Resenha: "No sim de cada dia" - Edições Shalom

Resenha: "No sim de cada dia" - Edições Shalom

O livro No sim de cada dia conta a bonita, forte e autêntica história de amor história de dois jovens, Luciane e Daniel, ambos missionários da Comunidade Católica Shalom. Ela estava na missão aqui no Brasil, e ele, na missão de Toulon, no sul da França. Eles se conhecem, em 2004, no Halleluya, um festival de artes que ocorre em Fortaleza, no mês de julho, promovido pelo Shalom. Depois de um tempo, de muita oração e discernimento, iniciam um namoro a distância, percorrem um caminho até o noivado, chegando ao matrimônio, sempre com um olhar fixo Naquele que foi convidado desde o começo a ser o centro da vida do casal.

Com apenas onze meses de casada, Luciane é diagnosticada com câncer. Daniel se desdobra entre os cuidados com a esposa e as atividades da missão. “No sim de cada dia, eles aprendem a viver plenamente a oferta de si pela humanidade, conforme a feliz e santa vontade de Deus”.

 

Daniel e Luciane não falam deles mesmos: são reveladores de um Outro. Um Outro que os amou, escolheu e desenhou neles os traços da Cruz e da Ressurreição. Eis o conteúdo do qual a vida deles é portadora: a beleza da vida matrimonial é uma beleza pascal!. (...) “a vida deles é bela”, (...) esta beleza significava: testemunho, virtude, amor, cuidado, presença, acolher os limites, aprender com os limites: um tesouro habitando vasos de argila, Deus habitando a fraqueza!

De fato, a vida deles é bela, porque é “Páscoa”. É bela como a manhã daquele “primeiro dia da semana”, em que Cristo sai glorioso do sepulcro, trazendo em si as glorificadas marcas da Paixão. Há fraqueza e limite, assim como há glória e vitória. Uma “vida vivida” que por si só evangeliza a mediocridade do nosso coração. 

 

Na introdução, o Daniel relata que o livro vai contar não os “feitos pessoais” deles, “mas celebrar as maravilhas do Senhor, que age nos instrumentos mais inadaptados”.

 É interessante que a leitura desse livro, o relato da vida real de um homem e uma mulher, um casal dócil e inteiramente abandonado à ação de Deus na vida deles, confirma e reafirma em nosso coração tudo o que lemos e aprendemos das catequeses do amor humano de São João Paulo II. Nesse mundo tão confuso e cheio de ideias distorcidas sobre o Criador e a criatura (o homem de hoje tende a focar o olhar em si mesmo, no seu umbigo, e a ignorar Deus), sobre o amor, sobre a família, a história desse casal e o relacionamento deles com Deus é um bálsamo, uma bela e suave sinfonia para os nossos sentidos, um testemunho que nos dá esperança e nos aponta como viver uma vida com sentido: Deus precisa estar no centro de tudo.

 

Muitas pessoas, com o desejo de amar e serem amadas, se perdem de si mesmas, deixam de viver uma vida com propósito, em Deus, seduzidas por caricaturas de amor, buscando preencher uma carência, que só pode ser saciada em Deus. Vão atrás de uma ilusão e optam por falsos amores, tão falsos que são fechados neles mesmos. As fontes desses amores, o centro deles, o seu alicerce, são, em regra, os prazeres desregrados, o “sexo livre”, o consumismo, uma vida a dois que começa num qualquer de repente. Uma vida que cai, inevitavelmente, no vazio já que o coração humano tem sede de infinito, foi criado para algo tão perfeito, tão sublime, tão absoluto, que só se pode encontrar em Deus.

 

O casal Luciane e Daniel opta, desde o início, por colocar Deus no centro de seu relacionamento. Ou seja, o Senhor é convidado a estar com eles, a fazer parte do namoro, do noivado, do matrimônio. Olha quanta gentileza! Deus é um cavalheiro, criou-nos livres, não invade espaços, não viola nossa vontade, mas espera ser convidado para entrar e permanecer em nossas vidas. Então, já não são dois, mas três: o Daniel, a Luciene e o Senhor, a própria Fonte de amor. Eles entenderam que nenhum deles consegue saciar plenamente a sede imensa de amor do outro, nenhum deles consegue realizar plenamente o outro... Mas descobriram Aquele (e somente Ele) que tudo isso pode fazer, e, assim, não fizeram outra coisa senão abrir os corações, a Ele tudo entregar e Nele se abandonar sem reservas.

 

Deus é o único ser que nos conhece perfeitamente. (...) Por isso, sendo Deus a única pessoa que nos conhece por inteiro, ter um relacionamento com Deus é a chave para bem discernir que rumo dar à própria existência. Por isso, ter medo de perguntar a Deus o que Ele deseja para a nossa vida é como ter medo de ser feliz. Deus sabe – e ninguém como Ele – qual o caminho que nos permitirá desenvolver toda a nossa capacidade de bondade, de amor, de verdade, de beleza.

 

O livro nos apresenta um amor esponsal, um dom total de si pelo outro. Revela o sólido e provado amor de um esposo que ama sem medida. "Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo", já dizia Santa Teresinha. Um homem, forjado na Cruz e sustentado no Amor, que não sucumbe às dificuldades e sofrimentos da vida, da vida conjugal, mas ama com um amor que aponta para o Infinito. Um amor com uma meta firme: o Céu. Um amor, uma força interior e uma fidelidade, fidelidade na Cruz, que nos constrangem e nos impulsionam a buscar, não uma caricatura de amor, mas um amor verdadeiro, um amor sólido e até o Céu. O testemunho deste casal de missionários da Comunidade Shalom nos confirma que o anseio mais profundo do nosso coração, que nos faz desejar um amor genuíno, não nos enganou. Existe sim amor de verdade, amor onde Deus é o centro e que conduz ao Céu. É uma bela experiência do amor humano vivido no plano divino, é a teologia do corpo na prática. Nesse tempo de tantos amores líquidos, amores intensos, mas fugazes, a história do Daniel e da Luciane nos convida a voltarmos nosso olhar para o Infinito e a acreditar num amor verdadeiro, sólido, um amor que permanece na alegria, mas também na tristeza, nos dias bons e naqueles nada bons, na saúde, mas também na doença, um amor que tem uma meta firme: o Céu.

 

No dia 12 de junho de 2012, com 11 meses de casado, estou tomando banho por volta das 13h, antes de ir para uma reunião, quando escuto minha esposa gritando de dor no quarto. Eu saio correndo. Ela gritava e chorava com uma terrível dor na cabeça. Não conseguia mais mexer as pernas. Eu orava em línguas alto, abrançando-a. (...) No hospital, após o exame, vejo um batalhão de médicos se aproximarem de mim e cai a sentença: “Sua esposa está com um tumor no cérebro”. (...) Permitiram-me ficar ao seu lado na UTI naquela noite, porque não esperavam que ela sobrevivesse. (...) Meu Deus, quanta dor! Veio-me como uma imagem interior de um julgamento, talvez parecido com o julgamento final: vieram aqueles 11 meses de casados e a pergunta: nesses meses que Deus me deu ao seu lado, eu a levei para Deus? Eu a amei? Eu pedi perdão? Eu perdoei? Eu acolhi? Eu me deixei acolher? Eu cuidei dela? Eu me deixei cuidar? Senti que precisava responder àquelas perguntas para não enlouquecer. Graças a Deus a resposta foi: sim, sim, sim, sim. (...)

Entendi o que fez os discípulos abadonarem Jesus na Cruz. O desespero de ver alguém que amamos sofrer tanto nos faz desfalecer e perder a coragem. Mas entendi também o que fez Nossa Senhora permanecer ao lado de Jesus na Cruz: o Amor. Meu amor pela Luciane não permitiu que eu a abandonasse. Diante da Cruz, a única realidade que nos mantém de pé é o Amor. Precisava permanecer no Amor; o Amor que nos crucifica é o mesmo Amor que nos mantém de pé, que nos faz fiel. Nossas lágrimas se misturavam, mas o Amor nos mantinha numa união inabalável. Precisávamos beber o cálice até o fim, e no fundo do cálice estava a pérola da Paz.

 

 O matrimônio é a imagem do amor esponsal entre Cristo e a Igreja.

Após o diagnóstico do câncer e a cirurgia, Luciane inicia o tratamento de quimioterapia, período de luta em que o esposo se desdobra em cuidado e amor, como lemos no seguinte trecho:

 

Nos primeiros dias, eu tinha que ajudá-la em tudo: no escovar os dentes, dar banho, limpá-la. Mas, desde o início, Deus me deu um profundo amor por esses momentos, pois eu sabia que por pouco poderia tê-la perdido naquela primeira noite. Em um dia em que ela se sentiu muito ferida por precisar de tanta ajuda nas mínimas coisas, eu lhe disse: “Amor, não se preocupe de me cansar. Eu disse a Deus que se estivesse no meu poder escolher, eu preferia cuidar de você assim até os 80 anos do que perdê-la”.

 

Esse livro me tocou profundamente. É belíssimo ver o amor do Daniel e da Luciane, e o sereno e total abandono deles a Deus, uma confiança na Providência tal que nos constrange. Chega a ser consolador ler o testemunho desse esposo que ama sem medida, ama na alegria, mas ama também na dor. Ama na saúde, mas também ama e cuida com esmero e ternura de sua esposa na doença. Quando terminei de ler o livro fiquei imaginando que todo mundo poderia buscar um amor como esse. Em geral, as pessoas têm buscando e se contentado com caricaturas de amor, algo tão distante de um amor de verdade. Testemunhos como esse vêm para nos mostrar que o anseio mais profundo do nosso coração não nos enganou, amor de verdade existe sim. E é preciso acreditar nisso. Afinal, vai nos recordar o Papa Francisco que é “o amor que tudo transforma”.

 

Por fim, peço a você que lê esta resenha que faça uma oração por esse casal. Eles seguem a vida missionária e continuam lutando para vencer a doença de Luciane. Recomendo a todos a leitura desse livro. E reafirmo que vale a pena conhecer a bela história de amor de dois jovens decididos a viver inteiramente a vontade de Deus, “acolher a humilde realidade da vida” e ser luz e sal neste mundo.

 

 O livro No sim de cada dia pode ser adquirido na Livraria Shalom.

Dayane Negreiros

Entusiasta e divulgadora das catequeses sobre o amor humano no plano divino, de São João Paulo II, a Teologia do Corpo. Filha e devota de Nossa Senhora de Guadalupe. Pró-vida. Membro da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Brasília.

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