Tempo de espera é momento para viver bem e ser feliz

Tempo de espera é momento para viver bem e ser feliz

A espera por um amor é fácil? Em geral, não estamos acostumados a esperar e toda espera nos causa alguma insatisfação, gera algum incômodo. Esperar, então, por um grande amor é custoso, exigente. Entretanto, nós, seres humanos, diferente dos animais, somos dotados da incrível capacidade de fazer escolhas e tomar decisões. E inclusive de escolher como viver esse momento.

Você pode escolher viver bem esse tempo, com alegria, leveza, bom humor e disposição, aprendendo ao máximo com os ensinamentos próprios desse período. E investir seu tempo nas pessoas que você tem por perto, em atividades, cursos, projetos, no aprendizado de coisas novas, na busca por se desenvolver como pessoa e ser alguém melhor (sempre existem áreas de nossa vida em que podemos melhorar) e buscar crescer em virtudes. Ou você pode escolher viver esse momento como quem tem uma nuvem pesada sobre a cabeça e, assim, desperdiçar seu precioso tempo. Mas, repito, a escolha é sua.

É importante ter noção da complexidade do mundo atual para sabermos que algumas dificuldades que passamos têm muito a ver com o contexto do mundo moderno. Isso nos ajuda a entender e a lidar melhor com algumas coisas.

Vivemos em um mundo onde valores, virtudes e princípios são cada vez mais atacados. A sociedade atual abre cada vez mais espaço ao permissivismo, ao imediatismo, ao relativismo, ao egoísmo e à cultura do descartável. Ensina que se deve evitar qualquer esforço. Então, aí temos o cenário ideal para os ‘amores líquidos’, como dizia Bauman, filósofo e sociólogo polonês, que, no livro Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos, fala o seguinte:

“E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para o uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de uso total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira), de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço. (...) E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir.”

Como apresenta Bauman, estamos imersos em uma cultura que tem pavor em esperar o tempo de cada coisa, preferindo a ‘satisfação instantânea’. Uma geração que vive confusa entre assumir compromisso verdadeiro e deixar todas as portas sempre abertas. É importante não ser ingênuo quanto às realidades que nos cercam e, principalmente, não se deixar levar por elas.

É preciso ter bem claro, também, que a finalidade primeira de um relacionamento não é trazer felicidade. Relacionamento não é garantia de felicidade. Ou seja, sua felicidade não depende de outra pessoa, mas sim de você, da forma como você encara a vida, das suas escolhas diárias e da sua força e disposição para viver bem e feliz. Não se deve entregar nas mãos de outra pessoa a tarefa de fazer você feliz. Essa tarefa é sua. Não coloque sua felicidade à mercê de outra pessoa.

É importante também sondar o coração e ver se você não está com falsas ou exageradas expectativas em relação ao relacionamento que espera chegar. É essencial ter consciência de que não existe felicidade perfeita neste mundo. Como assim? Não serei total e plenamente feliz neste mundo quando o grande amor da minha vida finalmente chegar? Devo dizer que não porque ninguém consegue nos fazer plenamente felizes, a não ser Deus. Fomos criados por Deus e para Deus e com um imenso espaço vazio a ser preenchido por amor, que apenas Ele consegue preencher. A maior sede que temos é a sede de Deus. Só Ele é capaz de saciar nosso coração. Portanto, se o seu coração está vazio, não é uma pessoa, por mais “perfeita” que seja, que vai enchê-lo. Para isso, vá à Fonte primeira do Amor, e lá, junto Dele, como a Samaritana no poço de Jacó, seu coração será plenamente saciado, e somente por meio Dele.

Além disso, é preciso tirar da cabeça o ideal “romântico” dos “amores" de novelas e filmes. Isso não é amor, mas sim uma caricatura de amor. Muita coisa se tem chamado erroneamente de amor hoje em dia, tudo se coloca na conta do amor. O termo é bonito, é forte, impressiona, faz boa vista, dá ibope, além de muitas curtidas nas redes sociais, mas é muitas vezes usado de forma leviana. Porque o amor de verdade é exigente. É bem diferente do que o mundo tende a nomear de amor. Cristo nos dá a perfeita definição de amor na sua entrega total na Cruz. Amor de verdade é doação, é serviço, é gratuidade. Como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus: “Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo”. Amor é antes querer o bem do amado. Muito diferente de querer que o outro me sacie, me traga prazer e satisfação, isso tem outro nome: egoísmo. Amor é entrega de si por inteiro a quem se ama. Amor é sacrifício. Bela é a definição da palavra sacrifício que significa ‘tornar sagrado’. Isso sim é amor.  

É necessário estar atento para não cair na armadilha de viver como quem espera um relacionamento para então começar a ser feliz. Não existe namorado ou marido perfeito nem esposa perfeita nem relacionamento ou casamento perfeito. Nesse sentido, Cormac Burke nos revela que “A felicidade pode ser encontrada no casamento, mas não de modo ilimitado; pedir ao casamento uma felicidade perfeita é pedir demais. Contudo, o homem foi feito com a capacidade e a sede de uma felicidade ilimitada. Qualquer pessoa de fé sabe que a felicidade perfeita só pode ser encontrada de modo real e permanente em Deus; e sabe também que essa felicidade não é possível nem duradoura nesta terra, mas somente no Céu. (...) Se alguém espera demais do amor e do casamento, está destinado a decepcionar-se profundamente”.

Para confirmar isso, bem observou Tolkien quando disse que tanto o homem quanto a mulher são companheiros em um naufrágio. Ou seja, nem ele nem ela conseguem se salvar por si só ou salvar ou trazer a felicidade ao outro. Só com Deus na condução desse barco se consegue alcançar uma vida plena e com sentido. Antes é necessário estar junto e ligado, primeiro, à Fonte do Amor: Deus. E, partir daí, com o coração centrado Nele, com a consciência de que se é profundamente amado pelo Senhor (cada um de nós é fruto de um sonho de amor de Deus, Ele nos quis desde sempre), e saciado pelo Amor, é muito mais fácil e leve abrir-se para amar alguém.

Vale dizer, ainda, que a solidão, a carência ou a ansiedade são más conselheiras. Portanto, não permita que elas guiem suas ações. Acontece de muitas pessoas por solidão, carência ou ansiedade baixarem seus padrões na tentativa desesperada de encontrar alguém. Isso em geral acaba em frustração, decepção e arrependimento.

Além disso, sabe aquela história de que o ontem já é passado, o amanhã está por vir e o presente é o que temos agora? Então, foque na sua vida hoje. Viva sua vida presente da melhor forma que você puder. A vida é um dom, um presente de Deus. É tempo de desenvolver suas capacidades, crescer em virtudes, aprender coisas novas, fortalecer os laços de família e de amizade. Conhecer pessoas e lugares diferentes, fazer o que você gosta. Buscar uma vida de oração, quem sabe com a ajuda de um diretor espiritual. Praticar atividade física é essencial, faz bem à saúde, aumenta a disposição e ajuda no bem-estar. Vale investir esse tempo também em se doar a algum projeto (não enterre seus talentos), em visitas a asilos, orfanatos, a idosos que moram sozinhos, a um doente, por exemplo. Uma vida de sentido é uma vida que se doa, que serve.

Deus tem um plano autêntico, belo e original para cada pessoa. Coloque-se nas mãos do Senhor. Você será tanto mais feliz quanto mais se entregar, confiar e se abandonar aos planos de Deus para sua vida. Jamais alguém que esperou no Senhor foi desamparado. Esse é um tempo que deve ser vivido bem e de forma leve, serena e feliz. Faça desse período um momento incrível. Viva e aproveite o presente. Afinal, a escolha e a decisão são suas. 

Dayane Negreiros

Formada em Letras pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduada em Revisão de Textos, servidora pública. Conheceu a Teologia do Corpo (TdC), as catequeses sobre o amor humano no plano divino, de São João Paulo II, e se apaixonou pelo assunto. Em 2013 conheceu alguns membros do Apostolado Nacional da TdC e, desde então, caminha com eles no estudo e na divulgação dessas catequeses. Filha e devota de Nossa Senhora de Guadalupe. Pró-vida. É membro da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Brasília e administradora da página, no facebook, e do instagram da Teologia do Corpo Brasília.

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