalhar e prover sustento enquanto a mulher fica em casa cuidando dos filhos. Alguns tomam este texto por doutrina para justificar que a mulher não trabalhe fora de casa. Todavia, os papas mais recentes – João Paulo II, Bento XVI e Francisco – apontam, em seus documentos e discursos, ideias contrárias às de Pio XII, mostrando que, sim, a mulher pode e deve trabalhar. Inclusive os papas apontam a necessidade de leigos pensarem em soluções para a conciliação entre trabalho e família:

 

 

"Que dizer também dos obstáculos que, em tantas partes do mundo, impedem ainda às mulheres a sua plena inserção na vida social, política e económica? Basta pensar como, com frequência, é mais penalizado que gratificado o dom da maternidade, à qual, todavia, a humanidade deve a sua própria sobrevivência. Certamente, resta ainda muito a fazer para que o ser mulher e mãe não comporte discriminação. Urge conseguir onde quer que seja a igualdade efectiva dos direitos da pessoa e, portanto, idêntica retribuição salarial por categoria de trabalho, tutela da mãe-trabalhadora, justa promoção na carreira, igualdade entre cônjuges no direito de família, o reconhecimento de tudo quanto está ligado aos direitos e aos deveres do cidadão num regime democrático.

(Cartas às mulheres, Papa João Paulo II)

 

 

"Neste relance sobre a realidade, desejo salientar que, apesar das melhorias notáveis registadas no reconhecimento dos direitos da mulher e na sua participação no espaço público, ainda há muito que avançar nalguns países.[...]  Alguns consideram que muitos dos problemas atuais ocorreram a partir da emancipação da mulher. Mas este argumento não é válido, «é falso, não é verdade! Trata-se de uma forma de machismo». A idêntica dignidade entre o homem e a mulher impele a alegrar-nos com a superação de velhas formas de discriminação e o desenvolvimento dum estilo de reciprocidade dentro das famílias. Se aparecem formas de feminismo que não podemos considerar adequadas, de igual modo admiramos a obra do Espírito no reconhecimento mais claro da dignidade da mulher e dos seus direitos”

(Exortação Apostólica Amoris Laetitia, Papa Francisco)

 

 

[Para entender melhor sobre o assunto “Mulher e trabalho”, sugere-se a leitura deste texto]

 

 

A ideia aqui não é afirmar que um Papa está certo e o outro errado. A ideia é que, com estes exemplos, paremos para analisar um ponto importantíssimo e básico, e muito esquecido pelas pessoas, especialmente as recém-convertidas: A doutrina católica é baseada em princípios! Princípios são diretrizes imutáveis, que valem para todas as épocas e culturas, mas que, sua aplicabilidade, pode variar a depender da circunstância. Em outras palavras: a moral católica nunca muda, mas como vamos aplicar esta moral, sim, muda.

 

Sabemos que a família é uma unidade que deve ser estimada e protegida, pois é a célula básica da sociedade. Sem famílias uma sociedade não pode existir. Este é um princípio moral. Nos anos 50, época do pontificado do Papa Pio XII, o modo de proteger as famílias era através do incentivo de que as mães cuidassem dos filhos em casa, fazendo do lar um ambiente acolhedor, propício para o desenvolvimento saudável e amoroso de todos. Nos anos 90 e 2000, o contexto social mudou. Ainda assim o princípio de proteger as famílias era imutável, mas o modo disso acontecer teria que ser diferente, pois foi notado que era importante para a sociedade a contribuição da mulher através do trabalho. Então, o Papa João Paulo II, observando estas questões, sugeriu que fossem pensadas soluções para o conflito trabalho-família colocando, em seus documentos (como a Exortação Apostólica Familiaris Consortio), a necessidade de também o pai ter uma participação maior na educação dos filhos e de ambos os genitores valorizarem e terem mais tempo com a família. O Papa Francisco, assim como o anterior, Bento XVI, endossa a necessidade de soluções e aponta fatores que ainda precisam de mudanças.

 

Os tempos mudam, as culturas variam, mas a doutrina permanece. A Igreja é sábia em sua doutrina: o que é doutrina é o que é perene, imutável, necessário desde sempre. Portanto se atentem para o que é princípio doutrinal e o que é a aplicação destes princípios. Não confundam uma coisa com a outra, propagando aplicações da doutrina como princípios, pois, além de confusão, isso pode gerar escrúpulos e preocupações desnecessárias nas pessoas... Estudem o Catecismo da Igreja Católica. O que está ali é para sempre!

Letícia M

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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Já temos 4 comentário(s). DEIXE O SEU :)
Tiago Amaral

Tiago Amaral

Que texto bacana! Nunca havia lido um texto assim, tão equilibrado. Não foi o caso de haver os extremos exaltados - nem conservador demais, nem liberal demais, mas equilibrado. Parabéns. O texto está ótimo! Obrigado.
★★★★★DIA 25.03.19 09h44RESPONDER
Letícia M
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Adryana Souza

Adryana Souza

Simplesmente muito bom e esclarecedor! Obrigada pela partilha.
★★★★★DIA 23.03.19 15h38RESPONDER
Letícia M
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Darlene Neves

Darlene Neves

muito rico amei.
★★★★★DIA 22.03.19 17h23RESPONDER
Letícia M
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Heitor F. de Paula

Heitor F. de Paula

Por mais textos como este, que combate o sectarismo e traz a unidade.
★★★★★DIA 15.03.19 12h36RESPONDER
Letícia M
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