O verdadeiro sentido da vida está... No Sexo!

O verdadeiro sentido da vida está... No Sexo!

Recebemos de presente da Editora Cultor de Livros os dois lançamentos do Christopher West sobre Teologia do Corpo (TdC). Day já resenhou um deles e, neste post aqui, pretendo colocar um pouquinho sobre a riqueza que é o livro “Teologia do Corpo para Iniciantes”.

Confesso que pensei que seria mais um texto com ensinamentos “que eu já sabia”. Como somos orgulhosos, não é? Lendo este tesouro, percebi que meu entendimento sobre a relação sexual estava em grande parte ERRADA! Eu entendia apenas uma parte do que a Igreja coloca sobre o sexo. Logo no início, West relembra o ponto 46 da TdC: a relação sexual é a “redescoberta do significado de toda a existência...do significado da vida”. Basicamente o sentido da vida está.... No Sexo! Isso mesmo! É por isso que este tema é tão distorcido no mundo hoje. O demônio conseguiu pegar o que temos de mais parecido com Deus, que é a co-criação, e distorcer isso, pois, transformando algo muitíssimo bom e importante em algo muito ruim, é possível destruir a humanidade inteira. É exatamente a destruição da humanidade por meio da destruição do verdadeiro sentido da sexualidade que observamos em nossa sociedade.

 

“Reflita sobre isso por um momento: se a união dos sexos é, neste mundo, o principal sinal do nosso chamado à união com Deus, e se existe um inimigo que quer nos separar de Deus, para onde você acha que ele vai apontar suas flechas mais poderosas? Se nós quisermos conhecer o que é mais sagrado neste mundo, tudo o que precisamos é olhar para aquilo que é mais violentamente profanado.

[...]

Pense em como o sexo está interligado com a própria realidade da existência humana. Você simplesmente não existiria sem a união sexual entre seus pais... e os pais deles... e os pais deles. Sua existência depende de uma cadeia de milhares e milhares de indispensáveis uniões sexuais que se ligam ao princípio da história humana. Volte algumas gerações na árvore genealógica e remova (ou esterilize) apenas uma união sexual em sua linhagem e você não existiria. Assim como não existiria nenhum descendente a partir daquele ponto da árvore genealógica. O mundo seria um lugar diferente. Quando nós brincamos com o plano de Deus para o sexo, nós estamos brincando com a corrente cósmica da existência humana. A raça humana – sua própria existência e seu próprio equilíbrio – é literalmente determinada por quem está se relacionando sexualmente com quem, e de que forma. Quando a união sexual é orientada para o amor e para a vida, ela constrói famílias e, por sua vez, culturas que vivem a verdade do amor e da vida. Quando ela é orientada de modo contrário ao amor e à vida, o ato sexual gera morte – o que S. João Paulo II, de modo assustador, porém preciso, descreveu como ‘cultura da morte’ ” (Teologia do Corpo para Iniciantes, p. 36 e 38, grifos nossos)

 

Aos que pensam, de maneira maniqueísta, que o corpo é mau, S. João Paulo II vem mostrar que “o corpo é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e divino”. O corpo é alguém – você! – e a partir da perspectiva de que o corpo não é meramente um organismo biológico, mas “um estudo de Deus” – uma teologia! – é formulada a Teologia do Corpo. Como afirma Chistopher West, a Teologia do Corpo “é a própria lógica do Cristianismo”, pois “TUDO no Cristianismo tem seu eixo na Encarnação”. É aí que entra uma parte que pode parecer assustadora para muitos:

 

“Deus convida cada um de nós, de um modo único e irrepetível, a uma intimidade inimaginável com Ele, semelhante à intimidade dos esposos em uma só carne” (Teologia do Corpo para Iniciantes, p. 28)

 

Basta pensar, como cita West, na Eucaristia, que, com seu próprio corpo, Cristo se dá à nós, como o esposo se une à esposa.

 

“É na Eucaristia que o significado da vida, do amor, do sexo, do gênero e do matrimônio é completamente revelado! De que modo? Há uma tentação tão forte de desencarnar e, assim, neutralizar nossa fé, que com frequência nos esquecemos da profunda significância do fato de que há um homem na cruz e uma mulher aos pés da cruz. E não pode ser o contrário. Na analogia esponsal, Deus é sempre o Esposo e a humanidade é sempre a Esposa. Por quê? Porque a humanidade é primeiramente receptiva ao amor de Deus: ‘Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado [primeiro]’. (1Jo, 4,10). O corpo da mulher conta em primeiro lugar a história sobre receber o amor divino enquanto o corpo do homem conta em primeiro lugar a história sobre oferecer aquele amor, sobre derramá-lo. Quanto mais nós insistimos nessa história do amor divino, mais damo-nos conta do porquê somente um homem pode ser ordenado sacerdote: é o esposo que dá a semente ou insemina; é a esposa que recebe a semente dentro de si e concebe nova vida” (p. 34)

 

Quando o entendimento que temos sobre nossa realidade natural está errado, o entendimento que temos sobre a realidade sobrenatural também estará. Tornar-se uma só carne não é somente uma junção de dois corpos, mas a “expressão ‘sacramental’ correspondente à comunhão das pessoas” (TdC, 31,2). Explica West: “Os animais são capazes de cruzar, mas não são capazes de entrar em ‘comunhão’. Somente as pessoas são capazes do ‘dom de si’ que estabelece a comum-união.” (p. 54).

Segundo S. João Paulo II, no princípio era a nudez que revelava a santidade de Deus no mundo visível. Isto porque o corpo humano é completo em todos os seus sistemas, exceto o sexual. O corpo só se torna completo quando unimos o sexo feminino ao masculino e daí uma união tão forte ocorre que uma nova vida pode nascer. É este o sentido da vida: a sexualidade humana!

É verdade que a luxúria deturpou o real sentido do sexo: “a luxúria masculina é frequentemente voltada para a gratificação física à custa da mulher, enquanto que a luxúria feminina é frequentemente voltada para um tipo de gratificação emocional à custa do homem. [...] o homem irá usar o amor para obter sexo e a mulher irá usar o sexo para se sentir amada” (p.66)

Neste sentido, Christopher West resgata S. João Paulo II e mostra dois pontos que contrariam o senso comum de muitos católicos:

1)      Que o homem tem uma “responsabilidade especial’ para restaurar o equilíbrio do amor na relação homem e mulher”. Estamos acostumados a culpabilizar a mulher e (eu mesma entro nisso). Muitas vezes afirmamos que somente ela tem o poder de restaurar a dignidade da sociedade. Mas S. João Paulo II afirma que depende mais do homem (!!!) este reequilíbrio social (TdC 33,2), por isso é importante que os homens sempre examinem suas consciências sobre o motivo que os fazem se aproximar de uma mulher. Mesmo os casados podem não tratar a esposa com a real dignidade e amor que ela merece, tratando-a como objeto sexual em muitas situações vivenciadas no matrimônio.

2)      “Com o pecado original passamos a experimentar uma ruptura entre os nossos desejos e a vontade de Deus para nós” (p. 79). Todavia, diferente do pensamento de muitos, pureza não é puritanismo. O desejo de Deus para nós é que não desviemos o olhar de um corpo bonito, mas passemos a olhar este corpo como um dom de Deus. Chocante? Christopher West explica que a pureza “negativa” desvia o olhar para “evitar o pecado” – e para muitos que ainda não estão amadurecidos na fé isso é necessário. Por outro lado, a pureza madura e positiva não se refere à repressão sexual. Escreve West: “Os céticos responderão: ‘Impossível! O corpo nu sempre despertará a luxúria’. Para a pessoa dominada pela luxúria isso é verdadeiro. Mas “de que homem se fala?”, pergunta São João Paulo II. ‘Do homem dominado pela concupiscência ou do homem redimido por Cristo?’ Pois é isso que está em jogo: a realidade da redenção de Cristo. [...] Aqueles que vivem pela suspeita permanecem tão encarcerados em suas próprias luxúrias que projetam as mesmas amarras para todas as outras pessoas. Eles não podem imaginar nenhuma forma de pensar sobre o corpo humano e a relação sexual diferente do pensamento sob o prisma da luxúria. Quando, devido à luxúria, nós colocamos o coração humano em um ‘estado de contínua e irreversível suspeita’ (TdC 46,4), nós nos condenamos a uma existência sem esperança e sem amor. Condenamo-nos a uma religiosidade farisaica de conformidade exterior às regras (ética) sem uma transformação de coração (ethos)”. (p. 87)

É por isso, queridos leitores, que não podemos ficar colocando regrinhas para modéstia, namoro santo e afins. Devemos buscar amar – o resto se torna consequência. Pode ser que você ainda esteja questionando: “Ok, devo ser puro de coração e não reprimir minha sexualidade. Mas COMO não reprimir minha sexualidade? Qual a diferença entre reprimi-la e ordená-la?”

Nosso grande Christopher West responde a estas perguntas de uma maneira muito clara e palpável, recorrendo à S. João Paulo II:

 

“Para crescer na pureza, devemos nos dedicar a uma ‘progressiva educação no autocontrole da vontade, dos sentimentos, das emoções, que deve se desenvolver a partir dos gestos mais simples, nos quais é relativamente fácil traduzir em ação a decisão interior’ (TdC 128,1). Se você não pode dizer não a uma batata frita, como você dirá não à indulgência da luxúria? [...] Quando a luxúria se inflama bruscamente, a maioria das pessoas pensa ter somente duas escolhas: satisfazer ou reprimir. Se essas forem as duas únicas opções, qual parece mais ‘santa’? A repressão. Contudo, existe outro caminho! Em vez de reprimir a luxúria tentando empurrá-la para o subconsciente, tentando ignorá-la ou buscando aniquilá-la, devemos submeter nossa luxúria a Cristo e permitir que Ele a ‘crucifique’” (p.89)

 

Em outras palavras, a “receita” que sempre damos aqui no blog é muito segura e recomendada pela Igreja: buscar os sacramentos e se mortificar. A mortificação, especialmente através do jejum, educa nossos sentidos e permite que tenhamos o autodomínio.  Afirma São João Paulo II, no ponto 48,1 da TdC, citado por Christopher West (p. 93): “A pessoa que é verdadeiramente dona de si mesma é capaz de direcionar o eros ‘para aquilo que é verdadeiro, bom e belo, de modo que aquilo que é ‘erótico’ se torna também verdadeiro, bom e belo”.

Este exemplo não está no livro, mas vou contar aqui para ilustrar. Tenho amigos que tiveram um passado desregrado e, ao se converterem, têm muita dificuldade de enxergar um beijo no namoro como algo belo e puro, como uma demonstração de afeto e um caminho para uma intimidade que virá a se aprofundar no matrimônio. Entretanto, percebi que este tipo de visão, mais pura, é mais fácil para aqueles que “já nasceram na Igreja” e desde criança receberam uma boa educação moral e pautada no autodomínio. É claro que por maior que seja nosso autodomínio algumas situações podem ser ocasiões de pecado para algumas pessoas – e convém sempre evitá-las. Porém, a questão que trago aqui é sobre como a deturpação da nossa visão sobre o corpo e a sexualidade deforma também nosso modo de demonstrar e viver a afetividade em nossos relacionamentos. E a chave para entendermos praticamente tudo está exatamente na vivência e entendimento correto da sexualidade humana.

De uma maneira que não conseguimos nem imaginar agora, na Ressurreição iremos participar da Natureza Divina. Em um post que fizemos sobre o Natal, colocamos que Deus quer nos divinizar, quer nos endeusar. Seu Amor é tão infinito que Ele quer que participemos com Ele de Sua glória. E o que a sexualidade tem a ver com tudo isso?

 

“Aqueles que ressuscitarem na glória experimentarão uma bem aventurança muito superior à união sexual terrena que nossos pequeninos cérebros não podem nem começar a compreender. [...] Isto significa que o matrimônio foi designado por Deus ‘para ensinar as criaturas humanas sobre o que é verdadeiramente a história humana’. [...] O que nós precisamos entender é que a união dos sexos não é nosso tudo e nosso fim. Ela é apenas um ícone, um sinal de algo infinitamente maior. [...] Quando perdemos de vista essa união infinitamente maior, inevitavelmente tratamos o ícone como um ídolo. Em outras palavras, quando perdemos de vista as alegrias do céu, tendemos a ver a união sexual e os prazeres físicos como nossa realização última. [...] Ainda, há um importante elemento de verdade na obsessão idolátrica de nossa sociedade pelo sexo. Recorde-se que por trás de todo falso deus nós descobrimos nosso desejo torto pelo Deus verdadeiro. A confusão sexual tão prevalente em nosso mundo e em nossos próprios corações é, na verdade, o desejo humano pelo céu que foi distorcido. Reordene as distorções, e nós descobriremos a estarrecedora glória do sexo no plano divino. ‘Por esta razão, os dois se tornarão uma só carne’. Por qual razão? Para revelar, proclamar e antecipar a eterna união entre Cristo e a Igreja”. (p. 100-103)

 

Quando estamos apaixonados, quando um casal que viveu castamente o namoro se casa, quando um novo filho nasce e o amor entre os esposos é fortalecido: estas são pequenas alegrias profundas que vivenciamos aqui na Terra e que são um prelúdio da Alegria Eterna do Céu. É por isso que o sentido da vida está no sexo: porque este breve momento de prazer é um anúncio da união perfeita e infinita felicidade que teremos com Deus na Eternidade!

 

O livro “Teologia do Corpo para Iniciantes” pode ser adquirido pelo site da Cultor de Livros.

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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