Quando somos estranhos para os nossos pais

Quando somos estranhos para os nossos pais

Escrever sobre pais e filhos é sempre algo difícil, pois pode estar a me ler uma pessoa com pais maravilhosos e outra com pais alcoólatras, com algum vício ou ainda que são fruto de um estupro.

 
No entanto, existe um momento que se repete em todas as vidas: somos estranhos para os nossos pais e nossos pais são para nós completos estranhos.

 

Sei que parece muito indelicado falar dessa forma, mas não posso ocultar a verdade que acontece com todos. Apesar de todo amor, esse momento chega, sempre. Exceto para aqueles que acabam de alguma forma sendo cópias exatas dos pais, o que é bem difícil ocorrer na realidade.

 
Portanto, esse momento é completamente esperado, no entanto, pouco se fala dele. E deve se tornar cada vez mais esperado dependendo do desenvolvimento da sua vida. Para me fazer entender, podemos começar a pensar em coisas simples, muitos são os pais que não fizeram universidade e os filhos sim, isso é ótimo, mas na prática é uma diferença entre os filhos e os pais que pode ou não interferir em sua relação. Se fizermos isso com todas as áreas que compõem um ser humano, ou seja, escolhas quanto ao caminho das virtudes, a vida espiritual, o conhecimento intelectual, a tendências em fazer as escolhas baseadas em princípios morais e ainda as pequenas práticas diárias e decisões de como se vestir, se comportar e falar ... enfim, podemos chegar a ter diferenças grandiosas. Não me refiro diferenças como alguém que é melhor, mas que tem outras escolhas. Não é possível usar esse termo melhor, pois, existem os que têm a si mesmos em alta conta em relação aos pais e não o são na prática e aqueles que se têm em baixa conta e não o são. 

 
De modo que a ligação com os pais exerce sempre sobre nós um certo ponto de referência sobre o que podemos imitar ou devemos evitar. Digo ponto de referência, pois, muitos de nós não recebemos toda a instrução dos nossos pais, recebemos de professores, catequistas, padres e diretores espirituais, a vida dos santos e livros.

 
Me refiro a livros como instrutores, pois, quanto mais você lê mais referências de comportamento, virtude e objetivos têm e isso, caro leitor, muda e transforma quem você é. 

 

Portanto, essa situação de tensão, de que as pessoas não te compreendem é normal. Cada um passa por ela com maior ou menor intensidade, mas passa. Mas é claro que quanto mais altos são seus ideais de bom mais discrepância haverá. E isso é normal, é esperado. É uma tensão normal da vida.

 
Acontece que nós queremos que os pais sejam nossos instrutores perfeitos, é um desejo filial normal, assim como os pais colocam sobre nós expectativas e projeções do melhor que eles conhecem, ambos inconscientemente. No entanto, eles não podem conhecer o melhor do melhor em tudo e também não podem ser os instrutores perfeitos que esperamos. Mas são os pais que temos, sem o DNA de cada um deles, biologicamente você não seria você. Mas tudo que faz parte de você será construído com a vida e isso te tornará outra pessoa que não são os seus pais.

 

Isso causa estranhamento, eles no fundo sempre acreditam que os filhos são, de alguma forma, parte deles, deve ser bem estranho perceber que o filho é uma outra pessoa, com outros valores e sonhos. E nós, por outro lado, queremos que eles entendam e muitas vezes mudem conosco e vivam também a maravilha que descobrimos. E é nesse momento que podem surgir os conflitos.

 
Acontece, que eles podem nunca descobrir essa tal maravilha, eles são outras pessoas, trilharam outro caminho, viveram outra vida e podemos chegar a mesma opinião em tempos diferentes ou não. Essa é a verdade.

E maior verdade ainda é que pode ser que eles simplesmente não gostem e se voltem contra o que decidimos seguir, mesmo sendo valores nobres, da religião e da moral. Eles podem ser os que seguram o açoite da santificação a cada dia, o olhar de esguelha, a fala áspera e maliciosa, as indiretas, as frases que parecem que puxam briga, um comentário sobre alguma coisa que você pensa ou veste. Tudo isso pode acontecer e acontece com muita gente. E isso não é um sinal que você é melhor, que está sendo perseguido pela sua família, é um sinal que você tomou uma decisão e sua vida tem um rumo diferente da vida dos seus pais.

 

E quem tem que ter noção disso é você. Não espere nenhuma a mudança deles, não espere apoio moral. 

 
Santa Tereza e São João da Cruz escreveram capítulos em seus livros sobre apego as criaturas. Somos pessoas apegadas e podemos nos apegar a tudo, sobretudo pessoas. E muito do que queremos dos nossos pais vêm desse apego, da necessidade de aprovação, da estrelinha no quadro azul e do apoio moral com pom pom quando nos decidimos por alguma coisa. Mas isso pode ser feito por eles ou não, você pode ter pais que façam isso ou não.

 

Eu venho de uma família católica, mas pouco praticante, eles fazem um pouco menos do mínimo, tudo que sei sobre a fé aprendi nos livros (quase tudo), com os padres e meu diretor (que demorou mais que estrela cadente pra aparecer) que me responde algo que não entendo. Mas eles, meus pais, sempre falavam que devia fazer o bem e ler (embora nenhum deles leia, por não terem estudado muito) e fui encaminhada pela minha mãe a fazer todos os Sacramentos (portanto, ela me orientou a ter todo tesouro que importa) e um dia um catequista do Crisma disse: "um cristão deve ser o melhor que conseguir ser em tudo que faz". Portanto, esperar pom pons nunca foi uma prerrogativa para mim, tive que aprender a fazer sem aplausos e isso não me dá mérito nenhum, é minha obrigação ser o melhor que posso ser.

 

E é isso que nos faz manter as decisões no bem, nos valores e não esperar que venha dos pais alguma aprovação.

 
Abrãao foi orientado a deixar "terra, parentela e a casa do pai". É fácil sair de casa, é fácil te garanto, a distância física não é o seu problema. Abrãao prova isso, Deus o manda sair de sua terra e ele saí, vai morar longe de sua parentela. Ele deixa de ter contato com os pais e os parentes pela distância, vive a seu jeito, com Deus. Veja bem a situação, uma pessoa de uma família pagã começa a escutar a voz de Deus, desconhecido de seus pais e faz o que Ele manda. Abrãao já era homem feito, casado e vivia, como todos no oriente, numa casa familiar, todos juntos, semelhante ao que vivemos hoje no Brasil, todos de alguma forma moram perto ou na mesma casa, são raros os casos de pessoas com parentes bem próximos extremamente separados. 

 

Voltando a Abrãao, ele devia ter se tornado um alien para os seus pais, só podemos imaginar o que aconteceu naquela família, lembrando que mesmo entre os pagãos sempre houve alguma hierarquia familiar. De modo que Abrãao se distancia fisicamente mas podemos ver que ele ainda está em terras de seus pais, por assim dizer. Ele não saí do seu país, ele fica ali na fronteira. De modo que o ponto, não é sair fisicamente é conseguir desapego de coração. Abrãao conseguiu isso depois de um tempo e saiu da fronteira, algo no coração o prendia a seus pais.

 
Estou a contar esse exemplo para mostrar que a tensão da diferença entre pais e filhos é normal, na vida dos santos é praticamente a regra, mas a solução nem sempre está em fazer as malas fisicamente e ir-se embora, os apegos do seu coração vão aonde você for e a falta da aprovação que você deseja, vai também com você. O desapego do coração é conseguir seguir os conselhos altos que Deus nos dá em sua doutrina e Palavra, independente dos olhares de aprovação ou não dos pais. Isso é o desapego: um distanciamento saudável. Substituir o olhar dos pais e parentes pelo Olhar do Pai Celestial. 

 
E não adianta brigar. É comum que ocorram desentendimentos e quem têm que tomar a decisão mais elevada é quem esta buscando ser melhor. Portanto, o silêncio transforma mais que palavras. Nós precisamos nos lembrar que eles podem simplesmente não entender as palavras, então o testemunho, aquilo que se faz todo dia, o silêncio que é uma não-resposta - simplesmente você não revidar os olhares, as palavras mal intencionadas - e aos poucos as munições acabam. Mas não brigue com eles, não discuta, não corte relações. Isso, leitor, é o que os santos chamam de batalha contra o mundo, pois no mundo, estão também as pessoas que te rodeiam, mas essas pessoas também são almas amadas de Deus. Percebe o cuidado que precisa ter?

 

Não espere acolhimento, o amadurecimento da fé passa por isso e o distanciamento físico tem pouco ou nada em relação a isso. O que está em questão é o desapego interior das criaturas.

 

Como diz Santa Tereza: Prosseguir, mesmo que o mundo venha abaixo.

 

Mas não se torne alguém intratável, indelicado, pois seria como reproduzir o que te fazem. Sei que é difícil, mas podemos ver como uma forma de ser na realidade, na prática e não somente nas palavras, pessoas melhores, não em relação ao outro mas ao que fomos um dia. 

 

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Ana Paula Barros

Católica, fisioterapeuta e professora. É idealizadora do projeto Salus in Caritate, o projeto visa oferecer formação humana, espiritual, doutrinal.  

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