Porque ser radtrad parece mais correto que ser equilibrado

Porque ser radtrad parece mais correto que ser equilibrado

 Quem está acostumado a participar de grupos de facebook ligados ao catolicismo já deve ter se deparado com diversos ensinamentos de santos e padres que não necessariamente são doutrina, mas são seguidos à risca por diversos fiéis. Na linha da modéstia, são super comuns os debates acerca do que é ou não modesto. Nos relacionamentos, conselhos e frases sobre o que deve ou não acontecer no namoro e casamento. Alguns pontos pregados, por serem descontextualizados e descolados do corpo doutrinal que oferece a Igreja, podem levar muitas pessoas à extremos e estes conduzirem ao erro.

Há algum tempo venho refletindo porque algumas pessoas se deixam levar por extremos (eu mesma já tive minhas épocas de radicalismos). Estou declarando guerra contra os que são mais tradicionalistas? De maneira alguma! Apenas quero apontar porque ser mais radical não é tão saudável como muita gente pensa - pelo contrário, as épocas que aderi ao radicalismo foram as piores que vivi. Além disso, viver o verdadeiro catolicismo é sadio e libertador; não nos escraviza, mas sim nos torna melhores.

Nas minhas reflexões, encontrei quatro razões que podem explicar, ao menos em partes, porque ser radtrad parece mais correto que ser um católico equilibrado que tenta ser santo ao seguir a doutrina.

 

1.  É mais fácil ser “like a boss” que buscar entender e aplicar princípios

Quem tem uma sólida base doutrinal já estudou o Catecismo da Igreja Católica de cabo a rabo, já leu cuidadosamente diversas encíclicas papais e já buscou estudar obras confiáveis sobre a história da Igreja. Se for uma pessoa de vida de oração constante, dificilmente será radical, porque este sujeito sabe que a Igreja é baseada em princípios – não em regrinhas para cada situação de nossa vida. Assim, a pessoa buscará viver e aplicar estes princípios regada por uma vida de sacramentos e oração.

O bom católico sabe que somente com a graça de Deus, somente com uma vida de sacramentos, orações diárias, e também boa formação doutrinal, é possível adquirir perspicácia para agir da maneira correta em meio ao mundo.

Nem sempre vamos saber como devemos agir. Cada vida é muito singular para dizer que na situação X deveríamos agir assim ou assado.

Porém, para os radicais, a vida é cheia de regras. Desde as roupas que usamos até o modo como devemos nos portar em sociedade: para tudo há uma frase ou indicação. Falas de santos costumam ser descontextualizadas ou mal interpretadas e sermões de padres costumam ser usados como se fossem doutrina aplicável a todos os fiéis católicos. Se você não os segue, é taxado de “morno”, “hipócrita” ou até “católico meia boca”.  É mais fácil ser católico radical porque você não pensa, não pede a graça de Deus, apenas age seguindo regras. Parece mais “like a boss”. Parece mais “quente”. Parece o mais correto. Só parece.

Jesus condenava os fariseus por seu julgamento e falta de misericórdia. Muitos radicais, mesmo sem essa intenção, se comportam como fariseus: julgam, não são misericordiosos, criticam o Papa e os outros católicos que não se comportam como eles. Esquecem de olhar como é o coração destas pessoas, as obras de caridade que fazem, a vida de oração que vivem.

Quando li o livro de Chiara Corbella Petrillo, vi a foto dela de biquíni ao lado do namorado, passando férias na praia. Fiquei pensando que se fosse na minha época mais radicalista, eu condenaria Chiara por aquele comportamento. É claro que não é aconselhável usar biquíni na praia, mas a questão é que independente disso Chiara foi santa! Uma vez uma moça de um apostolado de modéstia radtrad estava conversando comigo e quando citei que Beata Chiara Badano usava calças, esta disse algo como: “Ela era uma rebelde, desobediente com os pais, não é exemplo”.

Muitas vezes o caminho do radicalismo desemboca no farisaísmo. Achamos que podemos julgar e condenar os outros, passando por cima até da própria Igreja. O remédio para isto é uma rotina diária e disciplinada de oração, sacramentos e estudo da doutrina.

2. Oito ou oitenta para quem teve vida desregrada

Não vou generalizar, mas muita gente que adere ao radicalismo já teve uma vida desregrada e bem longe dos princípios cristãos. Quando a pessoa, através de uma pregação ou apostolado, percebe que vive de maneira errada, resolve se converter ardentemente. Isto é muito bonito! O problema está que na conversão, especialmente para quem não era autenticamente católico, é mais fácil ser 8 ou 80. É difícil ser equilibrado, exatamente porque a pessoa não sabe como agir de maneira equilibrada. Se ela não sabe os princípios da doutrina, como vai saber aplicá-los? Como vai saber se convém um divertimento ou não e como se comportar nesse divertimento se ela não tem nenhuma base moral?

Eu entendo que para quem é recém-convertido, às vezes é melhor se privar de certas coisas até ter uma vida mais ascética (disciplinada). Mas não dá para se acomodar nos extremos e achar que tudo é pecado para todo mundo.

Em primeiro lugar, é preciso se auto-perdoar, perdoar seu passado e o que te levou a uma vida errada. Depois, é aconselhável buscar boa formação doutrinal (temos o apostolado Salus in Caritate, Opus Dei, Padre Paulo Ricardo*, entre outros bons sites) que te ajude a, aos poucos, ir assimilando e entendendo a doutrina. Recomenda-se, também, ler o Catecismo da Igreja Católica (um pedacinho por dia) e buscar ajuda caso não consiga entender algo. Se possível, leia a vida de santos leigos como Pier Giorgio Frassati, Chiara Corbella Petrillo, Chiara Luce Badano, Gianna Bereta Molla, Guido Schaffer, entre outros. Eles te ajudarão a entender que não precisa ser esquisito nem apartado do mundo para ser santo. Ah! Livros de S. Josemaria Escrivá, como “Amigos de Deus” e “Caminho”, também são boas indicações.

Para conseguir a ascese e o autodomínio, busque constantemente se mortificar. 

Aqui damos algumas sugestões de mortificações simples e discretas!

 

3. Educação rígida e que não experimentou o amor e a misericórdia

Geralmente quem teve uma educação rígida ou escrupulosa - seja pela família, seja pelo colégio – tem uma tendência a ser mais radical e uma certa dificuldade em experimentar o amor e a misericórdia. Isso porque enxergam Deus como vingador (como no Antigo Testamento) e não como Pai Amoroso (como nos apresenta Jesus). É comum, inclusive, que estas pessoas sejam perfeccionistas e tenham dificuldade em perdoar.

O amor e a misericórdia são frutos de exercícios diários. Nossa tendência natural – especialmente para os coléricos -  é proferir palavras ríspidas e brigar mostrando que estamos certos. É muito comum observarmos os católicos radicais discutindo nas redes sociais. Muitos citam Santo Padre Pio de maneira descontextualizada, condenam os que vivem um catolicismo “morno” (na opinião deles) e exibem uma casca de orgulho, como se somente eles fossem católicos de verdade, o resto está condenado ao inferno.

O amor e a misericórdia de Jesus Cristo não adentra o modo como falam (e talvez vivam). Será que fazem obras de caridade? Será que são bons trabalhadores? Será que seus familiares e amigos, pessoas que convivem com eles, gostam deles ou os acham uns chatos?

Não estou generalizando – que isto fique claro. Estou fazendo observações com base nas pessoas mais radicais que conheci, nas que observei na internet e no que vivi no (breve) período que fui mais radical.

Nunca vi uma obra social com católicos radicais. Os católicos acostumados a trabalhar com pobres e marginalizados são muito empáticos e misericordiosos. Sabem que o irmão que está ali poderia ser um de nós. Também nunca vi um radtrad que era bem visto pelas pessoas. Esse papo de que “devemos agradar a Deus independente do que as pessoas pensam” precisa ser ponderado. Que exemplo estamos dando para os não-crentes se somos umas malas sem alça? Alguém aí gosta de ficar perto de pessoas que não nos fazem bem? Eu já conheci uma pessoa radical que mais afastou gente do que aproximou de Deus. Isto porque toda a hora a moça queria falar de Jesus. Isto irritava muito as pessoas e deixava mais marcado o esteriótipo do católico ser bitolado. Se para nós, que temos uma certa caminhada, é difícil viver a fé, se santificar, imagina para quem está totalmente afastado da Igreja?

Os radtrads costumam ser radicais com os outros porque viveram essa radicalidade em algum momento de suas vidas. Para alguém que não experimentou a doçura do amor, é difícil usá-lo com outras pessoas.

Para exercitar o amor e a misericórdia, que tal se engajar em alguma obra social? Participar de alguma pastoral como a de rua ou a carcerária? Fazer trabalhos voluntários? Esta é uma boa ideia para, aos poucos, ver que Jesus veio para todo mundo! Tentar conhecer a história de vida dos que estão ao seu redor também pode ajudar a exercitar a empatia.

 

4. Desejo de santidade

Muitos, desejando ardentemente a santidade, acabam por cair em extremismos. Não é por mal, não é porque a pessoa quer “condenar” os outros, é por pura e simplesmente vontade de ser alguém melhor! Muitos santos passaram por períodos de radicalismo e escrúpulo exatamente porque queriam agradar a Deus a todo custo. Aos poucos perceberam que não era esse o caminho. Neste sentido, Deus, em seu infinito amor e graça, irá conduzir os que verdadeiramente desejam a santidade ao caminho mais correto e equilibrado.

 

Leia também:

- Porque me tornei uma católica não-confessional

- Nó na garganta I: Modéstia e Castidade

- Nó na gargante II: A santidade é para todos

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* Videos do Padre Paulo são excelentes, mas nem todos os textos publicados em seu site são vistos por ele, isto é, muita coisa é escrita por sua equipe. Assim, prefiro recomendar o que o Padre Paulo fala, mas não necessariamente o que sua equipe escreve.

Letícia B

A partir da necessidade de me aprofundar em assuntos de filosofia, sociologia, antropologia, e da relação destes com virtudes e religião, surgiram alguns textos que humildemente compartilho neste blog. leticia@modestiaepudor.com

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